JA – Meu nome completo é comprido. Meu nome é Francisco Javier Ulpiano Alfaya Rodrigues. Sou nascido em Redondela, Galícia, Espanha, em 31 de julho de 1956. Cheguei aqui no Brasil pequeno. Minha família é de imigrantes. Meu pai veio trabalhar no Brasil e chegou aqui no dia 1º de outubro de 1963.
Veja a entrevista na íntegra
E o nome e a profissão de seus pais?
JA – Meu pai trabalhou em fábrica, funcionário de indústria de bebidas. O nome dele era Fernando Alfaya Bula. Minha mãe foi sempre dona de casa, Maria Emma Rodrigues Guerra.
Sua família teve envolvimento anterior com a política?
JA – Sim, teve. Tenho tios que foram militantes, são ainda militantes de causas progressistas, lá na Espanha. Minha família toda é espanhola originalmente, e meu pai também foi muito influenciado pelo ambiente político espanhol, do pós-guerra civil, do pós-Guerra, na II Guerra Mundial, com uma formação assim muito confusa politicamente, porque possuíam uma bagagem educacional bastante conservadora. Mas há também referências familiares de militância em partidos de esquerda, do Partido Comunista Espanhol, Partido Socialista, hoje novamente no poder na Espanha. Então, na família, eu tenho referências de dois campos bem nítidos. Desde sempre houve interesse pela política.
Que influência isso teve na sua vida?
JA – A influência não foi determinante, mas foi importante. Importante porque em minha casa o que havia era uma carga, não de formação, mas de rica informação política. Meu pai e minha mãe sempre cuidaram pra que nós tivéssemos vasta informação sobre literatura, história, especialmente história, o que acabou aguçando a curiosidade sobre o que são as coisas, como funciona a dinâmicas da sociedade e… porque um regime político é assim ou assado. Enfim, em 1964 houve o golpe militar.
Eu me lembro das tropas em Salvador, a movimentação nas ruas. Então, a política pegou pesado e quando a gente viu a intervenção militar, autoritária aquilo ficou marcado. Eu tinha oito anos de idade mais ou menos e referências de uma outra ditadura, a espanhola, de Franco, bem mais feroz do que a brasileira. Então aquilo serviu, digamos de alerta, sobre como as coisas eram e como poderiam ser, isso acabou aguçando a minha curiosidade política, que depois se desenvolveu mais tardiamente. Ainda no 5º ano primário (antigamente era assim), começou a haver pessoas, adultos, professores, principalmente, falando de ditaduras. lebravam Franco na Espanha… a ditadura brasileira…’. E, acabei sendo marcado por duas ditaduras. Minha família veio de um país sob um ditadura fascista, barra pesadíssima, construída a partir de uma guerra civil que deixou mais de um milhão de mortos, dezenas de milhares de fuzilados e desaparecidos. E acabamos aterrisando numa realidade que também viveu, logo depois, uma ditadura com também seus milhares de perseguidos, presos e também suas centenas ou milhares de mortos e desaparecidos. Isso marcou muito essa fase de oito, nove anos, e a partir daí comecei a ficar aberto e curioso com as coisas da sociedade, com as injustiças sociais e da política.
Nessa época, onde você estudava?
JA – O principail foi o Colégio Maristas. Entrei no que era antigamente 1ª série do ginásio, que agora seria a 6ª do fundamental. Entrei nos Maristas e só saí mesmo para o vestibular. Então, toda a minha formação da segunda metade do ensino fundamental ao ensino médio foi no Colégio Marista de Salvador, que era -é ainda- um colégio de elite, de excelente nível de formação cultural, que ajudou muito a minha politização e a minha formação política.
Porque lá, apesar da ditadura, vivia-se um clima de informação, não de militância, porque não havia militância estudantil. Era é uma típica escola particular, voltada para um segmento mais elitizado da população, embora no colégio houvesse uma forte presença de classe média mesmo, não apenas filhos das famílias mais ricas de Salvador, da Bahia. Havia uma forte presença da classe média e de filhos de intelectuais. E isso ajudou a construir um clima cultural no colégio. Lá nos Maristas, eu ouvi falar pela primeira vez de conceitos como: independência nacional, soberania nacional, socialismo – se fava em socialismo em sala de aula de história. Eu me lembro de um episódio uma solenidade de Sete de Setembro. Um professor fez um discurso falando da verdadeira independência nacional. Depois descobri que ele veio a ser um militante do meu partido. Uma pessoa destacada, chegou a ser presidente do PCdoB de São Paulo, o Olival Freire.
Tudo isso vai criando em alguém com 12, 13 anos, referências outras, que são a base para uma formação direcionada, sólida. Eu vejo nisso as bases da minha politização.
E quando você ingressou na universidade? Onde estudou?
JA – Eu tinha me interessava por arte, por cinema, por fotografia. Aprendi a fazer fotos. Eu sou fotógrafo. Arquiteto de formação, mas fotógrafo. Na escola a gente teve acesso à produção cultural. Os filmes de Glauber Rocha eram proibidos, mas a escola passava os filmes dele, meio que às escondidas.
Tinha um professor de cinema que dava uma aula excepcional, uma aula fora da aula. Era uma conversa às 6 da tarde. A gente assistiu Terra em transe, assistiu Barravento, o primeiro filme de Glauber. Isso tudo no colégio. Foi politização e foi formação cultural ao mesmo tempo. Então, quando a gente, eu e um grupo de pessoas de lá, dessa minha geração, entrou na universidade, já sabendo o que queria.
Queríamos nos aproximar, na universidade, da esquerda. No meu caso, e8u busquei o Partido Comunista, que eu não conhecia, mas sabia que existia por revistas e jornais da Espanha, que vivia seu período de democratização por lá. Tudo isso entre 1974, e 1976. Foram os anos chaves na minha decisão de me tornar militante. Então, fiz vestibular para Arquitetura, na Universidade Federal da Bahia, e já entrei participando. Entrei em 1975, quando houve a primeira greve geral estudantil universitária depois da grande repressão de 1968 , do fechamento dos DAs, dos DCEs, do AI-5, do 477, dessa coisa toda. Foi uma greve que teve grande repercussão, a nível nacional e internacional. A BBC de Londres acompanhava e noticiava a greve.
A gente ficava ligado na BBC para depois falar nas assembléias. Era uma greve contra as normas do jubilamento. Algumas dessas normas eram mais acentuadas na problemática acadêmica. Quem ficava tempo demais na universidade, por exemplo, e repetia muitas disciplinas, perdia a matrícula. Só que o jubilamento era também usado com uma forma de perseguição política. Quando a gente atacou o jubilamento, atacou porque ele representava um instrumento de perseguição política aos estudantes militantes. Nossa greve, como toda greve na época da ditadura, não era por causa apenas daquela bandeira.Tinha como intenção, como móvel explicito ou implícito a conquista de liberdade, da democracia na universidade e, por conseguinte, na sociedade brasileira como um todo. A gente brigava contra o jubilamento, mas a luta, na verdade, era contra o autoritarismo na universidade, a presença da ditadura nas normas internas, que eram discriminatórias, antidemocráticas, e também através do SNI (Serviço Nacional de Informações).
Nas universidades públicas, nas federais, existia a ASI (Assessoria de Segurança Interna) que era o escritório do SNI dentro da universidade. E ficavam lá os dedos duros, perseguindo e fiscalizando estudantes, professores, funcionários. Controlavam o que o professor dizia em sala de aula, o conteúdo da disciplina, o que o estudante fazia. Então, a gente fez a greve, que foi um sucesso tremendo. Derrubamos a grande maioria das normas do jubilamento. Foi uma greve geral, de 100% de adesão. Um negócio fantástico.
Naquela época, não conseguimos ainda fazer passeata, isso só fizemos em 1976. Mas foi a primeira grande manifestação pública de Salvador da Bahia depois da grande repressão de 1968. Porque até 1968 ainda havia passeatas. Depois disso, até 1975, foi brabo. Só aconteciam os encontros de caráter não políticos. Sobreviveu apenas os encontros nacionais de engenharia e os encontros científicos de medicina, que tinham que ser chamados científicos, para poderem passar pelo crivo da ditadura. Se dissesse “Encontro Nacional de Estudantes de Medicina”, o MEC não autorizava.
Mas, encontro científico podia. As palestras eram todas em torno de assuntos técnicos. Mas havia, além das mesas redondas no auditório, outras mesas redondas e encontros, que foram criando esse processo de reconstrução do movimento estudantil, que se acelerou a partir de 1975 até se desdobrar, em 1979, na reconstrução da UNE, em Salvador também.
Gostaria de frisar uma coisa que eu acho importante, já que nós estamos aqui falando e registrando a memória do movimento estudantil: já se falava em reconstrução desde 1972. Nessa época, eu não era ainda da universidade (já que estou falando do que eu vivi concretamente, não apenas do que eu ouvi falar), eu era secundarista, mas nós já ouvíamos falar no assunto. Depois, isso se confirmou com a minha presença na universidade, observando, lendo coisas e ouvindo pessoas que participaram. Houve um forte movimento cultural, uma coisa que a UNE agora resgata e põe em outro patamar, que é o Circuito Universitário Cultura e Arte (CUCA), as Bienais da UNE etc… Em 1972, por exemplo, na Bahia, – quase ninguém sabe disso, é importante que se diga – foi feito o cinqüentenário da Semana de Arte Moderna de 1922, para comemorar os 50 anos de Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Vila Lobos, Tarsila do Amaral e etc. e tal. Foi uma valorização da cultura e da arte brasileira e, ao mesmo tempo, da identidade nacional brasileira. Portanto um momento de nos afirmarmos como brasileiro contra a presença cultural do imperialismo americano, principalmente porque, é bom frisar, em 1971-72, na UFBA, houve a primeira aplicação da Reforma MEC-USAID. A primeira universidade brasileira que teve sua estrutura interna curricular e organizacional, do ponto de vista acadêmico, alterada para adequá-la à reforma do MECUSAID, da agencia norte-americana de difusão cultural, foi a UFBA.
O que se alterou no dia-a-dia da Universidade depois da reforma?
JA – Bom, alterou muito. Acabou-se com o curso seriado, o que trouxe grandes conseqüências acadêmicas, com a perda da unidade dos cursos – do curso de filosofia, de Arquitetura, medicina e tal. Houve uma atomização do curso e, ao mesmo tempo, uma quebra também da unidade política dos estudantes e uma quebra da unidade da convivência, não apenas política porque se quebrou muito a cultura da convivência, de se estar mais tempo na sua faculdade, no seu curso, ou na sua unidade de ensino, para conviver com a geração que entrou na faculdade e outras que já estavam e as que viriam depois.
Ao se criar o curso básico nos institutos básicos ou as matérias ou as disciplinas nucleares que você podia fazer em outros lugares, com alunos de outros cursos, em tese havia vantagem da convivência com pessoas de outros cursos. Mas isso trouxe a diluição da disciplina, porque se fugia muitas vezes de conteúdos que mais interessavam a este ou aquele outro curso. Criou-se muita insatisfação acadêmica, muita crítica acadêmica, consistente, a esse tipo de modelo.
Resumindo, trouxe como conseqüência a quebra da unidade da convivência social e da articulação política, além de outras conseqüências à qualidade de ensino, no terreno meramente acadêmico, que especialistas revelam, hoje, serem objeto de críticas muito profundas e até da retomada de uma reflexão acerca de como deve ser o modelo de matrícula, por exemplo, nas universidades públicas brasileiras: se em cima do sistema de créditos, que era o que a reforma trazia, ou se através de um outro sistema. Hoje, isso está em debate, se nós devemos retomar o curso seriado, ou não, como re-estruturar, se as disciplinas nucleares, das grandes áreas do conhecimento, devem ter conteúdo específico ou não.
Só para colocar o exemplo específico da UFBa, que foi a primeira a aplicr a reforma, a matemática básica, que serve para toda área de Exatas, já é ministrada de maneira dirigida para certos cursos, que exigem detalhamento em alguns conteúdos. Na UFBA, a Arquitetura está classificada como Ciências Exatas, diferente de outras universidades federais, em que Arquitetura está em outras áreas de conhecimento.
Então, havia demandas específicas do curso que era impossível atender, tendo esta espécie de ensino da matemática básica ou física básica para todos os cursos. Mas isso é um programa a ser debatido com mais detalhes. Voltando então à história: em 1972, 1973, 1974, 1975, houve muita resistência cultural e também a construção do primeiro CUCA e do primeiro CUC na UFBA. O CUCA renasce ou nasce agora por um projeto da UNE, mas o CUCA, enquanto sigla, existiu na Bahia entre 1973-75. Claro que não era esse projeto que está em curso, que é muito mais grandioso, com muito mais potencial, em outras circunstâncias completamente diferentes. Nós estávamos resistindo à perseguição, à ditadura, à polícia, à expulsão da universidade. Mas, na Federal da Bahia, existiu o CUCA (que era Centro Universitário de Cultura e Arte) e havia o CUC (Circuito Universitário de Cinema), que pertencia ao CUCA. É bom frisar isso porque são duas siglas hoje muito usadas com outro conteúdo, em outra conjuntura histórica. Mas a coincidência é bonita e interessante.
Como foi a tua trajetória dentro do movimento estudantil?
JA – Eu participei da greve no final de 1975 e início de 1976. Nas férias, nós ficamos matutando: Como é que a gente dá continuidade a essa exclusão com a greve contra o jubilamento? Havia duas vertentes básicas. A primeira era a participar do movimento estudantil especificamente disputando Diretório Acadêmico, a diretoria do DA e do DCE, coisa que eu acabei fazendo. E uma segunda vertente era a intervenção artística e cultural. Então, nós criamos, em A|rquitetura, um grupo de teatro que se chamou “Sonhos e Concretos”, que eu acho um barato, nome que jogava as expectativas do sonho e a completude do concreto da Arquitetura. Então, resultado da intervenção concreta, do concreto da Arquitetura e do sonho, “Sonhos e Concreto” era o grupo de estudantes de Arquitetura. E a gente pegou os livros do Boal, Teatro do Oprimido, Duzentos Jogos de Exercícios de Teatro para Ator e não Ator. Pegamos depois o livro de crônica dele, Nostra América, escolhemos uma das crônicas, que era Nossa Senhora dos Oprimidos, e fizemos três ou quatro colagens de textos.
Fizemos uma primeira montagem a partir de uma criação coletiva, depois fizemos uma colagem de textos de Brecht, Aquele que diz sim e aquele que diz não. Foram três textos, três montagens, com diversas apresentações no pátio da escola de Arquitetura, no pátio da Escola de Teatro e, uma vez, no Instituto de Arquitetos, que não foi feita porque a polícia federal chegou e disse que se a gente fizesse saia todo mundo preso. A gente acabou fazendo, a gente decidiu não fazer a apresentação por causa do IAB. A gente queria preservar o IAB que era um espaço emprestado, a gente não quis comprometer então, aquilo que não era nosso, a gente quis preservar o IAB. Mas dentro da Universidade mesmo com a polícia não querendo, a gente fazia e fizemos quantas vezes quisemos. Então, eu quero pontificar essa característica daquela época.
Havia uma boa articulação entre militância política especificamente estudantil, convencional, e havia uma convenção cultural artística de agitação política muito interessante. Na UFBA havia isso. Tínhamos também muitas Mostras de Som, como a gente chamava. Diana Pequeno, que é uma figura que circulou muito pelo mundo de São Paulo e acho que ainda mora em São Paulo, nasceu das mostras de som da Universidade. Ela fazia engenharia química. Outro músico importante na Bahia, Carlinhos Cor das Águas, também fez Arquitetura. Durval Lélis, que é uma figura muito conhecida, hoje Asa de Águia, uma figura que circula pela Axé Music, com o Trio Elétrico aqui, por SP, Rio, uma figura já nacional, mas que tocava Bob Dylan na época. Essa turma é uma geração que veio do movimento estudantil da UFBA a partir dessa geração 1975-76.
Que correntes políticas e ideológicas estavam presentes no movimento estudantil nesse momento?
JA – Bem, com muita força na UFBA e à nível nacional, tinha o PCdoB, ao qual eu me liguei já nessa época. O PCdoB dirigia uma corrente estudantil que foi fundamental na reconstrução do movimento estudantil: a Viração. Esse nome é definitivo e marcante na história do movimento universitário. E havia uma outra corrente que se chamava Caminhando, ligada também ao PCdoB. Porque o PCdoB, por razões de segurança, em função de proteger-se contra perseguição da polícia, armou clandestinamente duas estruturas. Essas duas estruturas, que eram as duas do PCdoB, acabaram dirigindo duas correntes de movimento estudantil, que se articulavam e acabaram depois tendo divergências. A Caminhando tinha a sua base principal em São Paulo, e Viração era muito forte no restante do Brasil. Caminhando tinha também ramificações no Rio de Janeiro e em outros lugares.
Estas eram duas grandes correntes do PCdoB, mas havia outras tantas correntes. Uma outra corrente, na época clandestina, com muita força também se chamava AP, que era APML: Ação Popular Marxista Leninista. Chama-se, em Salvador, se eu não me engano, de Nova Ação. E havia também as correntes trotsquistas todas, como a Liberdade e Luta e outras. As correntes estudantis ganhavam nomes diversos, mas a matriz do pensamento político era trotsquista. Tinha a Quarta Internacional, como nós, ou eles mesmos, se autodenominavam. As correntes estudantis ganhavam denominações diversas em função de conteúdos políticos programados com estratégicos diferenciados. No caso da Bahia, havia Combate, havia Liberdade de Luta, havia Viração, havia Nova Ação, havia o PCB, que tinha muita força em plano nacional, a partir de São Paulo basicamente e do Rio também, e o PCB que tinha muita força na corrente histórica, já vinha de antes, de 1968, que na Bahia se chamou Sangue Novo. Esse nome foi dado a uma plataforma que concorria ao DCE, e acabou batizando a corrente política.
As correntes, que eu me lembrei assim de supetão, eram essas que havia. Havia também, é claro, correntes mais conservadoras, mas eram minoritárias. Eu me lembro que, no Congresso da reconstrução da UNE, a única direita presente era gaúcha. Eram Getulistas, se a gente podia chamá-los de direita. Mas eles se apresentavam como os mais conservadores. Eles mesmos se auto-colocavam numa posição hostil à esquerda. Então, mesmo que eles não fossem propriamente de direita, e não eram, no universo sectário que predominava no movimento estudantil, se eles não eram um de nós eram contra nós.
Javier, você poderia falar um pouco sobre a sua militância dentro da UFBA. Você foi candidato à coordenação do seu CA lá, não foi?
JA – Fui. Vocês chamam aqui de CA, mas nós chamamos de DA. Até houve uma grande polêmica, assim, radicalizada, no movimento estudantil, se devia ser CA, DA ou DA Livre. Até hoje essa polêmica não se encerrou, e ficou pelo formalismo do que já estava posto. Quem era CA ficou CA (Centro Acadêmico), quem era DA ficou DA (Diretório Acadêmico). No Nordeste, era Diretório Acadêmico. Então, ficou DA. Em Arquitetura, até por uma resistência cultural do pessoal de Arquitetura, o DA não se chamou DA, que era um padrão que a ditadura queria impor: Então, Arquitetura ficou como era antes: DEA (Diretório de Estudantes de Arquitetura). Era para ser Diretório Acadêmico de Arquitetura, mas a gente manteve conscientemente a sigla DEA como uma forma de resistência mesmo. Então, em 1976, eu fui candidato a diretor do DEA. Não ganhamos a eleição, perdemos para a chapa dirigida pelo PCB. Essa chapa fez um discurso muito despolitizado, advogando uma coisa que era uma das marcas do PCB na época, que era uma maneira de se contrapor a nós. O PCB defendeu o tipo de movimento estudantil que era muito mais para formação de quadros para tarefas posteriores na ocupação dos espaços permitidos ou a serem conquistados na sociedade. Nós discutíamos muito isso contra o PCB, dizendo que era uma visão etapista da revolução, uma visão errada de um processo de transformação revolucionário ou mais estrutural, mais profundo do Brasil. Era uma idéia de que tinha que se ocupar espaços na máquina pública. É interessante porque essa é uma discussão que se está posta agora. A esquerda chegou aos postos da máquina pública no país. Boa medida, porque nós ganhamos a presidência da República. Quer dizer, nós ganhamos isso e tudo que é seguinte. A esquerda dirige alguns governos de Estado, dirige muitas prefeituras, está nas Assembléias, está nas Câmaras, na
Câmara dos Deputados, nas Câmaras de Vereadores, nas Assembléias Legislativas, no Senado, nas administrações públicas, nas estatais, nas secretarias. Naquela época, havia um forte debate sobre isso.
O PCB advogava um movimento estudantil mais despolitizado, no sentido de que não era bem do movimento estudantil fazer grandes ofensivas, grandes passeatas, confrontos. O movimento estudantil, segundo eles, deveria se voltar para dentro da universidade, refazer a universidade, ocupar postos dentro da universidade, ter representações nas instâncias acadêmicas de direção da universidade: Conselho Universitário, Conselho de Pós-Graduação, Conselho Extensão, Conselho de Curadores,
colegiado, departamentos etc., para ir formando os quadros politicamente e intelectualmente para posterior ocupação de cargos nas instâncias públicas. Eles criavam uma dicotomia entre isso e a militância mais combativa, mais de liderança de massas, de movimentos para os quais nós iríamos durante a universidade ou depois da universidade, para sermos provavelmente um militante de esquerda dirigente, de sindicato, associação de moradores, movimento negro, movimento feminista, que naquela época recomeçava com força, movimentos ambientalistas, os chamados movimentos sociais. Então, como na época era tudo radicalizado no embate teórico entre os estudantes, havia uma falsa contradição (hoje, nós vemos que é uma falsa contradição, mas na época era um divisor de águas) de concepção de movimento estudantil. Então, nós perdemos a eleição no DEA para o pessoal
que defendia esse tipo de concepção, que acabou levando a uma diretoria que fechou o DEA. O Diretório de Estudantes de Arquitetura ficou – não falo simbolicamente – ficou literalmente sem funcionar um ano. Aí depois a vitória foi fácil, porque ficou provado que a tese do movimento estudantil despolitizado levava na prática a um movimento estudantil parado, a um não-movimento estudantil.
Foi o que aconteceu na Arquitetura. Então, nós ganhamos a eleição seguinte. Eu era candidato à presidente. Então eu fui presidente do Diretório de Arquitetura em 1977, gestão 1977-1978. Depois, fui eleito secretário geral do DCE, na gestão 1978-1979. Houve a reconstrução da UNE em maio de 1979 em Salvador. No final de 1979, eu disputei outra eleição e, de secretário geral, passei a ser candidato à presidência do DCE da UFBA, que era – junto com o da Federal de Minas, da Federal do Rio de Janeiro, da USP, da PUC-SP e da Federal de Pernambuco – um dos mais importantes e ativos DCEs do Brasil, naquela época.
E quais eram as principais reivindicações dos estudantes da UFBA naquele momento?
JA – Todas as plataformas de disputa DCE eram muito específicas, contradizendo essa leitura conservadora de que o movimento estudantil se dispersou, em determinados momentos, porque ele não abraçava as reivindicações universitárias propriamente ditas ou acadêmicas. Isto é falso. Eu afirmo categoricamente que isso é falso. Em nenhum ano, nenhuma plataforma estudantil de disputa de DCE deixou de ser assentada fortemente em reivindicações internas da universidade. Incrível isso. Quem afirma o contrário, simplesmente mente propositadamente, desconhece ou não faz uma análise minimamente séria a partir de leitura de documentos da época, dos jornais, das plataformas. Dizer que o movimento estudantil era apenas um biombo para as organizações clandestinas se manifestarem, isso é falso. O movimento estudantil era movimento estudantil mesmo, para valer. Na nossa plataforma do DCE tinha desde reestruturação dos currículos de cada curso até a melhoria das condições de vida nas residências estudantis, melhoria da qualidade da alimentação nos restaurantes universitários. Era uma contradição tremenda. O restaurante universitário sempre foi um grande foco de agitação estudantil e uma grande fonte de reivindicações para a melhoria da política da assistência aos estudantes. Então, esta era uma pauta fortíssima. Havia também a luta por mais verbas para aplicar em laboratórios e bibliotecas, na compra de mais livros, de mais equipamentos, de mais instrumentos; apoio à luta de funcionários e professores, que naquela época era muito discreta, praticamente inexistente. Portanto, essa luta chamada específica era muito forte, muito acentuada, e
com ela se articulava a luta de caráter político mais geral. Na minha chapa para o DCE, nós já reivindicávamos, por exemplo, a convocação da Assembléia Constituinte, que só veio a acontecer a partir em 1987-1988. As nossas bandeiras políticas eram: anistia ampla, geral e irrestrita e revogação das leis de exceção. O slogan era esse: “Pelas liberdades democráticas e pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte”. Eram essas as grandes bandeiras políticas, de caráter anti-ditatorial, democrático, que nós defendíamos. Ao lado disso, nós levantávamos bandeiras antiimperialistas contra ingerência do modelo norte-americano e das agências de fomento à pesquisa acadêmica no meio universitário. A discussão sobre o papel da Fundação Rockfeller, da Fundação Ford é uma polêmica atual: a relação de projetos da Fundação Ford com certas pesquisas, a influência em certos conteúdos e certas concepções de movimento social, movimento negro, movimento ambientalista, movimento de juventude, movimento feminista. Isso já era um assunto em 1974, em 1975. Já era de antes, na verdade. Mas eu falo da minha época, em 1975, 1976, 1977. Nós discutíamos o papel e a presença de fundações norte-americanas na estrutura da universidade, na estrutura acadêmica e na estrutura física.
Em Arquitetura, nós tínhamos umas salas que eram fechadas. Nós não sabíamos o que era. Havia uma marca, um cartaz, uma placa, dizendo que era um projeto ou um programa de pesquisa financiado pela Fundação Ford ou pela Fundação Rockfeller. No caso de Arquitetura, eram programas de estudos sobre recuperação de áreas degradadas ou características da favela brasileira ou da favela na Bahia. E nós achávamos que tinha muito a ver com os estudos de contra-insurgência, com a política de Segurança Nacional que os americanos desenvolviam no Brasil e no resto da América Latina. Tinha a ver, porque
os focos do protesto, da luta, não tinham a ver somente com a floresta tropical, como era o caso da experiência guerrilheira da década de 1960, que culminou com o guevarismo, com o exemplo de Che Guevara, quer dizer, com a tentativa da organização guerrilheira em mata tropical, em floresta tropical – como no caso da Bolívia e com a Guerrilha do Araguaia, depois no Brasil. Havia um interesse muito aguçado desse Centro de Inteligência sobre a viabilidade, a possibilidade de insurreição em grandes centros urbanos e em zonas de degradação social, de grande pobreza. E nós achávamos que, no caso de Arquitetura, os estudos focados nesse tipo de tema, financiados por fundações norte-americanas, tinha muito a ver com o estudo da possibilidade de insurreição ou de levantes urbanos a partir de
zonas faveladas, por exemplo. Então, havia essa polêmica entre nós e essa polêmica se estende até hoje. O problema do financiamento das pesquisas e da influência do órgão financiador, da agência financiadora nos processos, nos métodos de pesquisa, nos conteúdos a serem investigados, as “principalidades”, as coisas secundárias e nos resultados finais, evidentemente. Então, esta era uma das questões presentes na nossa plataforma. Nós discutíamos isso, estava escrito nas plataformas que disputavam o DCE. Portanto, havia um forte conteúdo antiimperialista nas plataformas. A minha era assim. Havia uma referência explícita ao imperialismo norte-americano. Nós usávamos muito a referência gráfica da águia norte-americana e do ataque ao símbolo dos Estados Unidos da América do Norte. Havia bem uma articulação entre o político mais geral, de caráter antiimperialista, com a
influência disso nos curriculuns e na estrutura acadêmica. Então, aquele que diz que o movimento estudantil não tem uma tradição de luta específica, acadêmica, universitária no sentido restrito do termo, desconhece a história do movimento estudantil. Como não havia debate entre os partidos abertamente, porque os documentos eram clandestinos, boa parte do debate teórico da esquerda brasileira era transferida para as plataformas do movimento estudantil. Como não havia também a disputa de Centrais Sindicais (porque elas eram proibidas) ou dos Sindicatos (porque eles estavam sob intervenção do Ministério do Trabalho), o movimento estudantil, ao lado das teses acadêmicas e do debate dentro das faculdades feitas com os professores, era o grande palco de confronto das teses das
organizações clandestinas, já que seus documentos não podiam se confrontar tão abertamente quanto, por exemplo, as plataformas de um DCE, que acabava virando também plataformas de uma visão de Brasil e de uma visão da luta e transformação do Brasil que cada uma das organizações clandestinas tinha.
Vamos falar um pouco, agora, do processo de reconstrução da UNE. Você participou em 1976 do I Encontro Nacional de Estudantes, onde começou o debate sobre a reconstrução?
JA – Não, eu não participei dos ENEs. Foram quatro ENEs – Encontro Nacional de Estudantes, sempre por definição política. No primeiro e segundo, nós da Viração não reconhecíamos muito. Quer dizer, os encontros aconteceram sem a nossa participação, pelo menos mais massiva e forte. Da Bahia, a impressão que a gente tinha é que eram muito centrados numa dinâmica da USP e muito de São Paulo. E nós tínhamos restrições a um processo que não levasse em conta a média nacional ou, pelo menos, outras realidades que não fosse a paulistana. Então, a gente desconfiava um pouco assim, de uma certa postura que a gente achava que saía da média do comportamento do estudantado brasileiro.
Achávamos que seria um movimento estudantil de minorias, meramente da vanguarda, e não de um grande contingente estudantil. Depois do 3º ENE e do 4º ENE, ao que me consta, nós do PCdoB participamos, e participamos com muita força. Mandamos gente do Brasil inteiro, delegações com centenas de pessoas. Marcamos muita presença. Eu não fui ao 3º e ao 4º ENE por uma decisão nossa. Rui era presidente de DCE e eu era secretário geral. O presidente viajava, e era possível a sua prisão no meio do caminho ou a dificuldade de voltar por obstáculos que a repressão poderia colocar. Então, eu fiquei na Bahia. Eu me lembro que a gente discutiu isso e ficou decidido: o Rui vai e Javier fica.
Então, o Rui foi para o 3º ENE e eu não fui. Então foi uma divisão de tarefas, digamos assim. Mas eu participei muito de assembléias e ajudei a escolher delegados. Acho que fui candidato, não me lembro direito, a delegado de Arquitetura, mas nós escolhíamos também suplentes, e acabei não viajando por uma decisão de movimento estudantil. Esses ENEs acabaram redundando numa proposta de criação da Comissão pró-UNE, que era formada por quatro ou cinco DCEs, destacadamente pelo DCE da Federal da Bahia, o DCE da USP, o DCE da PUC-SP, o da UFRJ e, não me recordo com muita precisão, mas acho que também o DCE da Federal de Pernambuco. Dessa comissão pró-UNE, aí sim, eu participei com muita força. Em Salvador, nós fizemos muitas atividades pela reconstrução da UNE,
Preparamos a cidade para receber o Congresso de reconstrução. Foi lindíssimo, porque não tínhamos dinheiro para pagar hotel e precisamos receber milhares de pessoas. E a cidade de Salvador hospedou milhares de pessoas. Além de nós hospedarmos pessoas nas dependências das universidades -com muita restrição, porque os diretores, para não falar dos reitores, não queriam emprestar as dependências das faculdades-, nós colocamos, se eu não me engano, mais de 2 mil, 3 mil pessoas hospedadas em apartamentos, em residências em Salvador. Nós fizemos campanha pela imprensa e as pessoas ligavam para a central oferecendo suas casas. Conseguimos hospedar milhares de pessoas em residências, em 1979. O processo de reconstrução da UNE foi muito bonito. Foi um processo acompanhado com muito interesse por parlamentares da oposição, pelo MDB da época, por sindicatos de trabalhadores rurais. Eu me lembro da presença do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
São Felix do Araguaia, que falou em nome dos camponeses no Congresso de Reconstrução da UNE em 1979. José Serra falou como último presidente da UNE na legalidade. Ele era o presidente da UNE na época do Golpe Militar e falou em nome dos ex-presidentes. Levantamos a fotografia de Honestino Guimarães. A partir de uma foto pequenininha, 3×4, de uma carteira de identidade que conseguimos com familiares seus, nós fizemos um grande retrato de Honestino. O Congresso da Reconstrução da UNE, no ato de inauguração, tinha 11 mil pessoas. José Celso Martinez se apresentou. O Oficina ainda não existia em São Paulo, não tinha sido ainda reconstruído. Zé Celso Martinez tinha voltado de Moçambique. Ele e outro companheiro seu apresentaram filmes feitos em Moçambique, fizeram uma intervenção teatral importantíssima, de caráter bem antiimperialista, anti-norte-americano, antiestados unidense, já falando em revolução cultural. É bom frisar que nós vivíamos uma época em que nós conseguíamos, para felicidade do movimento estudantil, da esquerda brasileira, absorver lições que vinham de 1968, do movimento extra-partidário militante. A gente absorveu muito a cultura hippie, elementos e conteúdos que vinham de outras preocupações que não apenas da militância partidária, explícita, política. Então, naquela época começou a se falar muito dos direitos da mulher. Na minha
campanha para o DCE da UFBA, nós fizemos uns cartazes, que eram cópias heliográficas, feitas em escritórios que faziam cópias para Arquitetura, que a gente não tinha dinheiro para pagar off set, então a gente fez uns cartazes. Eu me lembro que havia a figura de uma mulher super bonita, que fizemos a partir daquele quadro que retrata a insurreição em Paris, a revolução francesa. Era um quadro que representava a liberdade dirigindo o povo então. Alguém repetiu a figura feminina, rasgando a vestimenta e mostrando os seios. E o slogan era: “rasgar os mitos”. Quer dizer, em 1978-1979, alguém disputava o DCE mostrando mulheres com os seios nus e apresentando isso como símbolo da libertação da mulher. Era superimportante! O movimento feminista não fazia isso. Não se usava, por exemplo, a nudez. A nudez não como nudez, reafirmando uma visão utilitarista do corpo feminino, mas
a nudez expressando justamente o contrário, como forma de libertação da mulher. A gente colocou isso na chapa do DCE. Hoje em dia, será que se faria isso, por exemplo? Eu não conheço ninguém fazendo isso. Eu acho que foi uma postura super-avançada. Naquela época, começava-se a discutir o uso da maconha: fumar ou não fumar; é legal, não é legal. Discutíamos também homossexualidade e sexualidade no sentido mais amplo do termo. Depois da anistia, em 1979, com a chegada de muitos exilados que vinham de outras experiências, principalmente das experiências da luta libertária, da luta progressista de esquerda, pós-1968 da Europa, esses elementos – como a preocupação ambientalista,
a luta pela igualdade entre homem e mulher – se incorporaram ao ideário da esquerda brasileira de uma forma muito mais ofensiva, muito mais afirmativa do que era antes, menos careta também, digamos assim. A luta pela liberdade de expressão sexual veio com essa geração que estava no exílio na Europa. Eu me lembro que, por exemplo, não havia movimento ambientalista expressivo no Brasil.
Não existia movimento de ONGs. Não havia isso. Até que, no seio das universidades e fora delas, mas com pessoas muito ligadas ao movimento estudantil, foram criados os Comitês de Defesa da Amazônia.
Deve-se destacar também a atuação de um gaúcho superimportante na história do movimento ambientalista brasileiro, que é José Lutzenberger. Ele puxou uma luta pelo fechamento de uma fábrica de celulose no Rio Guaíba e a luta em defesa da Amazônia. E, é claro, as lutas preservacionistas também foram criando um caldo de cultura a partir muito fortemente do movimento estudantil. O que é hoje o movimento ambientalista brasileiro tem sua raiz no movimento universitário e em pessoas que, tendo saído do movimento estudantil e se interessado por fazer Arquitetura, biologia, acabaram depois da universidade se tornando a geração de ambientalistas do Brasil.
Quais foram as principais dificuldades enfrentadas pelo movimento estudantil no processo de reconstrução da UNE?
JA – A ditadura, a repressão política e tudo que isso implica. Dificuldade financeira. A gente não tinha nenhuma fonte de financiamento, nenhuma mesmo. A UNE tem hoje as carteirinhas. Polêmica ou não, monopólio ou não, a UNE tem uma fonte de renda que lhe dá um mínimo de sustentação fundamental.
Aliás, foi quando eu fui presidente da UNE que se criou a Carteirinha da UNE. A UNE não conseguia firmar convênio com ninguém porque não existia legalmente. Então de onde tirar dinheiro para o movimento estudantil? Era um problema. Havia a repressão política, e tínhamos dificuldade de conseguir por causa disso mesmo. Mas era só isso. Havia um clima de desconfiança, de medo em relação aos estudantes criado pela ditadura. Quem queria ajudar não ajudava ou não ajudava muito com medo da repressão e das conseqüências. Isso era uma dificuldade. Então, a ditadura era o grande obstáculo e, portanto, o grande móvel para atiçar um sentido à vida, que extrapolasse o mero objetivo da formatura, de entrar na carreira profissional, ganhar dinheiro, sobreviver profissionalmente e essas coisas.
Esse momento é o da chamada distensão política. Em que medida você acha que a
reconstrução da UNE pode estar relacionada com as mudanças implementadas no governo Geisel?
JA – Bom, evidentemente a reconstrução da UNE teria sido impossível em 1970, 1971, porque ali estava todo mundo correndo da polícia, da perseguição e etc. No momento da reconstrução já havia um abrandamento do regime, mas o regime – é bom lembrar – matou até 1976. Depois houve mortes em manifestações de rua, mas gente que morreu pela ação direta da repressão política foi até 1976, se não me falha a memória. Wladimir Hersog foi assassinado em 1975. Em 1979, evidentemente já estava havendo muito desgaste da ditadura, mas a ditadura só tem fim em 1985 no Colégio Eleitoral. De 1979 a 1985 são seis anos. Havia, portanto, ainda muita gente precisando responder inquérito. Eu fui punido com 15 dias de suspensão na UFBA, porque organizei uma festa pró-reconstrução da UNE na Faculdade de Arquitetura. Durante 15 dias, eu não poderia assistir aula porque fiz uma festa que tinha como meta a reconstrução da UNE. Havia isso. Alem disso, havia toda uma possível perseguição que ficaria marcada no currículo se alguém fosse punido por algo mais severo do que coisas como essas. E havia as perseguições que poderiam ser movidas no terreno judicial, policial propriamente dito. No meu caso, é um assunto que a gente vai tratar daqui a pouco. Quando eu fui presidente da UNE, sofri um inquérito de expulsão do país a partir da lei de estrangeiros, que era uma lei implantada pela ditadura.
Mas a isso foi em 1981, 1982. Ainda em 1979, de fato havia uma distensão. “Distensão” era como eles chamavam, mas a gente resolveu acelerar essa distensão. A gente queria rapidez nesse processo. Nós não usávamos nem o termo “superação”, nem “distensão”. A gente usava a expressão “derrubada ditadura”. A gente queria derrubar a ditadura. Não queira superar a ditadura, não queria que houvesse um processo de auto-regulação do regime, que se transformaria por conta própria de ditadura em democracia limitada, e foi o que de fato aconteceu. Nós queríamos a derrubada da ditadura por um movimento de massas, através de manifestação de rua, pressão. Queda do regime militar, fim da ditadura militar, era o slogan que se levantava. Havia o medo, mas era crescente a cada ano, a cada semana, a cada dia a vontade de superar o medo. Foi, portanto, uma coisa que marcou e educou gerações inteiras de gente que passou pela universidade ou que passou pelo movimento secundarista, tendo ido para a universidade ou não. A gente sempre esquece do movimento secundarista. É bom frisar sempre o movimento secundarista, que se reconstrói nacionalmente logo depois da reconstrução da UNE. No Congresso de Reconstrução da UNE, houve uma reunião de secundaristas. Não era um encontro oficialmente anunciado, mas houve um encontro dos secundaristas que lá estavam e, logo depois, houve o processo pró-reconstrução da UBES, União Brasileira de Estudantes Secundaristas. O meu reconhecimento institucional levava a uma dificuldade tremenda de conseguir recursos materiais, a perseguição política levava ao medo, que trazia como conseqüência que outras possibilidades de apoio material não existiam, porque o que havia de extra-universidade se fechava para o movimento estudantil. Mas, bem ou mal, nós conseguimos. Com os próprios estudantes dando ajuda financeira, avançando sobre a repressão, ampliando espaços democráticos no país, se articulando com setores progressistas das igrejas, católica e não católicas.
E o movimento sindicalista?
JA – O movimento sindicalista não existia com muita força. Ele estava rompendo o antigo processo anterior, estava se reconstruindo em novos moldes. Existia com muita força, antes de 1979, as chamadas oposições sindicais, e já havia em alguns lugares do Brasil sindicatos fortes, com diretorias em transição que nos apoiavam, mas não faziam parte da vanguarda de apoio ao movimento estudantil. Porque o movimento estudantil era tido por setores do movimento sindical como irresponsável, esquerdista, juvenil, pueril, com pouca conseqüência. Mas, na verdade, o movimento estudantil era o grande aríete, a grande maçaneta que dava uma porrada mesmo, que levantava as bandeiras políticas. Era o movimento estudantil, não o movimento sindical. O lema do movimento sindical, mesmo o do ABC, era lutar pelos direitos dos trabalhadores. O “abaixo a ditadura” aparecia no meio de assembléias, mas não era a bandeira que a liderança o movimento sindical levantava. A
liderança queria lutar pelo direito dos trabalhadores, pela liberdade sindical. Quem ia adiante, quem defendia a constituinte, o fim das leis de exceção, a revogação do 477, a revogação do AI-5, a revogação da lei de Segurança Nacional, o fim da ditadura militar, isso quem fazia era o movimento estudantil.
No Congresso de 1979, foi aprovada pela primeira vez eleição direta para diretoria da UNE. Como foi isso?
JA – Foi uma decisão de maio de 1979, e a eleição se realizou em setembro de 1979.
O que isso representou?
JA – Houve um debate teórico sobre métodos do movimento estudantil, sobre as formas de organização etc, que se concentrou muito em torno do tema da eleição direta ou não para a diretoria. Agora, esse tema também escamoteava outras divergências. O tema era real, mas se inflava essa polêmica para permitir mais tempo para algumas forças, que certamente perderiam uma votação no Congresso, se re-agrupassem, se aglutinarem em aliança com outras correntes políticas para disputar a diretoria da UNE. Então, não era só uma concepção do movimento estudantil que estava em jogo. Tratava-se também de uma jogada política para permitir que o PCdoB não ganhasse a votação em maio, no Congresso de Reconstrução, e dar um tempo para que outras correntes se aglutinassem para disputar
em melhores condições. Não adiantou a manobra, porque a gente ganharia no Congresso se houvesse votação de delegados e nós ganhamos a eleição em setembro através do voto direto. Argumentava-se que a votação direta daria mais legitimidade a UNE. Nós não concordávamos e acho que nós estávamos certos. O auge da UNE foi a sua reconstrução, foi o momento ápice daquela época. As notícias sobre a eleição direta e a posse da diretoria foram secundárias se comparadas ao espaço e as manchetes que todas as grandes revistas nacionais – Veja e Isto É – estavam se preparando para dar na época da Reconstrução da UNE. De fato, a Isto É deu capa à reconstrução da UNE, mas deu porque era reconstrução. A eleição da diretoria, em setembro, já foi notícia secundária, porque a grande notícia foi a reconstrução. Então, o bom teria sido que na reconstrução já tivesse saído uma diretoria
com tarefas e lutas para serem encaminhadas. Nós tivemos ainda que segurar certas lutas, não tivemos uma diretoria plena, porque a diretoria provisória que foi eleita teve como grande tarefa a organização da eleição direta em setembro e outubro daquele ano.
Quem fazia parte da diretoria provisória?
JA – A diretoria era encabeçada por Rui César Costa Silva, estudante de jornalismo, de Comunicação da UFBA que, depois, foi nosso candidato e eleito presidente da UNE. Os outros eram Marcelo Barbiere (que é deputado federal hoje, por SP), Luis Falcão (que foi vice-presidente da UNE quando eu fui presidente), um companheiro chamado Pimenta (da Federal de Juiz de Fora). Havia, se eu não me engano, duas mulheres na diretoria: a Secretária de Relações Internacionais e a vice-presidente do Nordeste, que era da Universidade Federal de Pernambuco. Aldo Rebelo foi o secretário geral da UNE nessa priemira diretoria eleita em setembro, mas ele já fazia parte da diretoria provisória. Não me
lembro de todos os nomes.
O que significou, enfim, a eleição do Rui César?
JA – Bom, com Alessandro Rui César culminou o processo de reconstrução, finalmente tivemos uma diretoria que podia circular em nome do movimento estudantil brasileiro, não uma diretoria provisória, não uma comissão provisória, não uma meia diretoria, era uma diretoria eleita, votada pelos estudantes. Rui foi eleito inquestionavelmente presidente da UNE, assim como os outros diretores. É bom a gente não falar só nos presidentes ou nas presidentes para não ficar uma coisa muito centrada só na figura do presidente ou da presidente. A eleição da diretoria foi inquestionável: quem perdeu, perdeu, quem ganhou, ganhou. Quem perdeu reclamava, protestava, contestava muitas vezes a representatividade, porque o numero de votantes foi, se eu não me engano, 380 mil e, na época, nós tínhamos cerca de 1 milhão e 500 mil universitários. De qualquer maneira, é uma coisa extraordinária, porque nenhuma organização nacional tinha ou tem eleição direta. Se eu não me engano, quem tem
eleição direta hoje, são os arquitetos de formação.
O meu Conselho(Arquitetura) tem eleição direta, mas não é uma coisa massiva. A eleição direta para a UNE foi e é, ainda hoje, a maior eleição direta que já se fez para uma organização representativa de um segmento importante da sociedade brasileira. A eleição da OAB era, e é, realizada em congresso. Não é eleição direta. Aliás, eu retifico no CC da OAB é. Sei que as seccionais da OAB são eleitas por voto direto, e acho que se escolhem integrantes nessa eleição direta para os membros da OAB que escolhem uma diretoria em colegiado. Nós não, nós votávamos diretamente para a diretoria da UNE. Ninguém fazia, ninguém fez isso. Nem a CUT faz isso.
A CUT ainda hoje elege sua diretoria em congresso. A CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura) elege em congresso. Outras organizações do mesmo gênero, representativas de movimentos sociais, ou de segmentos sociais desse tipo, massivos, também elegem suas diretorias em congresso. Então, a nossa tese foi derrotada e uma parte do PCdoB, que era da Caminhando, votou na tese da eleição direta em setembro. O PCdoB então se dividiu. Viração votou a favor da eleição na hora, em maio, no Congresso, e Caminhando votou pela eleição direta. Se eu não me engano, houve duas ou três eleições diretas, não recordo direito. Mas depois se voltou ao método da eleição em congresso, que era o que havia anteriormente, e é o que se faz hoje, que é o mais correto.
Como foi a eleição, no ano seguinte, em 1980, do Aldo Rebelo?
JA – Rui César era a grande personalidade da UNE. Rui viajou para fora do país em nome da UNE, participou de Congresso de UIE (União Internacional dos Estudantes), participou de reunião de OCLAE (Organização Continental Latino Americana de Estudantes). Recebemos delegações de fora. Rui foi capa da Isto é, objeto de mútuo interesse para a imprensa, deu entrevistas na televisão. Na época, as entrevistas tinham uma enorme repercussão, porque as entrevistas com certas personalidades eram certa ousadia do jornalismo brasileiro. Corria-se o risco da censura, do fechamento do jornal, punição
ao programa de televisão, e Rui deu muita entrevista. Rui era a grande figura do movimento estudantil nacional, e havia muitas grandes figuras nos Estados. Sempre quero frisar isso, que não era só o presidente, havia muitas lideranças importantes regionalmente e essas pessoas davam muita entrevista também. Havia uma pessoa que ganhou uma tarefa nossa de circular nacionalmente reconstruindo DCEs, fazendo palestras, ajudando a reconstruir Diretórios, ou construindo novos Diretórios. Essa figura se chamava Aldo Rebelo, que foi o secretário geral da primeira diretoria, fruto da eleição direta da UNE. Então, Aldo se gestou como liderança à partir de um trabalho mais de bastidores, e de grande orador que ele era. Continua sendo um grande orador. Nós não tivemos dúvida de que, depois de Rui César, Aldo deveria ser nosso candidato à presidência. Isso foi resultado de uma discussão que certamente teve a participação dos dirigentes, por um processo interno do Partido, mas
que chegou ao nível da corrente estudantil, porque essas decisões tinham que passar pelas grandes assembléias que nós tínhamos. Nós fazíamos reunião de Viração na Bahia, tivemos reuniões nacionais de Viração na Bahia e no Rio de Janeiro com quase 2 mil pessoas. Nós éramos uma corrente de opinião, como havia outras correntes de opinião também do mesmo porte, com 600, 800 pessoas.
Então, eram grandes assembléias públicas, legais, não eram escondidas, não era um processo clandestino, dos partidos que ainda eram clandestinos. Nós aprovamos, em plenária de Viração, o nome de Aldo Rebelo, que foi levado a uma segunda disputa pela chapa Viração. Acho que a segunda plataforma era Viração. A primeira plataforma nossa para UNE, se não me engano, chamou Novo Tempo.
Não teve uma chapa Mutirão?
JA – É, não me recordo agora, se a primeira foi Mutirão… Foi Mutirão, depois foi Nossa Voz e, se não me engano, a última foi Viração. Sei que Aldo foi da segunda diretoria eleita. Ele foi eleito presidente da UNE. Eu era o diretor de Cultura da UNE na chapa que Aldo era presidente.
Como foi a indicação do seu nome para a diretoria da UNE?
JA – Bom, eu esgotava meu mandato de presidente de DCE. Eu era a maior liderança do DCE da UFBA. A UFBA era certamente um dos quatro principais centros do movimento estudantil brasileiro. Eu era assim uma figura muito importante, era praticamente a grande liderança, a grande personalidade pública, digamos, da minha corrente política em Salvador. Na Bahia, não havia outra pessoa mais ou menos com a mesma projeção que eu, e acabei sendo escolhido para ser da diretoria da UNE. Eu já tinha muita afinidade com a área de cultura, já tinha feito teatro, já tinha organizado coisas como as mostras de som, as festas em Arquitetura e tal. Aí, eu fui para a diretoria de cultura da UNE. Eu pedi, eu queria isso. Marquei minha vida até hoje como parlamentar – como vereador, que eu fui quatro vezes em Salvador, e como deputado estadual – com interesse pela arte e pela cultura, entre outros temas. E a raiz disso está lá no movimento estudantil. Então, eu fui diretor de cultura da UNE, e a diretoria de cultura, junto com Aldo, lançou a revista Movimento, que hoje é a revista da UNE. Aliás, é preciso retificar a numeração da revista da UNE porque ela não leva em conta esse número especial que houve, que foi uma retomada dos números anteriores ao golpe de 1964. A UNE publicava a revista Movimento, que era uma revista superimportante. Na gestão de Aldo Rebelo na presidência e com a minha presença na diretoria de cultura, nós relançamos a revista da UNE no congresso em Cabo Frio,
que acabou me elegendo presidente da UNE.
Como era a atuação cultural da UNE, nessa época?
JA – Da UNE propriamente dita, zero praticamente. O que a UNE fazia era estimular iniciativas que eram muito mais dos DAs e dos DCEs. A UNE emprestava seu nome, mais aqui no sudeste do país: São Paulo e Rio. Junto com os DCEs, organizava mostras de som, festivais de música, mostra de música, apresentações, teatro etc. Era uma ação sistemática, mas não era uma política que emanava com muita autonomia pela UNE. Era muito mais a UNE ajudando iniciativas de baixo do que propriamente uma política da UNE. A revista da UNE foi uma tentativa de provocar isso e eu organizei diretamente, posso dizer isso sem cair no personalismo. Houve uma tentativa – que é preciso também registrar na história – de dois encontros para debater política cultural do movimento estudantil. Eu organizei os
dois, um deles foi em São Paulo, no Teatro do Centro Acadêmico 11 de Agosto, que é o CA da São Francisco, da Escola de Direito da USP. Tenho fotos do encontro. Isso foi em 1980, eu era diretor de cultura. Depois, fizemos o segundo encontro de cultura da UNE, em Curitiba.
Qual era a importância do tema cultura na mobilização política dos estudantes?
JA – Eu acho que ela foi importante naquele período que eu falei, 1973-79. Depois, teve a reconstrução da UNE. Com a reconstrução da UNE, entrou em cena a participação política mais direta, sem se usar a cultura como instrumento para se fazer agitação política. Começou a haver uma decadência, uma queda do interesse pela intervenção estritamente cultural do movimento estudantil. O que foi uma pena, mas se justificou, dá para se entender bem o porquê. Não houve a competência, o cuidado de cuidar, de preservar essas frentes de atuação, como nós não tivemos o cuidado de desenvolver atividades esportivas nas OEs. A gente só fazia mobilização, greve, agitação política, luta por melhoria
das condições de ensino, qualidade da universidade etc e tal. Não ficava na mão dos principais segmentos de esquerda do movimento estudantil, por exemplo, a organização das ligas esportivas, dos campeonatos e nem da atividade artística ou cultural. Claro que isso não é algo absoluto. Havia coisas importantes, mas acho que tenha sido uma coisa muito significativa. Não se chegou nunca ao zero e isso também variou muito de universidade para universidade. Sempre houve mostra de cinema.
Eu me lembro que, na minha época de DCE, e mesmo depois que eu saí do DCE, quando eu estava na UNE, o pessoal continuou fazendo na Federal da Bahia o CUC (Circuito Universitário de Cinema) e, logo depois, até com professores de cinema da universidade. Manteve-se esse mínimo de atividade de mostra cultural, seja de cinema, seja de montagem de peças de teatro, de textos ou de intervenções teatrais. Mas isso não me pareceu uma coisa significativa, embora sempre tenha havido um DA e um DCE que tenha feito um caderno de poesia, que tenha feito uma mostra de fotografia. Isso sempre existiu, mas não chegava a constituir uma intervenção poderosa na área cultural e artística.
Você já mencionou o Congresso Cabo Frio, que foi o 33º, que o elegeu presidente da UNE. Como que foi esse Congresso? Quais eram as correntes em disputa? Como foi a composição da diretoria? Quais foram as principais resoluções do Congresso? E por que, nesse ano, as eleições voltam a ser indiretas?
JA – Já é uma coisa curiosa um congresso em Cabo Frio. Não sei se tem universidade hoje em Cabo Frio, mas na época, certamente não tinha. E Cabo Frio era e é conhecido pelos balneários, pela praia, pelo sol, muito mais pelo não compromisso com coisas pesadas, com a militância política, muito mais com o hedonismo, com o prazer do que outra coisa. A gente resolveu fazer um congresso em algum lugar que desse um mínimo de infra-estrutura. No Rio de Janeiro, tinha o governo de Chagas Freitas, que era do PMDB. Embora o chaguismo fosse ligado também à ditadura, mas – para todos os efeitos – era uma legenda oposicionista que dirigia o Rio de Janeiro. Então, nós fomos atrás de um espaço mínimo de representatividade do movimento estudantil e onde houvesse uma presença democrática na cidade ou no Estado que nos permitisse uma retaguarda material e política, para ninguém ser preso, e nos permitisse a realização do Congresso. Que Estado era esse? O Estado do Rio de janeiro. Um movimento estudantil forte, na UFRJ, na PUC do Rio, na outra universidade que é de uma igreja também cristã que eu esqueci o nome. Enfim, havia pelo menos quatro, além da UFRJ, universidades com forte movimento estudantil no Rio de Janeiro e com isso estava criada a base. Além do Rio de Janeiro ter sido, e ainda é hoje, um grande centro cultural e de grande participação democrática. A gente foi pedir apoio ao governador Chagas Freitas. E conseguimos. Só que por uma série de circunstâncias – eu acho que o chaguismo não quis dar uma mostra de confronto com a ditadura militar –, não dava para fazer no Rio. Aí nós acabamos fazendo em Cabo Frio, no estádio de futebol de Cabo Frio. E fomos hospedados em péssimas condições pelos colégios de Cabo Frio e no próprio estádio de futebol. Mas lá se fez um bom congresso, um congresso bastante representativo, onde eu fui também eleito presidente da UNE.
E como foi a sua eleição?
JA – O congresso foi superinteressante. Foi feito num estádio de futebol. A arquibancada era linear e não curva, como é em geral nos ginásios de esporte, que são os ambiente que nós mais usamos. Nós fizemos num estádio de futebol. Todo mundo ficava em linha reta e a mesa no campo, no gramado, o alambrado separando para evitar invasão, protestos. Eu acho muito engraçado porque a gente ficava no gramado, aí as pessoas se inscreviam, vinha até o gramado, falavam, voltavam para a arquibancada e tal. Se eu não me engano, na eleição, quatro chapas disputaram, mas nesse congresso foi criado um novo método de eleição que era a eleição em congresso e a eleição proporcional. As chapas concorreram, se contou o número de votos e aquelas que quiseram se articular, se articularam e compuseram a diretoria da UNE. Foi interessante porque a nossa chapa, encabeçada pelo PCdoB,
cujo presidente era eu, se confrontou com outras três, sendo que a segunda mais votada era a mesma chapa nossa, só invertendo a cabeça. Quer dizer, ao invés de Javier ser o presidente, o presidente era Luís Falcão, que era Lula de Pernambuco, e eu era vice. Era uma chapa contra a outra. Nós escrevemos nossa chapa, depois eles escreveram a deles, que era a mesma invertendo a cabeça. Havia os slogans muito engraçados porque quando a gente queria ou algum adversário queria ridicularizar a chapa, gritava assim: “fulano e fulano é muito forte [fisicamente], coloca ele no esporte”. Para sacanear alguém, para rebaixar a função, o cara não podia ser candidato à presidente, dizia-se então “coloca o
cara no esporte e tal”. Havia uma coisa de bom humor sempre, nas palavras de ordem, nas gozações.
A gente gritou que Lula era muito forte e que era para botar ele no esporte. E o pessoal revidava: “Javier é muito forte, bota ele no esporte”. Então, houve a votação, duas chapas quiseram se compor, que foi a nossa com a outra que era a mesma nossa apenas com a inversão dos cargos. Como nós ganhamos, o presidente eleito era eu e o vice, se assim eles quisessem, seria Lula Falcão. E ele aceitou, o MR-8 aceitou. Então, nós formamos uma diretoria que era formada pelo PCdoB, MR 8, pessoas não ligadas à militância partidária, gente do PCB e alguns setores que eram ligados à AP. Foi uma diretoria eclética, que já expressava, de certa maneira, o processo de reorganização das correntes da esquerda brasileira, a transmutação de algumas delas para outras forças e com outros conteúdos
um, dois, três anos depois. Para formar a diretoria, se usou o método da eleição no congresso e da composição proporcional ao voto que cada uma das chapas tinha.
O você destacaria da sua gestão como presidente da UNE?
JA – Olha, a minha diretoria foi muito atuante. Havia membros muito atuantes em suas respectivas regiões, estados. Eu me lembro, por exemplo, que a diretoria da qual eu fui presidente fez um seminário sobre a reforma universitária no Rio de Janeiro. Isso prova que o nosso interesse pelo tema é antigo. O título era Reforma Universitária, assunto que está em pauta hoje, provocado pelo MEC.
Como era a relação da UNE com o MEC?
JA – Era uma relação formal. Nós entregávamos documentos, protocolávamos, mas o Ministério não nos recebia. Eventualmente, em determinadas circunstâncias, alguém da SESUP, a Secretaria de Ensino Superior, ia até uma greve ou negociava com a UNE informalmente, mas ministro da ditadura nunca recebeu a UNE. Eu fui diretor de cultura e presidente da UNE e nunca fui recebido por nenhum titular do Ministério da Educação.
E com relação à política nacional em geral, como era a atuação da UNE?
JA – Houve o Seminário da Reforma Universitária. Houve uma grande luta nas universidades federais contra a portaria do general Figueiredo, que era o presidente da República, o ditador na época, que revogou a portaria que unificava uma política de restaurantes universitários. Então, nós víamos na revogação da portaria do restaurante universitário uma tentativa de implantar cobrança da alimentação dos restaurantes, que eram gratuitos, ou ampliar a cobrança onde já era cobrado. Em alguns casos, havia cobrança. Houve uma grande movimentação e essa grande movimentação levou a um debate se devia haver uma greve nacional geral das federais contra a implantação do ensino pago. Nós víamos na revogação da portaria uma ameaça visando a implantação do ensino pago nas universidades. Houve, portanto, uma grande movimentação. Não houve a tal greve geral, mas houve muita greve que a gente dirigiu em todo Brasil, grandes movimentações. Foi um luta nacional que ganhou proeminência, projeção, saiu muito na imprensa, teve grandes assembléias. Essa foi uma marca da diretoria que eu presidi. Mas a marca maior eu acho que foi a defesa da própria UNE, através da defesa do presidente da UNE contra a expulsão do Brasil. O pretexto da ditadura era o fato de eu ter nascido fora do Brasil e a lei proibir a participação de estrangeiros na vida política brasileira. Curioso é que o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, era ele mesmo filho de família de imigrantes e, logo depois de alguns anos, ele e o filho foram desmascarados como personalidades que, no Ministério da Justiça, vendiam vistos de permanência no Brasil para estrangeiros. Eles tinham um circuito mafioso de venda de vistos de permanência no Brasil. Naquela época, abriu-se um inquérito administrativo, porque não é um processo judicial, para caçar a minha condição de estrangeiro permanente, já que eu era estrangeiro que usava uma carteira chamava Modelo 19, que era o modelo de carteira de identidade dos estrangeiros com residência permanente no Brasil. Eu tinha visto permanente no Brasil, era estrangeiro
residente permanente no Brasil, tinha a famosa carteira modelo azul, modelo 19. Eu já tinha solicitado duas vezes, na polícia federal, a minha naturalização e, nas duas vezes, o processo foi interrompido por uma decisão da policia federal, pelos órgãos de informação e pelo SNI. Em dezembro de 1981, já havia chegado até nós a notícia de que era possível a vinda de um inquérito de expulsão do país e, então, começou uma grande luta em todo Brasil com um slogan chamado “Javier é brasileiro”. É muito emocionante, hoje, quando eu vou a diversos Estados e encontro pessoas que são jornalistas e que, na época, eram estudantes, que me entrevista. Encontro pessoas que dizem: “olha, Javier, alí tinha uma
pixação que tinha escrito ‘Javier é brasileiro’, contra a expulsão do presidente da UNE”. Em Porto Alegre, até pouco tempo atrás, alguns companheiros diziam: “No centro de Porto Alegre ainda tem um resto de pixação, se a pessoa forçar as vistas ainda vê lá meio, bastante esmaecido, uma antiga pixação: ‘Javier é brasileiro’.” Eu me lembro de uma tira que, não sei se foi o Laerte, um desenhista de história em quadrinhos, quem fez. Não, foi um cara lá da ONB. Ele fez uma tirinha que era assim: “Pode o Presidente da Volks? Pode. Pode o Presidente da Mercedes? Pode. Pode o Presidente da Gessy Lever? Pode. Pode o Presidente da UNE? Não”. Tudo quanto era dirigente de multinacional podia dar opinião sobre política econômica no país, se meter nos assuntos internos do Brasil, qualquer gerente de Mercedes Bens, alemão ou dirigente americano de qualquer empresa transnacional, vinda dos Estados Unidos, podia dar opinião sobre assuntos brasileiros, mas o Presidente da UNE, não. Então, ele fez um trocadilho, um jogo, com as siglas da GM e etc e tal com a UNE, provando que a lei dos estrangeiros era uma lei que veio para perseguir em geral sacerdotes ou líderes religiosos cristãos nos movimentos de base das diversas igrejas cristãs e destacadamente da igreja católica. Tanto é assim que, de fato, a expulsão que houve no Brasil foi de dois padres católicos do Pará. Houve a expulsão de uma estudante de economia da Federal da Bahia, Marie Hélène. Os que foram efetivamente expulsos foram os sacerdotes católicos e essa estudante de economia da UFBA suíça, chamada Marie Hélène.
Você não foi expulso, mas você sofreu algum tipo de cerceamento?
JA – Sim, houve cerceamento, na medida que eu fui notificado do inquérito. Houve uma reação interessante em todo o Brasil. Foi superbonito a mobilização, organização de advogados, sindicatos, do movimento negro, movimento feminista. Tudo quanto é forma de organização que havia naquela época se manifestou mandando carta para mim e para a UNE. A limitação que houve foi a seguinte: o inquérito obriga o estrangeiro a permanecer no lugar onde mora e se apresentar semanalmente à polícia federal. Então, nós tomamos a decisão de fazer uma grande campanha, de eu viajar, sair de Salvador. A UNE tinha a diretoria concentrada em São Paulo, nós funcionávamos basicamente na PUC de São Paulo. Ainda não tínhamos uma sede. Funcionamos nos primeiros dois anos na Fundação Getúlio Vargas, na FGV, e depois na PUC. E eu não podia sair com muita facilidade de Salvador, que era onde eu tinha residência fixa, eu morava lá. Nós tínhamos decidido que eu não sairia de Salvador a não ser em casos excepcionais. Eu fiquei de março até, se eu não me engano, setembro, outubro desse ano. Fizemos um Conselho Nacional, fizemos outras reuniões em Salvador. A diretoria ficou funcionando em contato comigo, eu morando em Salvador. Eu tinha que me apresentar semanalmente à polícia federal, assinar o livro de presença provando que eu não tinha fugido, que eu não tinha escapado. Foi um período constrangedor para mim, mas o que me magoou mais foi o constrangimento sobre os meus pais. Meus pais sofreram muito, meu pai e minha mãe, porque eles evidentemente jamais imaginavam e não estavam preparados para enfrentar uma situação como essas de ter o
telefone de casa com escuta policial, clandestina. Eu tinha um fusca, meu pai tinha me dado um fusca, e eu saí de casa com o fusca, com minha mãe, a polícia federal ostensivamente colava no fundo do carro, nos perseguia, nos seguia. Havia sempre policiais federais rondando a casa da minha família no bairro do Canela, onde nós morávamos. Temos casa até hoje, um apartamento, enfim. Houve esse constrangimento e eu não pude estar presente em certas lutas do movimento estudantil, porque havia essa limitação, embora eu fosse a reuniões em Salvador e tenha participado de assembléia já com o inquérito de expulsão tramitando. Houve um ato público muito importante em Salvador, fruto dessa campanha nacional. Dessa vez, nós decidimos que eu não iria, porque era um ato na Praça do Campo
Grande e a gente achou que era arriscado, eu podia ser preso e, talvez, nós não tivéssemos força para impedir que da prisão na rua, eu já fosse levado diretamente para um avião. Porque o estrangeiro, aquele que era objeto do inquérito, como não é um processo judicial, não vai a julgamento, é uma decisão administrativa. A qualquer momento o ministro da Justiça e o presidente da República podiam baixar decreto expulsando a pessoa que estava sendo objeto do inquérito. Então, a gente achou por bem tomar certas precauções, para que não acontecesse isso, porque eu poderia ser preso em uma determinada circunstância que justificasse, do ponto de vista da ditadura, o decreto e eu já sairia de uma prisão direto para o embarque e a expulsão do país.
Você pode contar como é que foi o episódio da sua entrevista à TV Itapuã de Salvador, em que você acusa os órgãos de segurança pela morte do Honestino Guimarães?
JA – O que aconteceu foi que havia um programa de entrevistas e supostas reportagens feitas por um jornalista muito polêmico, que era um jornalista que vinha do futebol, que narrava e divulgava partidas de futebol. Chamava-se Francis Teixeira e era muito conhecido porque ele inovou a linguagem do rádio e da televisão na Bahia, usando uma linguagem muito coloquial, expressões da rua, expressões interessantes, provocadoras para o futebol. Ele passou a fazer também televisão e fazia muitas entrevistas em que ele humilhava muitas vezes o entrevistado, submetia a vexame as pessoas. Ele tinha uma expressão que era assim: “Câmara nos olhos dele”. Então, a câmara vinha e fazia um close
na cara do entrevistado, especialmente quando ele estava mais constrangido, ou chorando. Ele submeteu muitas pessoas em Salvador a isso, que alguns podem ainda chamar de jornalismo. Era um constrangimento. Algumas pessoas se submetiam a esse tipo de coisa. Quando as pessoas não aceitavam o convite, ele ficava desafiando, dizendo que fulano ou fulana não tinha ido ao programa, que tinha que aparecer e tal e fazia críticas. No meu caso, ele ficou durante três ou quatro programas criticando muito a UNE e criticando o Javier como o estrangeiro, o espanhol, o comunista estrangeiro e etc. Chamar alguém de estrangeiro não é xingamento e muito menos ser espanhol, ou ser argentino, angolano ou australiano. Não é demérito para ninguém ser de determinada nacionalidade. Todos somos
de determinado nacionalidade à princípio, né? Nascemos em determinado país, temos a priori uma nacionalidade de nascença, embora possamos optar depois por outra nacionalidade, como foi meu caso. Eu me fiz brasileiro, eu quero ser brasileiro, sou brasileiro por uma decisão minha, não pelo fato de minha mãe ter me parido aqui no Brasil, o que teria sido uma honra. Mas eu tenho a honra de ser espanhol de nascimento e tenho a honra de ser brasileiro por opção. Então, havia esse discurso reacionário e conservador, como se ser estrangeiro fosse uma coisa a princípio sob suspeita e negativa, dita daquele jeito na televisão. Como se fez muita provocação, muita gente começou a me falar: “Era
bom você dar entrevista, era bom você responder, é bom você esclarecer”. Aí, eu fui à entrevista, procurei o diretor da televisão, que é deputado federal ainda hoje, um espanhol naturalizado, porque a lei também não permite, ainda hoje, que estrangeiros sejam donos de meios de comunicação de massa, como é o caso do rádio e da televisão. Disse a ele, que era espanhol e basco, dono da televisão: “Olha, eu quero ter o direito de responder a isso no programa, com a mesma menção, com o mesmo tamanho, sem o constrangimento de “câmara do olhos dele” ou, pelo menos, sem o abuso desse tipo de expediente e sem cortes, que eu não queria que o programa fosse montado. A minha entrevista, eu não queria que fosse montada. E foi aceito e eu gravei o programa. Ele fez alguma pergunta sobre a ditadura militar, alguma coisa assim, e eu disse que nós, do movimento estudantil,
não tínhamos uma postura contra os militares, nós não somos contra a existência da estrutura militar, seria uma bobagem, um infantilismo ridículo, ter um país sem forças armadas. Nós não éramos contra as forças armadas, nós éramos contra a ditadura militar e que o regime militar era responsável por (eu usei a expressão) verdadeiras barbaridades ou atrocidades contra os estudantes, entre elas o desaparecimento do ex-presidente da UNE Honestino Guimarães e de outras lideranças estudantis.
Disse e assumi isso. Muita gente pensa que foi por causa dessa entrevista que se moveu o inquérito de expulsão contra mim. Mas nós já tínhamos notícias que já estava havendo movimentação nos bastidores da ditadura, nos ministérios em prol disso, para fazer esse inquérito antes. A entrevista foi um dos argumentos arrolados pela polícia federal e pelo Ministério da Justiça para abrir o inquérito contra mim, mas foi usado também, pura e simples, o fato de eu ser o presidente da chamada, na época, proscrita UNE, União Nacional de Estudantes. Eles fizeram uma relação imensa de assembléias que eu dirigi, de atos que eu encabecei, de reuniões que eu coordenei. O fato de eu estar em vários congressos da UNE é que foi o mal, esse que foi o motivo. Entre as peças acusatórias estava a gravação da minha entrevista, mas ela não foi o móvel único, nem o móvel principal. Foi uma peça arrolada junto com outras.
Com o término do seu mandato, o que significou a eleição da Clara Araújo como presidente da UNE?
JA – Nesse ano, eu saí de Salvador para presidir o Congresso da UNE em Piracicaba. Foi uma viagem tomada de todos os cuidados. Fui recebido aqui em São Paulo por uma comissão enorme de estudantes, de personalidades democráticas. Eu me lembro que Ulisses Guimarães me ligou diretamente, estava o Comitê Brasileiro da Anistia. Meu advogado era Luiz Eduardo Greenhalgh, que todo mundo conhece, além de Ayrton Soares e de Ronildo Anobla. Eram três advogados: Ronildo Anobla, que encaminhou os trabalhos na Bahia, Ayrton Soares, que é bastante conhecido como advogado de presos políticos, de causas progressistas e também foi político em São Paulo, do PSB, e Luiz Eduardo Greenhalgh, que é deputado federal do PT, foi vice-prefeito de São Paulo, uma pessoa muito conhecida. Eles eram os três advogados. Ah, perdão, havia também o Seixas, advogado em Brasília. Os que fizeram de fato trabalho foi: de Ronildo Anobla, Sigmaringa Seixas e Luiz Eduardo Greenhalgh. Eles, ou parte deles, me receberam aqui, muitas lideranças de outros setores da
sociedade. Eu fui até Piracicaba, fiquei hospedado na casa do reitor da Universidade Metodista. Na época que eu fui responder inquérito, apresentei cinco testemunhas em favor do meu comportamento como cidadão, como líder estudantil, como militante de causas progressistas, entre eles o professor Boaventura, que era o reitor da Universidade Metodista de Piracicaba, o professor Pascoalino Magnavita, que foi meu professor na Faculdade de Arquitetura, e outras tantas personalidades da Bahia e de fora de lá. Nesse congresso que eu presidi, quebrando essa limitação que a lei impunha, nós escolhemos como candidata nossa do PCdoB, de Viração por conseguinte, Clara Araújo, que era líder estudantil no curso de Ciências Sociais da UFBA. Ela já era uma liderança na universidade. Ela foi eleita a primeira mulher da UNE, o que depois se repetiu com outra. Aliás se repetiu várias vezes com companheiras que eram do PCdoB também. Foi, então, que se quebrou esse tabu. Também foi do PCdoB o primeiro presidente negro eleito da UNE, que foi Orlando Júnior, estudante de direito da Universidade Católica de Salvador. A primeira mulher eleita presidente da UNE foi uma baiana e o primeiro presidente negro eleito na UNE também um estudante baiano.
Como você avalia a trajetória do movimento estudantil desde a sua gestão até os dias de hoje?
JA – Eu acho que o movimento estudantil cresceu de poderio. Porque, na nossa época, nosso movimento era um movimento de resistência. Ele conseguiu grandes efeitos no processo de redemocratização do país, mas o movimento estudantil de hoje é muito mais espalhado, espraiado nacionalmente. Hoje, nós temos movimento estudantil em grandes universidades e em pequeninas faculdades privadas, das grandes capitais brasileiras a pequenas cidades interioranas, expressando a própria expansão do ensino superior brasileiro, que saltou de 1 milhão e 500 mil estudantes na minha época para 3 milhões e 600 agora. Portanto 2 milhões a mais de estudantes universitários. A gente tem que considerar a ação dos estudantes, não apenas aquilo que é luta nacional, não pensar que movimento estudantil é só a ação da UNE. Porque muita gente confunde: “a UNE não é mais aquela, o movimento estudantil não é mais aquele, aquela velha UNE de 1968″. Não dá para comparar épocas, é um erro, é um equívoco metodológico do ponto de vista da pesquisa científica, histórica mesmo, como é uma injustiça comparar mecanicamente épocas com épocas, movimento estudantil com movimento estudantil. Ninguém fica dizendo “Ah, o movimento operário de agora não é mais o mesmo da época de Lula em 1978, 1979 em São Bernardo em São Paulo”. São dois movimentos operários que cumpriram e cumprem funções diferentes, em épocas históricas diferentes. Então, o movimento estudantil de agora é muito mais abrangente porque trata de cultura, de arte, promove bienais, eventos artísticos localizados, promove lutas específicas com muita força, participa de grandes campanhas nacionais, foi responsável por desencadear o processo nas ruas que levou ao impeachment de Collor, por exemplo.
Foi o movimento estudantil que fez a Campanha das Diretas, depois da minha época, fez luta pela Reforma Universitária, depois da minha época, fez a luta pelo impeachment de Collor. Agora, recentemente de novo, participou ativamente da luta pela reforma universitária. Levantou e levanta lutas fundamentais. E é um movimento estudantil muito mais em rede do que na mi