Com a Palavara

O Museu Reina Sofia dedica uma ambiciosa exposição a o inusitado tema do Movimento da Fotografia dos Trabalhadores entre 1926 e a Guerra Civil.

Mãos de um trabalhador (1934), de Ferenc Haar, membro do Círculo de la Fotografía Social Húngara

Justamente quando, apesar dos quatro milhões de desempregados, a iconografia do trabalho é uma discreta fila de desocupados e o trabalho industrial parece coisa de outro tempo, talvez resulte conveniente o particular esforço do museu Reina Sofía. A partir de amanhã, o museu recupera em toda sua crueza a corrente da fotografia proletária, aquele esforço ético e estético por dotar aos trabalhadores de uma imagem própria, de uma estética afastada da representação burguesa.

A este trabalho dedicou-se ao longo dos anos o fotógrafo Jorge Ribalta, curador de “Una luz dura”, de forma intensa. O Movimento da Fotografia dos Trabalhadores entre 1926-1939, uma exposição com certeza afastada do espetáculo e surpreendente pelo  seu tamanho; reúne numa dúzia de salas mil documentos (sobretudo, fotografias e revistas, muitas delas adquiridas pelo museu com este motivo) para detalhar “a contribuição à modernidade da estética socialista no período entre guerras a “, afirma Ribalta.

Em termos físicos, a viagem parte da Alemanha e  União Soviética, sobrevoa a Europa como aquele fantasma, para na Holanda, a antiga Checoslováquia, França, Áustria, Espanha e desembarca timidamente no Reino Unido e, em menor medida, nos Estados Unidos. Por razões óbvias, esta corrente não obteve grande eco lá, ainda que sua influência se deixasse sentir na série Harlem document de Aaron Siskind ou em Paul Strand.

Cronologicamente, a mostra começa em 1926, quando a revista AIZ (Arbeiter-Illustrierte-Zeitung, o diário ilustrado dos trabalhadores) propôs um concurso para que seus leitores, fotógrafos amadores, enviassem depoimentos gráficos de suas experiências na parte baixa da roda da fortuna. Convidava-se a capturar “a beleza do próprio trabalho e também os horrores da miséria social”. O círculo fecha-se em 1939. “Não tanto porque comece a II Guerra Mundial, na que os trabalhadores não estão representados como tais nas imagens que transcenderam, senão porque termina a Guerra Civil espanhola”, aclara Ribalta. “Nela, a iconografia passa do operário ao soldado e do soldado ao mártir”. Enquanto na Espanha o movimento da fotografia relacionada com trabalhadores foi fraco, o idealismo atraiu a primeira linha de combate a “fotorreporters” da AIZ (cuja Redação viajou com Willi Münzerberg a Paris e Praga depois da chegada dos nazistas ao poder em 1933) ou Regards (organismo francês do movimento).

Porque isto é, além de uma exposição de fotografia (com nomes como John Heartfield, Max Alpert, Tina Modotti ou Robert Capa), um estudo sobre as armas da propaganda, assim como um tratado sobre jornalismo gráfico e desenho de revistas.

Fica claro já na primeira sala, que gira em torno da história dos Filipov. A família protagonizou um dos momentos inaugurais do Movimento da Fotografia dos Trabalhadores ao aparecer em 1931 na revista soviética Proletariaskoe. Na reportagem da manchete detalhava-se a cotidianidade de uns honrados trabalhadores. Além da polêmica -quando a história se reproduziu em AIZ, se duvidou da autenticidade do contado- caberia dizer que este trabalho translada as teses do realismo socialista à posta em página. Ribalta sustenta que as revoluções estéticas empreendidas nestas e outras publicações (como a internacional USSR in construction, a austríaca Der Kuckuck, a visionaria Der Arbeiter Fotograf ou Munka, húngara) influíram decisivamente na revista Life, a nascente publicidade ou o cinema.

Tão surpreendente como a modernidade do desenho resulta a eficaz contribuição daquelas páginas à construção de um sonho que chocara sombriamente o termo da exposição com o muro do fascismo, Na última sala, diante de um mural de anônimas imagens do “Comisariat de Propaganda da Generalitat de Cataluña” com fotos do enterro de Durruti e macabras postais do necrotério, adquire protagonismo uma das sub tramas da mostra, a que propõe uma interessante reflexão sobre os limites entre a autoria individual e a coletiva e entre a dedicação profissional e o entusiasmo amador.

http://elpais.com/diario/2011/04/05/cultura/1301954403_850215.html

 

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EUA resistem a ceder o trono da cultura pop aos países emergentes

XAVI SANCHO – Barcelona – 01/09/2011 (EL PAIS )

RAFAEL RICOY

Quando em agosto, a “Standard and Poors” rebaixou a classificação da dívida dos EUA reacendeu-se o debate sobre quanto tempo demorariam os Estados Unidos em deixar de ser a primeira potência mundial. Embora seja quase inevitável que a China substitua o gigante norte americano como principal potência econômica mundial , ainda não parece tão claro quem assumirá o papel dominante no âmbito cultural. Os EUA consolidaram grande parte do seu império através da música ou dos filmes. Quem vai dominar culturalmente o mundo no futuro?

 DJ/Rupture: “A crise situa-nos mais distantes da mudança do paradigma global”

Sem dúvida, chegará um momento em que os Estados Unidos deixarão de ser a primeira economia do mundo, mas vai demorar muito mais para ver como sua hegemonia cultural se esfumaça. É muito provável, inclusive, que se repita o que aconteceu com o Reino Unido na década de sessenta, no momento em que, política e economicamente, o país entrou em queda livre, mas sua influência cultural em relação ao resto do mundo explodiu.”O Professor David Hesmondhlagh, chefe do departamento de comunicação da LeedsUniversity e autor das “The cultural industries” , dúvida que qualquer um dos elementos que alertam sobre a efetividade de uma mudança de paradigma econômico global vai levar a uma nova ordem planetária da cultura pop.Pelo menos por agora. “O idioma é essencial”, ele insiste.

“Igualmente a hegemonia regional. O Brasil, por exemplo, já é uma potência cultural, mas seu impacto é limitado, porque pouquíssimos países no mundo têm o português como língua oficial. O Japão e a Coréia dominam o panorama asiático, mas logo veremos como a China está a ganhar importância pelas mesmas razões que fizeram dos EUA um ente cultural dominante:. seu imenso mercado interno. Além disso, o público americano, o maior gastador em cultura, é muito fechado e não aceita produtos estrangeiros com facilidade “.

Em outras palavras: está a China pronta para não só construir estradas na África e comprar a dívida européia e americana, mas também para vender ao mundo um estilo de vida em cultura popular? “Nenhum dos países emergentes têm uma vocação de dominação cultural, porque eles não assumiram ainda o poder que lhe outorga conseguir com que todos cantem suas canções”, diz Timothy Taylor, professor de teoria da musicologia e teoria cultural na UCLA e autor do livro “Os sons do capitalismo: música, Publicidade e conquista da cultura” “Nem mesmo a Internet, e o acesso universal à cultura, que oferece sua suposta democratização, conseguiu que surgissem estrelas globais procedentes de outros países que não os de sempre. Existem artistas que criar seu nicho, mas não têm um impacto global, porque eles ainda são vistos de uma forma paternalista pelo público ocidental, que são ainda os principais consumidores de cultura. “

Para Jace Clayton, mais conhecido como DJ / Rupture, músico , ativista cultural residente no Brooklyn e especialista em sons latino-americanos, a crise das indústrias culturais ocidentais está causando um efeito que, ao contrário do que se poderia esperar, coloca-nos ainda mais longe da mudança do paradigma global. “O legado e a produção musical do ocidente tornou-se, mais do que nunca, um souvenir turístico. Artistas ocidentais apropriam-se disso, tornam-no uma moda e o descartam na semana seguinte. O produtor de Lady Gaga é marroquino,tudo bem, mas faz seus registros nos EUA. Até Justin Bieber faz o mesmo, sendo que ele é é canadense. “

Clayton adverte que a verdadeira mudança não acontecerá até que fazer um som parecido com o dos Beatles deixe de ser um sonho recorrente fora do âmbito anglo-saxão. Tirar de cima 60 anos de cultura pop, será muito mais complicado do que foi decidir-se por um carro japonês, ao invés de escolher um de Detroit. “A cena do rock na Argentina é patética. É triste que hoje, quando a “Cumbia Villera” (ritmo nascido nos bairros pobres da Argentina) conta com uma cena tão viva e celebrada em outros países, ainda haja tantos jovens que sonhem em ser como os Rolling Stones.

http://www.elpais.com/articulo/Tendencias/Nuevo/viejo/orden/mundial/elpepitdc/20110901elpepitdc_1/Tes

Categoria(s): Textos diversos


Entrevistadores: Ana Paula Goulart e Angélica Müller

Data da entrevista: 08/11/2004

Transcrição: Denise Maria Duque Estrada

Revisão: Ana Paula Goulart

 O senhor pode nos dizer seu nome completo, local e data de nascimento?
JA – Meu nome completo é comprido. Meu nome é Francisco Javier Ulpiano Alfaya Rodrigues. Sou nascido em Redondela, Galícia, Espanha, em 31 de julho de 1956. Cheguei aqui no Brasil pequeno. Minha família é de imigrantes. Meu pai veio trabalhar no Brasil e chegou aqui no dia 1º de outubro de 1963.

E o nome e a profissão de seus pais?
JA – Meu pai trabalhou em fábrica, funcionário de indústria de bebidas. O nome dele era Fernando Alfaya Bula. Minha mãe foi sempre dona de casa, Maria Emma Rodrigues Guerra.

Sua família teve envolvimento anterior com a política?
JA – Sim, teve. Tenho tios que foram militantes, são ainda militantes de causas progressistas, lá na Espanha. Minha família toda é espanhola originalmente, e meu pai também foi  muito influenciado pelo ambiente político espanhol, do pós-guerra civil, do pós-Guerra,  na II Guerra Mundial, com uma formação assim muito confusa politicamente, porque possuíam uma bagagem educacional bastante conservadora. Mas há também referências familiares de militância em partidos de esquerda, do Partido Comunista Espanhol, Partido Socialista, hoje novamente no poder na Espanha. Então, na família, eu tenho referências de dois campos bem nítidos. Desde sempre houve interesse pela política.

Que influência isso teve na sua vida?
JA – A influência não foi determinante, mas foi importante. Importante porque em minha casa o que havia era uma carga, não de formação, mas de rica informação política. Meu pai e minha mãe sempre cuidaram pra que nós tivéssemos vasta  informação sobre literatura, história, especialmente história, o que acabou aguçando a curiosidade sobre o que são as coisas, como funciona a dinâmicas da sociedade e… porque um regime político é assim ou assado. Enfim, em 1964 houve o golpe militar.
Eu me lembro das tropas em Salvador, a movimentação nas ruas. Então, a política pegou pesado e quando a gente viu a intervenção militar, autoritária aquilo ficou marcado. Eu tinha oito anos de idade mais ou menos e referências de uma outra ditadura, a espanhola, de Franco, bem mais feroz do que a brasileira. Então aquilo serviu, digamos de alerta, sobre como as coisas eram e como poderiam ser, isso acabou aguçando a minha curiosidade política, que depois se desenvolveu mais tardiamente. Ainda no 5º ano primário (antigamente era assim), começou a haver pessoas, adultos, professores, principalmente, falando de ditaduras. lebravam Franco na  Espanha… a ditadura brasileira…’. E, acabei sendo marcado por duas ditaduras. Minha família veio de um país sob um ditadura fascista, barra pesadíssima, construída a partir de uma guerra civil que deixou mais de um milhão de mortos, dezenas de milhares de fuzilados e desaparecidos. E acabamos aterrisando numa realidade que também viveu, logo depois, uma ditadura com também seus milhares de perseguidos, presos e também suas centenas ou milhares de mortos e desaparecidos. Isso marcou muito essa fase de oito, nove anos, e a partir daí comecei a ficar aberto e curioso com as coisas da sociedade, com as injustiças sociais e da política.

Nessa época, onde você estudava?
JA – O principail foi o Colégio Maristas. Entrei no que era antigamente 1ª série do ginásio, que agora seria a 6ª do fundamental. Entrei nos Maristas e só saí mesmo para o vestibular. Então, toda a minha formação da segunda metade do ensino fundamental ao ensino médio foi no Colégio Marista de Salvador, que era -é ainda-  um colégio de elite, de excelente nível de formação cultural, que ajudou muito a minha politização e a minha formação política.
Porque lá, apesar da ditadura, vivia-se um clima de informação, não de militância, porque não havia militância estudantil. Era é uma típica escola particular, voltada para um segmento mais elitizado da população, embora no colégio houvesse uma forte presença de classe média mesmo, não apenas filhos das famílias mais ricas de Salvador, da Bahia. Havia uma forte presença da classe média e de filhos de intelectuais. E isso ajudou a construir um clima cultural no colégio. Lá nos Maristas, eu ouvi falar pela primeira vez de conceitos como: independência nacional, soberania nacional, socialismo – se fava em socialismo em sala de aula de história. Eu me lembro de um episódio uma solenidade de Sete de Setembro. Um professor fez um discurso falando da verdadeira independência nacional. Depois descobri que ele veio a ser um militante do meu partido. Uma pessoa destacada, chegou a ser presidente do PCdoB de São Paulo, o Olival Freire.
Tudo isso vai criando em alguém com 12, 13 anos, referências outras, que são a base para uma formação direcionada, sólida. Eu vejo nisso as bases da minha politização.

E quando você ingressou na universidade? Onde estudou?
JA – Eu tinha me interessava por arte, por cinema, por fotografia. Aprendi a fazer fotos. Eu sou fotógrafo. Arquiteto de formação, mas fotógrafo. Na escola a gente teve acesso à produção cultural. Os filmes de Glauber Rocha eram proibidos, mas a escola passava os filmes dele, meio que às escondidas.
Tinha um professor de cinema que dava uma aula excepcional, uma aula fora da aula. Era uma conversa às 6 da tarde. A gente assistiu Terra em transe, assistiu Barravento, o primeiro filme de Glauber. Isso tudo no colégio. Foi politização e foi formação cultural ao mesmo tempo. Então, quando a gente, eu e um grupo de pessoas de lá, dessa minha geração, entrou na universidade, já sabendo o que queria.
Queríamos nos aproximar, na universidade, da esquerda. No meu caso, e8u busquei o Partido Comunista, que eu não conhecia, mas sabia que existia por revistas e jornais da Espanha, que vivia seu período de democratização por lá. Tudo isso entre 1974, e 1976. Foram os anos chaves na minha decisão de me tornar militante. Então, fiz vestibular para Arquitetura, na Universidade Federal da Bahia, e já entrei participando. Entrei em 1975, quando houve a primeira greve geral estudantil universitária depois da grande repressão de 1968 , do fechamento dos DAs, dos DCEs, do AI-5, do 477, dessa coisa toda. Foi uma greve que teve grande repercussão, a nível nacional e internacional. A BBC de Londres acompanhava e noticiava a greve.
A gente ficava ligado na BBC para depois falar nas assembléias. Era uma greve contra as normas do jubilamento. Algumas dessas normas eram mais acentuadas na problemática acadêmica. Quem ficava tempo demais na universidade, por exemplo, e repetia muitas disciplinas, perdia a matrícula. Só que o jubilamento era também usado com uma forma de perseguição política. Quando a gente atacou o jubilamento, atacou porque ele representava um instrumento de perseguição política aos estudantes militantes. Nossa greve, como toda greve na época da ditadura, não era por causa apenas daquela bandeira.Tinha como intenção, como móvel explicito ou implícito a conquista de liberdade, da democracia na universidade e, por conseguinte, na sociedade brasileira como um todo. A gente brigava contra o jubilamento, mas a luta, na verdade, era contra o autoritarismo na universidade, a presença da ditadura nas normas internas, que eram discriminatórias, antidemocráticas, e também através do SNI (Serviço Nacional de Informações).
Nas universidades públicas, nas federais, existia a ASI (Assessoria de Segurança Interna) que era o escritório do SNI dentro da universidade. E ficavam lá os dedos duros, perseguindo e fiscalizando estudantes, professores, funcionários. Controlavam o que o professor dizia em sala de aula, o conteúdo da disciplina, o que o estudante fazia. Então, a gente fez a greve, que foi um sucesso tremendo. Derrubamos a grande maioria das normas do jubilamento. Foi uma greve geral, de 100% de adesão. Um negócio fantástico.
Naquela época, não conseguimos ainda fazer passeata, isso só fizemos em 1976. Mas foi a primeira grande manifestação pública de Salvador da Bahia depois da grande repressão de 1968. Porque até 1968 ainda havia passeatas. Depois disso, até 1975, foi brabo. Só aconteciam os encontros de caráter não políticos. Sobreviveu apenas os encontros nacionais de engenharia e os encontros científicos de medicina, que tinham que ser chamados científicos, para poderem passar pelo crivo da ditadura. Se dissesse “Encontro Nacional de Estudantes de Medicina”, o MEC não autorizava.
Mas, encontro científico podia. As palestras eram todas em torno de assuntos técnicos. Mas havia, além das mesas redondas no auditório, outras mesas redondas e encontros, que foram criando esse processo de reconstrução do movimento estudantil, que se acelerou a partir de 1975 até se desdobrar, em 1979, na reconstrução da UNE, em Salvador também.
Gostaria de frisar uma coisa que eu acho importante, já que nós estamos aqui falando e registrando a memória do movimento estudantil: já se falava em reconstrução desde 1972. Nessa época, eu não era ainda da universidade (já que estou falando do que eu vivi concretamente, não apenas do que eu ouvi falar), eu era secundarista, mas nós já ouvíamos falar no assunto. Depois, isso se confirmou com a minha presença na universidade, observando, lendo coisas e ouvindo pessoas que participaram. Houve um forte movimento cultural, uma coisa que a UNE agora resgata e põe em outro patamar, que é o Circuito Universitário Cultura e Arte (CUCA), as Bienais da UNE etc… Em 1972, por exemplo, na Bahia, – quase ninguém sabe disso, é importante que se diga – foi feito o cinqüentenário da Semana de Arte Moderna de 1922, para comemorar os 50 anos de Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Vila Lobos, Tarsila do Amaral e etc. e tal. Foi uma valorização da cultura e da arte brasileira e, ao mesmo tempo, da identidade nacional brasileira. Portanto um momento de nos afirmarmos como brasileiro contra a presença cultural do imperialismo americano, principalmente porque, é bom frisar, em 1971-72, na UFBA, houve a primeira aplicação da Reforma MEC-USAID. A primeira universidade brasileira que teve sua estrutura interna curricular e organizacional, do ponto de vista acadêmico, alterada para adequá-la à reforma do MECUSAID, da agencia norte-americana de difusão cultural, foi a UFBA.

O que se alterou no dia-a-dia da Universidade depois da reforma?
JA – Bom, alterou muito. Acabou-se com o curso seriado, o que trouxe grandes conseqüências acadêmicas, com a perda da unidade dos cursos – do curso de filosofia, de Arquitetura, medicina e tal. Houve uma atomização do curso e, ao mesmo tempo, uma quebra também da unidade política dos estudantes e uma quebra da unidade da convivência, não apenas política porque se quebrou muito a cultura da convivência, de se estar mais tempo na sua faculdade, no seu curso, ou na sua unidade de ensino, para conviver com a geração que entrou na faculdade e outras que já estavam e as que viriam depois.
Ao se criar o curso básico nos institutos básicos ou as matérias ou as disciplinas nucleares que você podia fazer em outros lugares, com alunos de outros cursos, em tese havia vantagem da convivência com pessoas de outros cursos. Mas isso trouxe a diluição da disciplina, porque se fugia muitas vezes de conteúdos que mais interessavam a este ou aquele outro curso. Criou-se muita insatisfação acadêmica, muita crítica acadêmica, consistente, a esse tipo de modelo.
Resumindo, trouxe como conseqüência a quebra da unidade da convivência social e da articulação política, além de outras conseqüências à qualidade de ensino, no terreno meramente acadêmico, que especialistas revelam, hoje, serem objeto de críticas muito profundas e até da retomada de uma reflexão acerca de como deve ser o modelo de matrícula, por exemplo, nas universidades públicas brasileiras: se em cima do sistema de créditos, que era o que a reforma trazia, ou se através de um outro sistema. Hoje, isso está em debate, se nós devemos retomar o curso seriado, ou não, como re-estruturar, se as disciplinas nucleares, das grandes áreas do conhecimento, devem ter conteúdo específico ou não.
Só para colocar o exemplo específico da UFBa, que foi a primeira a aplicr a reforma, a matemática básica, que serve para toda área de Exatas, já é ministrada de maneira dirigida para certos cursos, que exigem detalhamento em alguns conteúdos. Na UFBA, a Arquitetura está classificada como Ciências Exatas, diferente de outras universidades federais, em que Arquitetura está em outras áreas de conhecimento.
Então, havia demandas específicas do curso que era impossível atender, tendo esta espécie de ensino da matemática básica ou física básica para todos os cursos. Mas isso é um programa a ser debatido com mais detalhes. Voltando então à história: em 1972, 1973, 1974, 1975, houve muita resistência cultural e também a construção do primeiro CUCA e do primeiro CUC na UFBA. O CUCA renasce ou nasce agora por um projeto da UNE, mas o CUCA, enquanto sigla, existiu na Bahia entre 1973-75. Claro que não era esse projeto que está em curso, que é muito mais grandioso, com muito mais potencial, em outras circunstâncias completamente diferentes. Nós estávamos resistindo à perseguição, à ditadura, à polícia, à expulsão da universidade. Mas, na Federal da Bahia, existiu o CUCA (que era Centro Universitário de Cultura e Arte) e havia o CUC (Circuito Universitário de Cinema), que pertencia ao CUCA. É bom frisar isso porque são duas siglas hoje muito usadas com outro conteúdo, em outra conjuntura histórica. Mas a coincidência é bonita e interessante.

Como foi a tua trajetória dentro do movimento estudantil?
JA – Eu participei da greve no final de 1975 e início de 1976. Nas férias, nós ficamos matutando: Como é que a gente dá continuidade a essa exclusão com a greve contra o jubilamento? Havia duas vertentes básicas. A primeira era a participar do movimento estudantil especificamente disputando Diretório Acadêmico, a diretoria do DA e do DCE, coisa que eu acabei fazendo. E uma segunda vertente era a intervenção artística e cultural. Então, nós criamos, em A|rquitetura, um grupo de teatro que se chamou “Sonhos e Concretos”, que eu acho um barato, nome que jogava as expectativas do sonho e a completude do concreto da Arquitetura. Então, resultado da intervenção concreta, do concreto da Arquitetura e do sonho, “Sonhos e Concreto” era o grupo de estudantes de Arquitetura. E a gente pegou os livros do Boal, Teatro do Oprimido, Duzentos Jogos de Exercícios de Teatro para Ator e não Ator. Pegamos depois o livro de crônica dele, Nostra América, escolhemos uma das crônicas, que era Nossa Senhora dos Oprimidos, e fizemos três ou quatro colagens de textos.
Fizemos uma primeira montagem a partir de uma criação coletiva, depois fizemos uma colagem de textos de Brecht, Aquele que diz sim e aquele que diz não. Foram três textos, três montagens, com diversas apresentações no pátio da escola de Arquitetura, no pátio da Escola de Teatro e, uma vez, no Instituto de Arquitetos, que não foi feita porque a polícia federal chegou e disse que se a gente fizesse saia todo mundo preso. A gente acabou fazendo, a gente decidiu não fazer a apresentação por causa do IAB. A gente queria preservar o IAB que era um espaço emprestado, a gente não quis comprometer então, aquilo que não era nosso, a gente quis preservar o IAB. Mas dentro da Universidade mesmo com a polícia não querendo, a gente fazia e fizemos quantas vezes quisemos. Então, eu quero pontificar essa característica daquela época.
Havia uma boa articulação entre militância política especificamente estudantil, convencional, e havia uma convenção cultural artística de agitação política muito interessante. Na UFBA havia isso. Tínhamos também muitas Mostras de Som, como a gente chamava. Diana Pequeno, que é uma figura que circulou muito pelo mundo de São Paulo e acho que ainda mora em São Paulo, nasceu das mostras de som da Universidade. Ela fazia engenharia química. Outro músico importante na Bahia,   Carlinhos Cor das Águas, também fez Arquitetura. Durval Lélis, que é uma figura muito conhecida, hoje Asa de Águia, uma figura que circula pela Axé Music, com o Trio Elétrico aqui, por SP, Rio, uma figura já nacional, mas que tocava Bob Dylan na época. Essa turma é uma geração que veio do movimento estudantil da UFBA a partir dessa geração 1975-76.

Que correntes políticas e ideológicas estavam presentes no movimento estudantil nesse momento?
JA – Bem, com muita força na UFBA e à nível nacional, tinha o PCdoB, ao qual eu me liguei já nessa   época. O PCdoB dirigia uma corrente estudantil que foi fundamental na reconstrução do movimento estudantil: a Viração. Esse nome é definitivo e marcante na história do movimento universitário. E havia uma outra corrente que se chamava Caminhando, ligada também ao PCdoB. Porque o   PCdoB, por razões de segurança, em função de proteger-se contra perseguição da polícia, armou clandestinamente duas estruturas. Essas duas estruturas, que eram as duas do PCdoB, acabaram dirigindo duas correntes de movimento estudantil, que se articulavam e acabaram depois tendo divergências. A Caminhando tinha a sua base principal em São Paulo, e Viração era muito forte no restante do Brasil. Caminhando tinha também ramificações no Rio de Janeiro e em outros lugares.
Estas eram duas grandes correntes do PCdoB, mas havia outras tantas correntes. Uma outra corrente, na época clandestina, com muita força também se chamava AP, que era APML: Ação Popular Marxista Leninista. Chama-se, em Salvador, se eu não me engano, de Nova Ação. E havia também as correntes trotsquistas todas, como a Liberdade e Luta e outras. As correntes estudantis ganhavam nomes diversos, mas a matriz do pensamento político era trotsquista. Tinha a Quarta Internacional, como nós, ou eles mesmos, se autodenominavam. As correntes estudantis ganhavam denominações diversas em função de conteúdos políticos programados com estratégicos diferenciados. No caso da Bahia, havia Combate, havia Liberdade de Luta, havia Viração, havia Nova Ação, havia o PCB, que tinha muita força em plano nacional, a partir de São Paulo basicamente e do Rio também, e o PCB que tinha muita força na corrente histórica, já vinha de antes, de 1968, que na Bahia se chamou Sangue Novo. Esse nome foi dado a uma plataforma que concorria ao DCE, e acabou batizando a corrente política.
As correntes, que eu me lembrei assim de supetão, eram essas que havia. Havia também, é claro, correntes mais conservadoras, mas eram minoritárias. Eu me lembro que, no Congresso da reconstrução da UNE, a única direita presente era gaúcha. Eram Getulistas, se a gente podia chamá-los de direita. Mas eles se apresentavam como os mais conservadores. Eles mesmos se auto-colocavam numa posição hostil à esquerda. Então, mesmo que eles não fossem propriamente de direita, e não eram, no universo sectário que predominava no movimento estudantil, se eles não eram um de nós eram contra nós.

Javier, você poderia falar um pouco sobre a sua militância dentro da UFBA. Você foi candidato à coordenação do seu CA lá, não foi?
JA – Fui. Vocês chamam aqui de CA, mas nós chamamos de DA. Até houve uma grande polêmica, assim, radicalizada, no movimento estudantil, se devia ser CA, DA ou DA Livre. Até hoje essa polêmica não se encerrou, e ficou pelo formalismo do que já estava posto. Quem era CA ficou CA (Centro Acadêmico), quem era DA ficou DA (Diretório Acadêmico). No Nordeste, era Diretório Acadêmico. Então, ficou DA. Em Arquitetura, até por uma resistência cultural do pessoal de Arquitetura, o DA não se chamou DA, que era um padrão que a ditadura queria impor: Então, Arquitetura ficou como era antes: DEA (Diretório de Estudantes de Arquitetura). Era para ser Diretório Acadêmico de Arquitetura, mas a gente manteve conscientemente a sigla DEA como uma forma de resistência mesmo. Então, em 1976, eu fui candidato a diretor do DEA. Não ganhamos a eleição, perdemos para a chapa dirigida pelo PCB. Essa chapa fez um discurso muito despolitizado, advogando uma coisa que era uma das marcas do PCB na época, que era uma maneira de se contrapor a nós. O PCB defendeu o tipo de movimento estudantil que era muito mais para formação de quadros para tarefas posteriores na ocupação dos espaços permitidos ou a serem conquistados na sociedade. Nós discutíamos muito isso contra o PCB, dizendo que era uma visão etapista da revolução, uma visão errada de um processo de transformação revolucionário ou mais estrutural, mais profundo do Brasil. Era uma idéia de que tinha que se ocupar espaços na máquina pública. É interessante porque essa é uma discussão que se está posta agora. A esquerda chegou aos postos da máquina pública no país. Boa medida, porque nós ganhamos a presidência da República. Quer dizer, nós ganhamos isso e tudo que é seguinte. A esquerda dirige alguns governos de Estado, dirige muitas prefeituras, está nas Assembléias, está nas Câmaras, na Câmara dos Deputados, nas Câmaras de Vereadores, nas Assembléias Legislativas, no Senado, nas administrações públicas, nas estatais, nas secretarias. Naquela época, havia um forte debate sobre isso.
O PCB advogava um movimento estudantil mais despolitizado, no sentido de que não era bem do movimento estudantil fazer grandes ofensivas, grandes passeatas, confrontos. O movimento estudantil, segundo eles, deveria se voltar para dentro da universidade, refazer a universidade, ocupar postos dentro da universidade, ter representações nas instâncias acadêmicas de direção da universidade: Conselho Universitário, Conselho de Pós-Graduação, Conselho Extensão, Conselho de Curadores, colegiado, departamentos etc., para ir formando os quadros politicamente e intelectualmente para posterior ocupação de cargos nas instâncias públicas. Eles criavam uma dicotomia entre isso e a militância mais combativa, mais de liderança de massas, de movimentos para os quais nós iríamos durante a universidade ou depois da universidade, para sermos provavelmente um militante de esquerda dirigente, de sindicato, associação de moradores, movimento negro, movimento feminista, que naquela época recomeçava com força, movimentos ambientalistas, os chamados movimentos sociais. Então, como na época era tudo radicalizado no embate teórico entre os estudantes, havia uma falsa contradição (hoje, nós vemos que é uma falsa contradição, mas na época era um divisor de águas) de concepção de movimento estudantil. Então, nós perdemos a eleição no DEA para o pessoal que defendia esse tipo de concepção, que acabou levando a uma diretoria que fechou o DEA. O Diretório de Estudantes de Arquitetura ficou – não falo simbolicamente – ficou literalmente sem funcionar um ano. Aí depois a vitória foi fácil, porque ficou provado que a tese do movimento estudantil despolitizado levava na prática a um movimento estudantil parado, a um não-movimento estudantil.
Foi o que aconteceu na Arquitetura. Então, nós ganhamos a eleição seguinte. Eu era candidato à presidente. Então eu fui presidente do Diretório de Arquitetura em 1977, gestão 1977-1978. Depois, fui eleito secretário geral do DCE, na gestão 1978-1979. Houve a reconstrução da UNE em maio de 1979 em Salvador. No final de 1979, eu disputei outra eleição e, de secretário geral, passei a ser candidato à presidência do DCE da UFBA, que era – junto com o da Federal de Minas, da Federal do Rio de Janeiro, da USP, da PUC-SP e da Federal de Pernambuco – um dos mais importantes e ativos DCEs do Brasil, naquela época.

E quais eram as principais reivindicações dos estudantes da UFBA naquele momento?
JA – Todas as plataformas de disputa DCE eram muito específicas, contradizendo essa leitura conservadora de que o movimento estudantil se dispersou, em determinados momentos, porque ele não abraçava as reivindicações universitárias propriamente ditas ou acadêmicas. Isto é falso. Eu afirmo categoricamente que isso é falso. Em nenhum ano, nenhuma plataforma estudantil de disputa de DCE deixou de ser assentada fortemente em reivindicações internas da universidade. Incrível isso. Quem afirma o contrário, simplesmente mente propositadamente, desconhece ou não faz uma análise minimamente séria a partir de leitura de documentos da época, dos jornais, das plataformas. Dizer que  o movimento estudantil era apenas um biombo para as organizações clandestinas se manifestarem, isso é falso. O movimento estudantil era movimento estudantil mesmo, para valer. Na nossa plataforma do DCE tinha desde reestruturação dos currículos de cada curso até a melhoria das condições de vida nas residências estudantis, melhoria da qualidade da alimentação nos restaurantes universitários. Era uma contradição tremenda. O restaurante universitário sempre foi um grande foco de agitação estudantil e uma grande fonte de reivindicações para a melhoria da política da assistência aos estudantes. Então, esta era uma pauta fortíssima. Havia também a luta por mais verbas para aplicar em laboratórios e bibliotecas, na compra de mais livros, de mais equipamentos, de mais instrumentos; apoio à luta de funcionários e professores, que naquela época era muito discreta, praticamente inexistente. Portanto, essa luta chamada específica era muito forte, muito acentuada, e  com ela se articulava a luta de caráter político mais geral. Na minha chapa para o DCE, nós já reivindicávamos, por exemplo, a convocação da Assembléia Constituinte, que só veio a acontecer a partir em 1987-1988. As nossas bandeiras políticas eram: anistia ampla, geral e irrestrita e revogação das leis de exceção. O slogan era esse: “Pelas liberdades democráticas e pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte”. Eram essas as grandes bandeiras políticas, de caráter anti-ditatorial, democrático, que nós defendíamos. Ao lado disso, nós levantávamos bandeiras antiimperialistas contra ingerência do modelo norte-americano e das agências de fomento à pesquisa acadêmica no meio universitário. A discussão sobre o papel da Fundação Rockfeller, da Fundação Ford é uma polêmica atual: a relação de projetos da Fundação Ford com certas pesquisas, a influência em certos conteúdos   e certas concepções de movimento social, movimento negro, movimento ambientalista, movimento de juventude, movimento feminista. Isso já era um assunto em 1974, em 1975. Já era de antes, na verdade. Mas eu falo da minha época, em 1975, 1976, 1977. Nós discutíamos o papel e a presença de fundações norte-americanas na estrutura da universidade, na estrutura acadêmica e na estrutura física.
Em Arquitetura, nós tínhamos umas salas que eram fechadas. Nós não sabíamos o que era. Havia uma marca, um cartaz, uma placa, dizendo que era um projeto ou um programa de pesquisa financiado pela Fundação Ford ou pela Fundação Rockfeller. No caso de Arquitetura, eram programas de estudos sobre recuperação de áreas degradadas ou características da favela brasileira ou da favela na Bahia. E nós achávamos que tinha muito a ver com os estudos de contra-insurgência, com a política de Segurança Nacional que os americanos desenvolviam no Brasil e no resto da América Latina. Tinha a ver, porque os focos do protesto, da luta, não tinham a ver somente com a floresta tropical, como era o caso da experiência guerrilheira da década de 1960, que culminou com o guevarismo, com o exemplo de Che Guevara, quer dizer, com a tentativa da organização guerrilheira em mata tropical, em floresta tropical – como no caso da Bolívia e com a Guerrilha do Araguaia, depois no Brasil. Havia um interesse muito aguçado desse Centro de Inteligência sobre a viabilidade, a possibilidade de insurreição em grandes centros urbanos e em zonas de degradação social, de grande pobreza. E nós achávamos que, no caso de Arquitetura, os estudos focados nesse tipo de tema, financiados por fundações norte-americanas, tinha muito a ver com o estudo da possibilidade de insurreição ou de levantes urbanos a partir de zonas faveladas, por exemplo. Então, havia essa polêmica entre nós e essa polêmica se estende até hoje. O problema do financiamento das pesquisas e da influência do órgão financiador, da agência financiadora nos processos, nos métodos de pesquisa, nos conteúdos a serem investigados, as “principalidades”, as coisas secundárias e nos resultados finais, evidentemente. Então, esta era uma das questões presentes na nossa plataforma. Nós discutíamos isso, estava escrito nas plataformas que disputavam o DCE. Portanto, havia um forte conteúdo antiimperialista nas plataformas. A minha era assim. Havia uma referência explícita ao imperialismo norte-americano. Nós usávamos muito a referência gráfica da águia norte-americana e do ataque ao símbolo dos Estados Unidos da América do Norte. Havia bem uma articulação entre o político mais geral, de caráter antiimperialista, com a influência disso nos curriculuns e na estrutura acadêmica. Então, aquele que diz que o movimento estudantil não tem uma tradição de luta específica, acadêmica, universitária no sentido restrito do termo, desconhece a história do movimento estudantil. Como não havia debate entre os partidos abertamente, porque os documentos eram clandestinos, boa parte do debate teórico da esquerda brasileira era transferida para as plataformas do movimento estudantil. Como não havia também a disputa de Centrais Sindicais (porque elas eram proibidas) ou dos Sindicatos (porque eles estavam sob intervenção do Ministério do Trabalho), o movimento estudantil, ao lado das teses acadêmicas e do debate dentro das faculdades feitas com os professores, era o grande palco de confronto das teses das organizações clandestinas, já que seus documentos não podiam se confrontar tão abertamente quanto, por exemplo, as plataformas de um DCE, que acabava virando também plataformas de uma visão de Brasil e de uma visão da luta e transformação do Brasil que cada uma das organizações clandestinas tinha.

Vamos falar um pouco, agora, do processo de reconstrução da UNE. Você participou em 1976 do I Encontro Nacional de Estudantes, onde começou o debate sobre a reconstrução?
JA – Não, eu não participei dos ENEs. Foram quatro ENEs – Encontro Nacional de Estudantes, sempre por definição política. No primeiro e segundo, nós da Viração não reconhecíamos muito. Quer dizer, os encontros aconteceram sem a nossa participação, pelo menos mais massiva e forte. Da Bahia, a   impressão que a gente tinha é que eram muito centrados numa dinâmica da USP e muito de São Paulo.  E nós tínhamos restrições a um processo que não levasse em conta a média nacional ou, pelo menos, outras realidades que não fosse a paulistana. Então, a gente desconfiava um pouco assim, de uma certa postura que a gente achava que saía da média do comportamento do estudantado brasileiro.
Achávamos que seria um movimento estudantil de minorias, meramente da vanguarda, e não de um grande contingente estudantil. Depois do 3º ENE e do 4º ENE, ao que me consta, nós do PCdoB participamos, e participamos com muita força. Mandamos gente do Brasil inteiro, delegações com centenas de pessoas. Marcamos muita presença. Eu não fui ao 3º e ao 4º ENE por uma decisão nossa. Rui era presidente de DCE e eu era secretário geral. O presidente viajava, e era possível a sua prisão no meio do caminho ou a dificuldade de voltar por obstáculos que a repressão poderia colocar. Então, eu fiquei na Bahia. Eu me lembro que a gente discutiu isso e ficou decidido: o Rui vai e Javier fica.
Então, o Rui foi para o 3º ENE e eu não fui. Então foi uma divisão de tarefas, digamos assim. Mas eu participei muito de assembléias e ajudei a escolher delegados. Acho que fui candidato, não me lembro direito, a delegado de Arquitetura, mas nós escolhíamos também suplentes, e acabei não viajando por uma decisão de movimento estudantil. Esses ENEs acabaram redundando numa proposta de criação da Comissão pró-UNE, que era formada por quatro ou cinco DCEs, destacadamente pelo DCE da Federal da Bahia, o DCE da USP, o DCE da PUC-SP, o da UFRJ e, não me recordo com muita precisão, mas acho que também o DCE da Federal de Pernambuco. Dessa comissão pró-UNE, aí sim, eu participei com muita força. Em Salvador, nós fizemos muitas atividades pela reconstrução da UNE,
Preparamos a cidade para receber o Congresso de reconstrução. Foi lindíssimo, porque não tínhamos dinheiro para pagar hotel e precisamos receber milhares de pessoas. E a cidade de Salvador hospedou milhares de pessoas. Além de nós hospedarmos pessoas nas dependências das universidades -com muita restrição, porque os diretores, para não falar dos reitores, não queriam emprestar as dependências das faculdades-, nós colocamos, se eu não me engano, mais de 2 mil, 3 mil pessoas hospedadas em apartamentos, em residências em Salvador. Nós fizemos campanha pela imprensa e as pessoas ligavam para a central oferecendo suas casas. Conseguimos hospedar milhares de pessoas em residências, em 1979. O processo de reconstrução da UNE foi muito bonito. Foi um processo acompanhado com muito interesse por parlamentares da oposição, pelo MDB da época, por sindicatos de trabalhadores rurais. Eu me lembro da presença do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Felix do Araguaia, que falou em nome dos camponeses no Congresso de Reconstrução da UNE em 1979. José Serra falou como último presidente da UNE na legalidade. Ele era o presidente da UNE na época do Golpe Militar e falou em nome dos ex-presidentes. Levantamos a fotografia de Honestino Guimarães. A partir de uma foto pequenininha, 3×4, de uma carteira de identidade que conseguimos com familiares seus, nós fizemos um grande retrato de Honestino. O Congresso da Reconstrução da UNE, no ato de inauguração, tinha 11 mil pessoas. José Celso Martinez se apresentou. O Oficina ainda não existia em São Paulo, não tinha sido ainda reconstruído. Zé Celso Martinez tinha voltado de Moçambique. Ele e outro companheiro seu apresentaram filmes feitos em Moçambique, fizeram uma intervenção teatral importantíssima, de caráter bem antiimperialista, anti-norte-americano, antiestados unidense, já falando em revolução cultural. É bom frisar que nós vivíamos uma época em que nós conseguíamos, para felicidade do movimento estudantil, da esquerda brasileira, absorver lições que vinham de 1968, do movimento extra-partidário militante. A gente absorveu muito a cultura hippie, elementos e conteúdos que vinham de outras preocupações que não apenas da militância partidária, explícita, política. Então, naquela época começou a se falar muito dos direitos da mulher. Na minha campanha para o DCE da UFBA, nós fizemos uns cartazes, que eram cópias heliográficas, feitas em escritórios que faziam cópias para Arquitetura, que a gente não tinha dinheiro para pagar off set, então a gente fez uns cartazes. Eu me lembro que havia a figura de uma mulher super bonita, que fizemos a partir daquele quadro que retrata a insurreição em Paris, a revolução francesa. Era um quadro que representava a liberdade dirigindo o povo então. Alguém repetiu a figura feminina, rasgando a vestimenta e mostrando os seios. E o slogan era: “rasgar os mitos”. Quer dizer, em 1978-1979, alguém disputava o DCE mostrando mulheres com os seios nus e apresentando isso como símbolo da libertação da mulher. Era superimportante! O movimento feminista não fazia isso. Não se usava, por exemplo, a nudez. A nudez não como nudez, reafirmando uma visão utilitarista do corpo feminino, mas
a nudez expressando justamente o contrário, como forma de libertação da mulher. A gente colocou isso na chapa do DCE. Hoje em dia, será que se faria isso, por exemplo? Eu não conheço ninguém fazendo isso. Eu acho que foi uma postura super-avançada. Naquela época, começava-se a discutir o uso da maconha: fumar ou não fumar; é legal, não é legal. Discutíamos também homossexualidade e sexualidade no sentido mais amplo do termo. Depois da anistia, em 1979, com a chegada de muitos exilados que vinham de outras experiências, principalmente das experiências da luta libertária, da luta progressista de esquerda, pós-1968 da Europa, esses elementos – como a preocupação ambientalista,
a luta pela igualdade entre homem e mulher – se incorporaram ao ideário da esquerda brasileira de uma forma muito mais ofensiva, muito mais afirmativa do que era antes, menos careta também, digamos assim. A luta pela liberdade de expressão sexual veio com essa geração que estava no exílio na Europa. Eu me lembro que, por exemplo, não havia movimento ambientalista expressivo no Brasil.
Não existia movimento de ONGs. Não havia isso. Até que, no seio das universidades e fora delas, mas com pessoas muito ligadas ao movimento estudantil, foram criados os Comitês de Defesa da Amazônia.
Deve-se destacar também a atuação de um gaúcho superimportante na história do movimento ambientalista brasileiro, que é José Lutzenberger. Ele puxou uma luta pelo fechamento de uma fábrica de celulose no Rio Guaíba e a luta em defesa da Amazônia. E, é claro, as lutas preservacionistas   também foram criando um caldo de cultura a partir muito fortemente do movimento estudantil. O que é hoje o movimento ambientalista brasileiro tem sua raiz no movimento universitário e em pessoas que, tendo saído do movimento estudantil e se interessado por fazer Arquitetura, biologia, acabaram depois da universidade se tornando a geração de ambientalistas do Brasil.

Quais foram as principais dificuldades enfrentadas pelo movimento estudantil no processo de reconstrução da UNE?
JA – A ditadura, a repressão política e tudo que isso implica. Dificuldade financeira. A gente não tinha nenhuma fonte de financiamento, nenhuma mesmo. A UNE tem hoje as carteirinhas. Polêmica ou não, monopólio ou não, a UNE tem uma fonte de renda que lhe dá um mínimo de sustentação fundamental.
Aliás, foi quando eu fui presidente da UNE que se criou a Carteirinha da UNE. A UNE não conseguia firmar convênio com ninguém porque não existia legalmente. Então de onde tirar dinheiro para o movimento estudantil? Era um problema. Havia a repressão política, e tínhamos dificuldade de conseguir por causa disso mesmo. Mas era só isso. Havia um clima de desconfiança, de medo em relação aos estudantes criado pela ditadura. Quem queria ajudar não ajudava ou não ajudava muito com medo da repressão e das conseqüências. Isso era uma dificuldade. Então, a ditadura era o grande obstáculo e, portanto, o grande móvel para atiçar um sentido à vida, que extrapolasse o mero objetivo da formatura, de entrar na carreira profissional, ganhar dinheiro, sobreviver profissionalmente e essas coisas.

Esse momento é o da chamada distensão política. Em que medida você acha que a reconstrução da UNE pode estar relacionada com as mudanças implementadas no governo Geisel?
JA – Bom, evidentemente a reconstrução da UNE teria sido impossível em 1970, 1971, porque ali estava todo mundo correndo da polícia, da perseguição e etc. No momento da reconstrução já havia um abrandamento do regime, mas o regime – é bom lembrar – matou até 1976. Depois houve mortes em manifestações de rua, mas gente que morreu pela ação direta da repressão política foi até 1976, se não me falha a memória. Wladimir Hersog foi assassinado em 1975. Em 1979, evidentemente já estava havendo muito desgaste da ditadura, mas a ditadura só tem fim em 1985 no Colégio Eleitoral. De 1979 a 1985 são seis anos. Havia, portanto, ainda muita gente precisando responder inquérito. Eu fui punido com 15 dias de suspensão na UFBA, porque organizei uma festa pró-reconstrução da UNE na Faculdade de Arquitetura. Durante 15 dias, eu não poderia assistir aula porque fiz uma festa que tinha como meta a reconstrução da UNE. Havia isso. Alem disso, havia toda uma possível perseguição que ficaria marcada no currículo se alguém fosse punido por algo mais severo do que coisas como essas. E havia as perseguições que poderiam ser movidas no terreno judicial, policial propriamente dito. No meu caso, é um assunto que a gente vai tratar daqui a pouco. Quando eu fui presidente da UNE, sofri um inquérito de expulsão do país a partir da lei de estrangeiros, que era uma lei implantada pela ditadura.
Mas a isso foi em 1981, 1982. Ainda em 1979, de fato havia uma distensão. “Distensão” era como eles chamavam, mas a gente resolveu acelerar essa distensão. A gente queria rapidez nesse processo. Nós não usávamos nem o termo “superação”, nem “distensão”. A gente usava a expressão “derrubada ditadura”. A gente queria derrubar a ditadura. Não queira superar a ditadura, não queria que houvesse um processo de auto-regulação do regime, que se transformaria por conta própria de ditadura em democracia limitada, e foi o que de fato aconteceu. Nós queríamos a derrubada da ditadura por um movimento de massas, através de manifestação de rua, pressão. Queda do regime militar, fim da ditadura militar, era o slogan que se levantava. Havia o medo, mas era crescente a cada ano, a cada   semana, a cada dia a vontade de superar o medo. Foi, portanto, uma coisa que marcou e educou gerações inteiras de gente que passou pela universidade ou que passou pelo movimento secundarista, tendo ido para a universidade ou não. A gente sempre esquece do movimento secundarista. É bom frisar sempre o movimento secundarista, que se reconstrói nacionalmente logo depois da reconstrução da UNE. No Congresso de Reconstrução da UNE, houve uma reunião de secundaristas. Não era um encontro oficialmente anunciado, mas houve um encontro dos secundaristas que lá estavam e, logo depois, houve o processo pró-reconstrução da UBES, União Brasileira de Estudantes Secundaristas. O meu reconhecimento institucional levava a uma dificuldade tremenda de conseguir recursos materiais, a perseguição política levava ao medo, que trazia como conseqüência que outras possibilidades de apoio material não existiam, porque o que havia de extra-universidade se fechava para o movimento estudantil. Mas, bem ou mal, nós conseguimos. Com os próprios estudantes dando ajuda financeira, avançando sobre a repressão, ampliando espaços democráticos no país, se articulando com setores progressistas das igrejas, católica e não católicas.

E o movimento sindicalista?
JA – O movimento sindicalista não existia com muita força. Ele estava rompendo o antigo processo anterior, estava se reconstruindo em novos moldes. Existia com muita força, antes de 1979, as chamadas oposições sindicais, e já havia em alguns lugares do Brasil sindicatos fortes, com diretorias em transição que nos apoiavam, mas não faziam parte da vanguarda de apoio ao movimento estudantil. Porque o movimento estudantil era tido por setores do movimento sindical como irresponsável, esquerdista, juvenil, pueril, com pouca conseqüência. Mas, na verdade, o movimento estudantil era o grande aríete, a grande maçaneta que dava uma porrada mesmo, que levantava as bandeiras políticas. Era o movimento estudantil, não o movimento sindical. O lema do movimento sindical, mesmo o do ABC, era lutar pelos direitos dos trabalhadores. O “abaixo a ditadura” aparecia no meio de assembléias, mas não era a bandeira que a liderança o movimento sindical levantava. A liderança queria lutar pelo direito dos trabalhadores, pela liberdade sindical. Quem ia adiante, quem defendia a constituinte, o fim das leis de exceção, a revogação do 477, a revogação do AI-5, a revogação da lei de Segurança Nacional, o fim da ditadura militar, isso quem fazia era o movimento estudantil.

No Congresso de 1979, foi aprovada pela primeira vez eleição direta para diretoria da UNE. Como foi isso?
JA – Foi uma decisão de maio de 1979, e a eleição se realizou em setembro de 1979.

O que isso representou?
JA – Houve um debate teórico sobre métodos do movimento estudantil, sobre as formas de organização etc, que se concentrou muito em torno do tema da eleição direta ou não para a diretoria. Agora, esse tema também escamoteava outras divergências. O tema era real, mas se inflava essa polêmica para permitir mais tempo para algumas forças, que certamente perderiam uma votação no Congresso, se re-agrupassem, se aglutinarem em aliança com outras correntes políticas para disputar a diretoria da UNE. Então, não era só uma concepção do movimento estudantil que estava em jogo. Tratava-se também de uma jogada política para permitir que o PCdoB não ganhasse a votação em maio, no Congresso de Reconstrução, e dar um tempo para que outras correntes se aglutinassem para disputar  em melhores condições. Não adiantou a manobra, porque a gente ganharia no Congresso se houvesse votação de delegados e nós ganhamos a eleição em setembro através do voto direto. Argumentava-se que a votação direta daria mais legitimidade a UNE. Nós não concordávamos e acho que nós estávamos certos. O auge da UNE foi a sua reconstrução, foi o momento ápice daquela época. As notícias sobre a eleição direta e a posse da diretoria foram secundárias se comparadas ao espaço e as manchetes que todas as grandes revistas nacionais – Veja e Isto É – estavam se preparando para dar na época da Reconstrução da UNE. De fato, a Isto É deu capa à reconstrução da UNE, mas deu porque era reconstrução. A eleição da diretoria, em setembro, já foi notícia secundária, porque a grande notícia foi a reconstrução. Então, o bom teria sido que na reconstrução já tivesse saído uma diretoria com tarefas e lutas para serem encaminhadas. Nós tivemos ainda que segurar certas lutas, não tivemos uma diretoria plena, porque a diretoria provisória que foi eleita teve como grande tarefa a organização da eleição direta em setembro e outubro daquele ano.

Quem fazia parte da diretoria provisória?
JA – A diretoria era encabeçada por Rui César Costa Silva, estudante de jornalismo, de Comunicação da UFBA que, depois, foi nosso candidato e eleito presidente da UNE. Os outros eram Marcelo Barbiere (que é deputado federal hoje, por SP), Luis Falcão (que foi vice-presidente da UNE quando eu fui presidente), um companheiro chamado Pimenta (da Federal de Juiz de Fora). Havia, se eu não me engano, duas mulheres na diretoria: a Secretária de Relações Internacionais e a vice-presidente do Nordeste, que era da Universidade Federal de Pernambuco. Aldo Rebelo foi o secretário geral da UNE nessa priemira diretoria eleita em setembro, mas ele já fazia parte da diretoria provisória. Não me
lembro de todos os nomes.

O que significou, enfim, a eleição do Rui César?
JA – Bom, com Alessandro Rui César culminou o processo de reconstrução, finalmente tivemos uma diretoria que podia circular em nome do movimento estudantil brasileiro, não uma diretoria provisória, não uma comissão provisória, não uma meia diretoria, era uma diretoria eleita, votada pelos estudantes. Rui foi eleito inquestionavelmente presidente da UNE, assim como os outros diretores. É bom a gente não falar só nos presidentes ou nas presidentes para não ficar uma coisa muito centrada só na figura do presidente ou da presidente. A eleição da diretoria foi inquestionável: quem perdeu, perdeu, quem ganhou, ganhou. Quem perdeu reclamava, protestava, contestava muitas vezes a representatividade, porque o numero de votantes foi, se eu não me engano, 380 mil e, na época, nós tínhamos cerca de 1 milhão e 500 mil universitários. De qualquer maneira, é uma coisa extraordinária, porque nenhuma organização nacional tinha ou tem eleição direta. Se eu não me engano, quem tem eleição direta hoje, são os arquitetos de formação.
O meu Conselho(Arquitetura) tem eleição direta, mas não é uma coisa massiva. A eleição direta para a UNE foi e é, ainda hoje, a maior eleição direta que já se fez para uma organização representativa de um segmento importante da sociedade brasileira. A eleição da OAB era, e é, realizada em congresso. Não é eleição direta. Aliás, eu retifico no CC da OAB é. Sei que as seccionais da OAB são eleitas por voto direto, e acho que se escolhem integrantes nessa eleição direta para os membros da OAB que escolhem uma diretoria em colegiado. Nós não, nós votávamos diretamente para a diretoria da UNE. Ninguém fazia, ninguém fez isso. Nem a CUT faz isso.
A CUT ainda hoje elege sua diretoria em congresso. A CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura) elege em congresso. Outras organizações do mesmo gênero, representativas de movimentos sociais, ou de segmentos sociais desse tipo, massivos, também elegem suas diretorias em congresso. Então, a nossa tese foi derrotada e uma parte do PCdoB, que era da Caminhando, votou na tese da eleição direta em setembro. O PCdoB então se dividiu. Viração votou a favor da eleição na hora, em maio, no Congresso, e Caminhando votou pela eleição direta. Se eu não me engano, houve duas ou três eleições diretas, não recordo direito. Mas depois se voltou ao método da eleição em congresso, que era o que havia anteriormente, e é o que se faz hoje, que é o mais correto.

Como foi a eleição, no ano seguinte, em 1980, do Aldo Rebelo?
JA – Rui César era a grande personalidade da UNE. Rui viajou para fora do país em nome da UNE, participou de Congresso de UIE (União Internacional dos Estudantes), participou de reunião de OCLAE (Organização Continental Latino Americana de Estudantes). Recebemos delegações de fora. Rui foi capa da Isto é, objeto de mútuo interesse para a imprensa, deu entrevistas na televisão. Na época, as entrevistas tinham uma enorme repercussão, porque as entrevistas com certas personalidades eram certa ousadia do jornalismo brasileiro. Corria-se o risco da censura, do fechamento do jornal, punição ao programa de televisão, e Rui deu muita entrevista. Rui era a grande figura do movimento estudantil nacional, e havia muitas grandes figuras nos Estados. Sempre quero frisar isso, que não era só o presidente, havia muitas lideranças importantes regionalmente e essas pessoas davam muita entrevista também. Havia uma pessoa que ganhou uma tarefa nossa de circular nacionalmente reconstruindo DCEs, fazendo palestras, ajudando a reconstruir Diretórios, ou construindo novos Diretórios. Essa figura se chamava Aldo Rebelo, que foi o secretário geral da primeira diretoria, fruto da eleição direta da UNE. Então, Aldo se gestou como liderança à partir de um trabalho mais de bastidores, e de grande orador que ele era. Continua sendo um grande orador. Nós não tivemos dúvida de que, depois de Rui César, Aldo deveria ser nosso candidato à presidência. Isso foi resultado de uma discussão que certamente teve a participação dos dirigentes, por um processo interno do Partido, mas que chegou ao nível da corrente estudantil, porque essas decisões tinham que passar pelas grandes assembléias que nós tínhamos. Nós fazíamos reunião de Viração na Bahia, tivemos reuniões nacionais de Viração na Bahia e no Rio de Janeiro com quase 2 mil pessoas. Nós éramos uma corrente de opinião, como havia outras correntes de opinião também do mesmo porte, com 600, 800 pessoas.
Então, eram grandes assembléias públicas, legais, não eram escondidas, não era um processo clandestino, dos partidos que ainda eram clandestinos. Nós aprovamos, em plenária de Viração, o nome de Aldo Rebelo, que foi levado a uma segunda disputa pela chapa Viração. Acho que a segunda plataforma era Viração. A primeira plataforma nossa para UNE, se não me engano, chamou Novo Tempo.

Não teve uma chapa Mutirão?
JA – É, não me recordo agora, se a primeira foi Mutirão… Foi Mutirão, depois foi Nossa Voz e, se não me engano, a última foi Viração. Sei que Aldo foi da segunda diretoria eleita. Ele foi eleito presidente da UNE. Eu era o diretor de Cultura da UNE na chapa que Aldo era presidente.

Como foi a indicação do seu nome para a diretoria da UNE?
JA – Bom, eu esgotava meu mandato de presidente de DCE. Eu era a maior liderança do DCE da UFBA. A UFBA era certamente um dos quatro principais centros do movimento estudantil brasileiro. Eu era assim uma figura muito importante, era praticamente a grande liderança, a grande personalidade pública, digamos, da minha corrente política em Salvador. Na Bahia, não havia outra pessoa mais ou menos com a mesma projeção que eu, e acabei sendo escolhido para ser da diretoria da UNE. Eu já tinha muita afinidade com a área de cultura, já tinha feito teatro, já tinha organizado coisas como as mostras de som, as festas em Arquitetura e tal. Aí, eu fui para a diretoria de cultura da UNE. Eu pedi, eu queria isso. Marquei minha vida até hoje como parlamentar – como vereador, que eu fui quatro   vezes em Salvador, e como deputado estadual – com interesse pela arte e pela cultura, entre outros temas. E a raiz disso está lá no movimento estudantil. Então, eu fui diretor de cultura da UNE, e a diretoria de cultura, junto com Aldo, lançou a revista Movimento, que hoje é a revista da UNE. Aliás, é preciso retificar a numeração da revista da UNE porque ela não leva em conta esse número especial que houve, que foi uma retomada dos números anteriores ao golpe de 1964. A UNE publicava a revista Movimento, que era uma revista superimportante. Na gestão de Aldo Rebelo na presidência e com a minha presença na diretoria de cultura, nós relançamos a revista da UNE no congresso em Cabo Frio, que acabou me elegendo presidente da UNE.

Como era a atuação cultural da UNE, nessa época?
JA – Da UNE propriamente dita, zero praticamente. O que a UNE fazia era estimular iniciativas que eram muito mais dos DAs e dos DCEs. A UNE emprestava seu nome, mais aqui no sudeste do país: São Paulo e Rio. Junto com os DCEs, organizava mostras de som, festivais de música, mostra de música, apresentações, teatro etc. Era uma ação sistemática, mas não era uma política que emanava com muita autonomia pela UNE. Era muito mais a UNE ajudando iniciativas de baixo do que propriamente uma política da UNE. A revista da UNE foi uma tentativa de provocar isso e eu organizei diretamente, posso dizer isso sem cair no personalismo. Houve uma tentativa – que é preciso também registrar na história – de dois encontros para debater política cultural do movimento estudantil. Eu organizei os dois, um deles foi em São Paulo, no Teatro do Centro Acadêmico 11 de Agosto, que é o CA da São Francisco, da Escola de Direito da USP. Tenho fotos do encontro. Isso foi em 1980, eu era diretor de cultura. Depois, fizemos o segundo encontro de cultura da UNE, em Curitiba.

Qual era a importância do tema cultura na mobilização política dos estudantes?
JA – Eu acho que ela foi importante naquele período que eu falei, 1973-79. Depois, teve a reconstrução da UNE. Com a reconstrução da UNE, entrou em cena a participação política mais direta, sem se usar a cultura como instrumento para se fazer agitação política. Começou a haver uma decadência, uma queda do interesse pela intervenção estritamente cultural do movimento estudantil. O que foi uma   pena, mas se justificou, dá para se entender bem o porquê. Não houve a competência, o cuidado de cuidar, de preservar essas frentes de atuação, como nós não tivemos o cuidado de desenvolver atividades esportivas nas OEs. A gente só fazia mobilização, greve, agitação política, luta por melhoria  das condições de ensino, qualidade da universidade etc e tal. Não ficava na mão dos principais segmentos de esquerda do movimento estudantil, por exemplo, a organização das ligas esportivas, dos campeonatos e nem da atividade artística ou cultural. Claro que isso não é algo absoluto. Havia coisas importantes, mas acho que tenha sido uma coisa muito significativa. Não se chegou nunca ao zero e isso também variou muito de universidade para universidade. Sempre houve mostra de cinema.
Eu me lembro que, na minha época de DCE, e mesmo depois que eu saí do DCE, quando eu estava na UNE, o pessoal continuou fazendo na Federal da Bahia o CUC (Circuito Universitário de Cinema) e, logo depois, até com professores de cinema da universidade. Manteve-se esse mínimo de atividade de mostra cultural, seja de cinema, seja de montagem de peças de teatro, de textos ou de intervenções   teatrais. Mas isso não me pareceu uma coisa significativa, embora sempre tenha havido um DA e um DCE que tenha feito um caderno de poesia, que tenha feito uma mostra de fotografia. Isso sempre existiu, mas não chegava a constituir uma intervenção poderosa na área cultural e artística.

Você já mencionou o Congresso Cabo Frio, que foi o 33º, que o elegeu presidente da UNE. Como que foi esse Congresso? Quais eram as correntes em disputa? Como foi a composição da diretoria? Quais foram as principais resoluções do Congresso? E por que, nesse ano, as eleições voltam a ser indiretas?
JA – Já é uma coisa curiosa um congresso em Cabo Frio. Não sei se tem universidade hoje em Cabo Frio, mas na época, certamente não tinha. E Cabo Frio era e é conhecido pelos balneários, pela praia, pelo sol, muito mais pelo não compromisso com coisas pesadas, com a militância política, muito mais com o hedonismo, com o prazer do que outra coisa. A gente resolveu fazer um congresso em algum lugar que desse um mínimo de infra-estrutura. No Rio de Janeiro, tinha o governo de Chagas Freitas, que era do PMDB. Embora o chaguismo fosse ligado também à ditadura, mas – para todos os efeitos – era uma legenda oposicionista que dirigia o Rio de Janeiro. Então, nós fomos atrás de um espaço mínimo de representatividade do movimento estudantil e onde houvesse uma presença democrática na   cidade ou no Estado que nos permitisse uma retaguarda material e política, para ninguém ser preso, e nos permitisse a realização do Congresso. Que Estado era esse? O Estado do Rio de janeiro. Um movimento estudantil forte, na UFRJ, na PUC do Rio, na outra universidade que é de uma igreja também cristã que eu esqueci o nome. Enfim, havia pelo menos quatro, além da UFRJ, universidades com forte movimento estudantil no Rio de Janeiro e com isso estava criada a base. Além do Rio de Janeiro ter sido, e ainda é hoje, um grande centro cultural e de grande participação democrática. A gente foi pedir apoio ao governador Chagas Freitas. E conseguimos. Só que por uma série de circunstâncias – eu acho que o chaguismo não quis dar uma mostra de confronto com a ditadura militar –, não dava para fazer no Rio. Aí nós acabamos fazendo em Cabo Frio, no estádio de futebol de Cabo Frio. E fomos hospedados em péssimas condições pelos colégios de Cabo Frio e no próprio estádio de futebol. Mas lá se fez um bom congresso, um congresso bastante representativo, onde eu fui também eleito presidente da UNE.

E como foi a sua eleição?
JA – O congresso foi superinteressante. Foi feito num estádio de futebol. A arquibancada era linear e não curva, como é em geral nos ginásios de esporte, que são os ambiente que nós mais usamos. Nós fizemos num estádio de futebol. Todo mundo ficava em linha reta e a mesa no campo, no gramado, o alambrado separando para evitar invasão, protestos. Eu acho muito engraçado porque a gente ficava no gramado, aí as pessoas se inscreviam, vinha até o gramado, falavam, voltavam para a arquibancada e tal. Se eu não me engano, na eleição, quatro chapas disputaram, mas nesse congresso foi criado um novo método de eleição que era a eleição em congresso e a eleição proporcional. As chapas concorreram, se contou o número de votos e aquelas que quiseram se articular, se articularam e compuseram a diretoria da UNE. Foi interessante porque a nossa chapa, encabeçada pelo PCdoB, cujo presidente era eu, se confrontou com outras três, sendo que a segunda mais votada era a mesma chapa nossa, só invertendo a cabeça. Quer dizer, ao invés de Javier ser o presidente, o presidente era Luís Falcão, que era Lula de Pernambuco, e eu era vice. Era uma chapa contra a outra. Nós escrevemos nossa chapa, depois eles escreveram a deles, que era a mesma invertendo a cabeça. Havia os slogans muito engraçados porque quando a gente queria ou algum adversário queria ridicularizar a chapa, gritava assim: “fulano e fulano é muito forte [fisicamente], coloca ele no esporte”. Para sacanear alguém, para rebaixar a função, o cara não podia ser candidato à presidente, dizia-se então “coloca o cara no esporte e tal”. Havia uma coisa de bom humor sempre, nas palavras de ordem, nas gozações.
A gente gritou que Lula era muito forte e que era para botar ele no esporte. E o pessoal revidava: “Javier é muito forte, bota ele no esporte”. Então, houve a votação, duas chapas quiseram se compor, que foi a nossa com a outra que era a mesma nossa apenas com a inversão dos cargos. Como nós ganhamos, o presidente eleito era eu e o vice, se assim eles quisessem, seria Lula Falcão. E ele aceitou, o MR-8 aceitou. Então, nós formamos uma diretoria que era formada pelo PCdoB, MR 8, pessoas não ligadas à militância partidária, gente do PCB e alguns setores que eram ligados à AP. Foi uma diretoria eclética, que já expressava, de certa maneira, o processo de reorganização das correntes   da esquerda brasileira, a transmutação de algumas delas para outras forças e com outros conteúdos um, dois, três anos depois. Para formar a diretoria, se usou o método da eleição no congresso e da composição proporcional ao voto que cada uma das chapas tinha.

O você destacaria da sua gestão como presidente da UNE?
JA – Olha, a minha diretoria foi muito atuante. Havia membros muito atuantes em suas respectivas regiões, estados. Eu me lembro, por exemplo, que a diretoria da qual eu fui presidente fez um seminário sobre a reforma universitária no Rio de Janeiro. Isso prova que o nosso interesse pelo tema é antigo. O título era Reforma Universitária, assunto que está em pauta hoje, provocado pelo MEC.

Como era a relação da UNE com o MEC?
JA – Era uma relação formal. Nós entregávamos documentos, protocolávamos, mas o Ministério não nos recebia. Eventualmente, em determinadas circunstâncias, alguém da SESUP, a Secretaria de Ensino Superior, ia até uma greve ou negociava com a UNE informalmente, mas ministro da ditadura nunca recebeu a UNE. Eu fui diretor de cultura e presidente da UNE e nunca fui recebido por nenhum titular do Ministério da Educação.

E com relação à política nacional em geral, como era a atuação da UNE?
JA – Houve o Seminário da Reforma Universitária. Houve uma grande luta nas universidades federais contra a portaria do general Figueiredo, que era o presidente da República, o ditador na época, que revogou a portaria que unificava uma política de restaurantes universitários. Então, nós víamos na revogação da portaria do restaurante universitário uma tentativa de implantar cobrança da alimentação dos restaurantes, que eram gratuitos, ou ampliar a cobrança onde já era cobrado. Em alguns casos, havia cobrança. Houve uma grande movimentação e essa grande movimentação levou a um debate se devia haver uma greve nacional geral das federais contra a implantação do ensino pago. Nós víamos na revogação da portaria uma ameaça visando a implantação do ensino pago nas universidades. Houve, portanto, uma grande movimentação. Não houve a tal greve geral, mas houve muita greve que a gente dirigiu em todo Brasil, grandes movimentações. Foi um luta nacional que ganhou proeminência, projeção, saiu muito na imprensa, teve grandes assembléias. Essa foi uma marca da diretoria que eu presidi. Mas a marca maior eu acho que foi a defesa da própria UNE, através da defesa do presidente da UNE contra a expulsão do Brasil. O pretexto da ditadura era o fato de eu ter nascido fora do Brasil e a lei proibir a participação de estrangeiros na vida política brasileira. Curioso é que o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, era ele mesmo filho de família de imigrantes e, logo depois de alguns anos, ele e o filho foram desmascarados como personalidades que, no Ministério da Justiça, vendiam vistos de permanência no Brasil para estrangeiros. Eles tinham um circuito mafioso de venda de vistos de permanência no Brasil. Naquela época, abriu-se um inquérito administrativo, porque não é um processo judicial, para caçar a minha condição de estrangeiro permanente, já que eu era estrangeiro que usava uma carteira chamava Modelo 19, que era o modelo de carteira de identidade dos estrangeiros com residência permanente no Brasil. Eu tinha visto permanente no Brasil, era estrangeiro residente permanente no Brasil, tinha a famosa carteira modelo azul, modelo 19. Eu já tinha solicitado duas vezes, na polícia federal, a minha naturalização e, nas duas vezes, o processo foi interrompido por uma decisão da policia federal, pelos órgãos de informação e pelo SNI. Em dezembro de 1981, já havia chegado até nós a notícia de que era possível a vinda de um inquérito de expulsão do país e, então, começou uma grande luta em todo Brasil com um slogan chamado “Javier é brasileiro”. É muito emocionante, hoje, quando eu vou a diversos Estados e encontro pessoas que são jornalistas e que, na época, eram estudantes, que me entrevista. Encontro pessoas que dizem: “olha, Javier, alí tinha uma pixação que tinha escrito ‘Javier é brasileiro’, contra a expulsão do presidente da UNE”. Em Porto Alegre, até pouco tempo atrás, alguns companheiros diziam: “No centro de Porto Alegre ainda tem um resto de pixação, se a pessoa forçar as vistas ainda vê lá meio, bastante esmaecido, uma antiga pixação: ‘Javier é brasileiro’.” Eu me lembro de uma tira que, não sei se foi o Laerte, um desenhista de história em quadrinhos, quem fez. Não, foi um cara lá da ONB. Ele fez uma tirinha que era assim: “Pode o Presidente da Volks? Pode. Pode o Presidente da Mercedes? Pode. Pode o Presidente da Gessy Lever? Pode. Pode o Presidente da UNE? Não”. Tudo quanto era dirigente de multinacional podia dar opinião sobre política econômica no país, se meter nos assuntos internos do Brasil, qualquer gerente de Mercedes Bens, alemão ou dirigente americano de qualquer empresa transnacional, vinda dos Estados Unidos, podia dar opinião sobre assuntos brasileiros, mas o Presidente da UNE, não. Então, ele fez um trocadilho, um jogo, com as siglas da GM e etc e tal com a UNE, provando que a lei dos estrangeiros era uma lei que veio para perseguir em geral sacerdotes ou líderes religiosos cristãos nos movimentos de base das diversas igrejas cristãs e destacadamente da igreja católica. Tanto é assim que, de fato, a expulsão que houve no Brasil foi de dois padres católicos do Pará. Houve a expulsão de uma estudante de economia da Federal da Bahia, Marie Hélène. Os que foram efetivamente expulsos foram os sacerdotes católicos e essa estudante de economia da UFBA suíça, chamada Marie Hélène.

Você não foi expulso, mas você sofreu algum tipo de cerceamento?
JA – Sim, houve cerceamento, na medida que eu fui notificado do inquérito. Houve uma reação interessante em todo o Brasil. Foi superbonito a mobilização, organização de advogados, sindicatos, do movimento negro, movimento feminista. Tudo quanto é forma de organização que havia naquela época se manifestou mandando carta para mim e para a UNE. A limitação que houve foi a seguinte: o inquérito obriga o estrangeiro a permanecer no lugar onde mora e se apresentar semanalmente à polícia federal. Então, nós tomamos a decisão de fazer uma grande campanha, de eu viajar, sair de Salvador. A UNE tinha a diretoria concentrada em São Paulo, nós funcionávamos basicamente na PUC de São Paulo. Ainda não tínhamos uma sede. Funcionamos nos primeiros dois anos na Fundação Getúlio Vargas, na FGV, e depois na PUC. E eu não podia sair com muita facilidade de Salvador, que era onde eu tinha residência fixa, eu morava lá. Nós tínhamos decidido que eu não sairia de Salvador a não ser em casos excepcionais. Eu fiquei de março até, se eu não me engano, setembro, outubro desse ano. Fizemos um Conselho Nacional, fizemos outras reuniões em Salvador. A diretoria ficou funcionando em contato comigo, eu morando em Salvador. Eu tinha que me apresentar semanalmente à polícia federal, assinar o livro de presença provando que eu não tinha fugido, que eu não tinha escapado. Foi um período constrangedor para mim, mas o que me magoou mais foi o constrangimento sobre os meus pais. Meus pais sofreram muito, meu pai e minha mãe, porque eles evidentemente jamais imaginavam e não estavam preparados para enfrentar uma situação como essas de ter o telefone de casa com escuta policial, clandestina. Eu tinha um fusca, meu pai tinha me dado um fusca, e eu saí de casa com o fusca, com minha mãe, a polícia federal ostensivamente colava no fundo do carro, nos perseguia, nos seguia. Havia sempre policiais federais rondando a casa da minha família no bairro do Canela, onde nós morávamos. Temos casa até hoje, um apartamento, enfim. Houve esse constrangimento e eu não pude estar presente em certas lutas do movimento estudantil, porque havia essa limitação, embora eu fosse a reuniões em Salvador e tenha participado de assembléia já com o inquérito de expulsão tramitando. Houve um ato público muito importante em Salvador, fruto dessa campanha nacional. Dessa vez, nós decidimos que eu não iria, porque era um ato na Praça do Campo Grande e a gente achou que era arriscado, eu podia ser preso e, talvez, nós não tivéssemos força para impedir que da prisão na rua, eu já fosse levado diretamente para um avião. Porque o estrangeiro, aquele que era objeto do inquérito, como não é um processo judicial, não vai a julgamento, é uma decisão administrativa. A qualquer momento o ministro da Justiça e o presidente da República podiam baixar decreto expulsando a pessoa que estava sendo objeto do inquérito. Então, a gente achou por bem tomar certas precauções, para que não acontecesse isso, porque eu poderia ser preso em uma determinada circunstância que justificasse, do ponto de vista da ditadura, o decreto e eu já sairia de uma prisão direto para o embarque e a expulsão do país.

Você pode contar como é que foi o episódio da sua entrevista à TV Itapuã de Salvador, em que você acusa os órgãos de segurança pela morte do Honestino Guimarães?
JA – O que aconteceu foi que havia um programa de entrevistas e supostas reportagens feitas por um jornalista muito polêmico, que era um jornalista que vinha do futebol, que narrava e divulgava partidas de futebol. Chamava-se Francis Teixeira e era muito conhecido porque ele inovou a linguagem do rádio e da televisão na Bahia, usando uma linguagem muito coloquial, expressões da rua, expressões interessantes, provocadoras para o futebol. Ele passou a fazer também televisão e fazia muitas entrevistas em que ele humilhava muitas vezes o entrevistado, submetia a vexame as pessoas. Ele tinha uma expressão que era assim: “Câmara nos olhos dele”. Então, a câmara vinha e fazia um close na cara do entrevistado, especialmente quando ele estava mais constrangido, ou chorando. Ele submeteu muitas pessoas em Salvador a isso, que alguns podem ainda chamar de jornalismo. Era um constrangimento. Algumas pessoas se submetiam a esse tipo de coisa. Quando as pessoas não aceitavam o convite, ele ficava desafiando, dizendo que fulano ou fulana não tinha ido ao programa, que tinha que aparecer e tal e fazia críticas. No meu caso, ele ficou durante três ou quatro programas criticando muito a UNE e criticando o Javier como o estrangeiro, o espanhol, o comunista estrangeiro e etc. Chamar alguém de estrangeiro não é xingamento e muito menos ser espanhol, ou ser argentino, angolano ou australiano. Não é demérito para ninguém ser de determinada nacionalidade. Todos somos de determinado nacionalidade à princípio, né? Nascemos em determinado país, temos a priori uma nacionalidade de nascença, embora possamos optar depois por outra nacionalidade, como foi meu caso. Eu me fiz brasileiro, eu quero ser brasileiro, sou brasileiro por uma decisão minha, não pelo fato de minha mãe ter me parido aqui no Brasil, o que teria sido uma honra. Mas eu tenho a honra de ser espanhol de nascimento e tenho a honra de ser brasileiro por opção. Então, havia esse discurso reacionário e conservador, como se ser estrangeiro fosse uma coisa a princípio sob suspeita e negativa, dita daquele jeito na televisão. Como se fez muita provocação, muita gente começou a me falar: “Era bom você dar entrevista, era bom você responder, é bom você esclarecer”. Aí, eu fui à entrevista, procurei o diretor da televisão, que é deputado federal ainda hoje, um espanhol naturalizado, porque a lei também não permite, ainda hoje, que estrangeiros sejam donos de meios de comunicação de massa, como é o caso do rádio e da televisão. Disse a ele, que era espanhol e basco, dono da televisão: “Olha, eu quero ter o direito de responder a isso no programa, com a mesma menção, com o mesmo tamanho, sem o constrangimento de “câmara do olhos dele” ou, pelo menos, sem o abuso desse tipo de expediente e sem cortes, que eu não queria que o programa fosse montado. A minha entrevista, eu não queria que fosse montada. E foi aceito e eu gravei o programa. Ele fez alguma pergunta sobre a ditadura militar, alguma coisa assim, e eu disse que nós, do movimento estudantil, não tínhamos uma postura contra os militares, nós não somos contra a existência da estrutura militar, seria uma bobagem, um infantilismo ridículo, ter um país sem forças armadas. Nós não éramos contra as forças armadas, nós éramos contra a ditadura militar e que o regime militar era responsável por (eu usei a expressão) verdadeiras barbaridades ou atrocidades contra os estudantes, entre elas o desaparecimento do ex-presidente da UNE Honestino Guimarães e de outras lideranças estudantis.
Disse e assumi isso. Muita gente pensa que foi por causa dessa entrevista que se moveu o inquérito de expulsão contra mim. Mas nós já tínhamos notícias que já estava havendo movimentação nos bastidores da ditadura, nos ministérios em prol disso, para fazer esse inquérito antes. A entrevista foi um dos argumentos arrolados pela polícia federal e pelo Ministério da Justiça para abrir o inquérito contra mim, mas foi usado também, pura e simples, o fato de eu ser o presidente da chamada, na época, proscrita UNE, União Nacional de Estudantes. Eles fizeram uma relação imensa de assembléias que eu dirigi, de atos que eu encabecei, de reuniões que eu coordenei. O fato de eu estar em vários congressos da UNE é que foi o mal, esse que foi o motivo. Entre as peças acusatórias estava a gravação da minha entrevista, mas ela não foi o móvel único, nem o móvel principal. Foi uma peça arrolada junto com outras.

Com o término do seu mandato, o que significou a eleição da Clara Araújo como presidente da UNE?
JA – Nesse ano, eu saí de Salvador para presidir o Congresso da UNE em Piracicaba. Foi uma viagem tomada de todos os cuidados. Fui recebido aqui em São Paulo por uma comissão enorme de estudantes, de personalidades democráticas. Eu me lembro que Ulisses Guimarães me ligou diretamente, estava o Comitê Brasileiro da Anistia. Meu advogado era Luiz Eduardo Greenhalgh, que todo mundo conhece, além de Ayrton Soares e de Ronildo Anobla. Eram três advogados: Ronildo Anobla, que encaminhou os trabalhos na Bahia, Ayrton Soares, que é bastante conhecido como advogado de presos políticos, de causas progressistas e também foi político em São Paulo, do PSB, e Luiz Eduardo Greenhalgh, que é deputado federal do PT, foi vice-prefeito de São Paulo, uma pessoa muito conhecida. Eles eram os três advogados. Ah, perdão, havia também o Seixas, advogado em Brasília. Os que fizeram de fato trabalho foi: de Ronildo Anobla, Sigmaringa Seixas e Luiz Eduardo Greenhalgh. Eles, ou parte deles, me receberam aqui, muitas lideranças de outros setores da sociedade. Eu fui até Piracicaba, fiquei hospedado na casa do reitor da Universidade Metodista. Na época que eu fui responder inquérito, apresentei cinco testemunhas em favor do meu comportamento como cidadão, como líder estudantil, como militante de causas progressistas, entre eles o professor Boaventura, que era o reitor da Universidade Metodista de Piracicaba, o professor Pascoalino Magnavita, que foi meu professor na Faculdade de Arquitetura, e outras tantas personalidades da Bahia e de fora de lá. Nesse congresso que eu presidi, quebrando essa limitação que a lei impunha, nós escolhemos como candidata nossa do PCdoB, de Viração por conseguinte, Clara Araújo, que era líder estudantil no curso de Ciências Sociais da UFBA. Ela já era uma liderança na universidade. Ela foi eleita a primeira mulher da UNE, o que depois se repetiu com outra. Aliás se repetiu várias vezes com companheiras que eram do PCdoB também. Foi, então, que se quebrou esse tabu. Também foi do PCdoB o primeiro presidente negro eleito da UNE, que foi Orlando Júnior, estudante de direito da Universidade Católica de Salvador. A primeira mulher eleita presidente da UNE foi uma baiana e o primeiro presidente negro eleito na UNE também um estudante baiano.

Como você avalia a trajetória do movimento estudantil desde a sua gestão até os dias de hoje?
JA – Eu acho que o movimento estudantil cresceu de poderio. Porque, na nossa época, nosso movimento era um movimento de resistência. Ele conseguiu grandes efeitos no processo de redemocratização do país, mas o movimento estudantil de hoje é muito mais espalhado, espraiado nacionalmente. Hoje, nós temos movimento estudantil em grandes universidades e em pequeninas faculdades privadas, das grandes capitais brasileiras a pequenas cidades interioranas, expressando a própria expansão do ensino superior brasileiro, que saltou de 1 milhão e 500 mil estudantes na minha época para 3 milhões e 600 agora. Portanto 2 milhões a mais de estudantes universitários. A gente tem que considerar a ação dos estudantes, não apenas aquilo que é luta nacional, não pensar que movimento estudantil é só a ação da UNE. Porque muita gente confunde: “a UNE não é mais aquela, o movimento estudantil não é mais aquele, aquela velha UNE de 1968”. Não dá para comparar épocas, é um erro, é um equívoco metodológico do ponto de vista da pesquisa científica, histórica mesmo, como é uma injustiça comparar mecanicamente épocas com épocas, movimento estudantil com movimento estudantil. Ninguém fica dizendo “Ah, o movimento operário de agora não é mais o mesmo da época de Lula em 1978, 1979 em São Bernardo em São Paulo”. São dois movimentos operários que cumpriram e cumprem funções diferentes, em épocas históricas diferentes. Então, o movimento estudantil de agora é muito mais abrangente porque trata de cultura, de arte, promove bienais, eventos artísticos localizados, promove lutas específicas com muita força, participa de grandes campanhas nacionais, foi responsável por desencadear o processo nas ruas que levou ao impeachment de Collor, por exemplo.
Foi o movimento estudantil que fez a Campanha das Diretas, depois da minha época, fez luta pela Reforma Universitária, depois da minha época, fez a luta pelo impeachment de Collor. Agora, recentemente de novo, participou ativamente da luta pela reforma universitária. Levantou e levanta lutas fundamentais. E é um movimento estudantil muito mais em rede do que na minha época, embora o da minha época tivesse mais visibilidade pelo impacto da nossa luta, pelo impacto no conjunto da sociedade e no conjunto dos movimentos. Mas, o movimento estudantil hoje é muito maior. Ele não tem a expressão concentrada que tinha antes, mas ele continua muito forte. A UNE consegue fazer grandes movimentações, vai continuar fazendo e eu confio muito no movimento estudantil. Ele é muito mais rico hoje em termos de formulação do que na minha época. Hoje, a UNE consegue fazer, por exemplo, uma revista com suas propostas para a reforma universitária, consegue fazer parte do movimento mais amplo de juventude, que na minha época não existia. Na minha época, juventude era movimento secundarista e movimento universitário e um pouco de movimento da Juventude Católica, de igreja cristã. Hoje, o movimento de meninos de rua, das meninas de rua, dos jovens presos na FEBEM, a juventude das ONGs. Há um movimento juvenil mais amplo, e o movimento estudantil universitário e secundarista pontifica nisso daí com muita força e com muita riqueza.

Como se dava a interlocução do movimento estudantil brasileiro com o movimento estudantil de outros países na sua época?
JA – Na minha época, quando a gente reconstruiu a UNE, foi um impacto mundial. Saiu como eu falei na BBC de Londre, que era uma grande referência, saiu na imprensa escrita de outros países. A UIE esteve presente nas reconstrução da UNE. Mas nós tínhamos tomado uma decisão de não filiarmos nem à UIE (União Internacional de Estudantes) e nem à OCLAE (Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes), por uma razão claramente partidária, se bem também que tinha a ver com concepção de movimento estudantil, movimento de massas propriamente dito em plano mundial. Era o seguinte: a UIE e a OCLAE eram tidas por nós e pela grande maioria do movimento estudantil como organizações dirigidas por partidos comunistas, partidos do Leste Europeu e por concepção muito ligado ao Partido Comunista Cubano. Nós achávamos que isso não era bom.
Parecia assim: um movimento estudantil oficial, dirigido por paridos comunistas. E nós achávamos, apesar de nós sermos do Partido Comunista e dirigirmos a UNE, que tínhamos que construir um movimento estudantil não-atrelado, dirigido por militância de esquerda, evidentemente, militância comunistas também é lógico. Mas não era o caso de ser uma coisa tão oficialesca como era antes, ou tão oficial. Por essa razão é que nós retardamos a entrada da UNE na UIE e na OCLAE, até que houvesse inclusive mudanças, como de fato houve. Então, a primeira diretoria da UNE, a própria comissão provisória, já participou de eventos internacionais, mas como observadora. A UNE não era filiada. Não sei em qual congresso depois, se aprovou a filiação tanto à UIE, quanto à OCLAE. Na minha época, portanto, em que eu fui diretor de Cultura da UNE e presidente, nesses quase três anos que eu fui da UNE, o que nós tínhamos era apenas um contato. Muitas organizações vieram aqui. Nós recebemos, com muito prazer e muita satisfação, companheiros da UIE, da FEU (Federação de Estudantes do Uruguai), da FUA (Federação Universitária Argentina), da FEP (Federação de Estudantes do Panamá). Recebemos companheiros de outros tantos países, da Venezuela, de El Salvador. Eu me esqueci de dizer uma coisa importante que eu fiz quando era diretor de Cultura da UNE. Eu viajei pela UNE, fui ao Equador participar de um encontro que deveria ser o início de uma articulação feita por um movimento estudantil mais combativo e crítico em relação a UIE, que era representada pela UNE no Brasil e pela FEUE do Equador (Federação dos Estudantes Universitários do Equador). Eu estive na sede da FEUE, em Quito. Quero dizer aqui que eu li e assumi tarefas de relações internacionais na UNE, ajudando o próprio partido a partir das minhas ações como articulador internacional do movimento estudantil. Foi quando pintou o inquérito de expulsão. Aí, por razões óbvias, eu não podia botar o pé fora do Brasil, porque evidentemente eu não voltaria. Então, se esgotou aí a minha experiência pessoal de circulação internacional. Mas a UNE recebia muita gente e circulou muito. Participou de um congresso pela anistia dos presos políticos brasileiros em Roma. Ruy César participou, viajou a Roma.
Houve muita movimentação. Felizmente, depois tanto a UIE como a OCLAE evoluíram para posições mais abertas para receber pessoas e lideranças que não eram propriamente vinculados a partidos comunistas ou organizações de esquerda, mais ligados às concepções defendidas pelos soviéticos e pelos companheiros cubanos. E aí a gente conseguiu montar, numa fase posterior, alguns anos depois, um movimento estudantil internacional, embora muito mais enfraquecido, evidentemente, até em função do enfraquecimento do campo socialista e etc e tal. Nós entramos na UIE e na OCLAE e, hoje, nós integramos tanto essas entidades, como a União da Juventude Socialista, que é a JS, organização dirigida pelo PCdoB que eu ajudei a formar em 1984 e que derivou diretamente de Viração, que era a grande organização do movimento estudantil universitário e também secundarista. Hoje, nós também fazemos parte da Federação Mundial Democrática da Juventude. Isso são decisões que vieram posteriormente. Na minha época, nós recebíamos mais delegações do que viajávamos. Já tínhamos contatos. Há um bom arquivo da época reconstrução da UNE com muitas cartas vindas do exterior.
Espero que esse trabalho de vocês consiga resgatar as revistas e jornais que nós recebíamos, as cartas, porque veio muito material interessante lá de fora do Brasil, do exterior, em apoio à UNE. Esse foi um período muito bonito, muito interessante, embora ainda com essas limitações tanto de concepção como de não filiação que nós tínhamos, a organismos internacionais estudantis.

Como que você avalia um projeto como esse que visa resgatar a história do movimento estudantil brasileiro?
JA – Eu fiquei feliz quando soube. É superimportante. Eu sou obcecado, porque eu vivi um pouco essa irresponsabilidade nossa com o arquivo. Os DAs são, em geral, ambientes de semi-destruição. Não há muito cuidado com registro fotográfico, guardar cartas, arquivos. Eu me lembro que, no DCE, quando eu fui presidente, nós tínhamos um cuidado tremendo em resgatar um arquivo. Entre outras coisas, nós descobrimos, por exemplo, um telegrama de Leonel Brizola, convocando o DCE da UFBA para a corrente da legalidade contra o golpe militar. É uma coisa importante, bonita, histórica, significativa.
Houve muito material posterior da época da reconstrução da UNE que tinha que ser resgatado. Eu fiquei muito contente quando soube que vocês iam fazer as gravações, que vocês iam recolher material iconográfico, cartazes, fotografias da época. É importante para construir uma historiografia de uma parcela da juventude brasileira, para construir uma historiografia do movimento juvenil, do movimento estudantil brasileiro, que é parte da luta democrática, da luta popular e da luta progressista do Brasil.
Volto a frisar e a destacar que o movimento estudantil foi e é matriz para muitos outros movimentos sociais e para a formação de grandes lideranças e de grandes militantes, ou não de tão grandes militantes, mas da militância que garante sustento a outros movimentos extra-universidade ou pósuniversidade, ou pós-ensino médio. Eu acho que o movimento estudantil merece uma atenção maior até nos meios acadêmicos como objeto de estudo. Nós temos uma boa bibliografia sobre o movimento operário, sobre o movimento camponês, talvez sobre outros movimentos nem tanto. Certamente, há muita coisa produzida sobre o movimento de mulheres, mas muita carência e muita pobreza na área dos estudos do movimento estudantil e do movimento juvenil como um todo. Eu acho que o movimento estudantil merece que nós tenhamos arquivos, que nós tenhamos bibliotecas
especializadas, que nós tenhamos centro de memória. E parabenizo a Fundação Roberto Marinho e a Rede Globo por terem aceito a proposta da UNE, por terem elaborado com a UNE esse projeto. Espero que isso tenha um impacto muito grande na sociedade brasileira através da força que tem a comunicação da televisão. É importante que isso não fique arquivado como algo apenas para ser estudado por estudiosos ou algum eventual curioso. Espero que esse material circule, seja divulgado, especialmente através da televisão. Espero que, um dia, isso seja possível, porque acho que isso vai ajudar a construir a consciência de brasilidade, a consciência de nação, a consciência de força jovem que existe dentro da nacionalidade brasileira. Acho que vai encher de orgulho todos aqueles que hoje fazendo outras tarefas políticas, cumprindo outras missões, ou exercendo o seu papel como cidadã, como cidadão, mas que aprenderam a ser assim por causa do movimento estudantil. Se não tivesse sido isso, nós não estaríamos onde estamos e não estaríamos prestando esse depoimento. Eu, como tantos outros, centenas e milhares de pessoas, de companheiros e companheiras, temos algum papel positivo na sociedade brasileira porque nós aprendemos que nessa segunda universidade, nesse segundo curso, nessa segunda escola, que foi o movimento estudantil. Pouco valeria ser arquiteto, advogado, médico, professor de filosofia, de geografia, de história, psicólogo, se nós não tivéssemos tido o segundo aprendizado que, em certo sentido, é muito mais importante do que esse primeiro.

 

 

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A entrevista foi realizada em 18 de março de 2006.

O presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (PCdoB), concede entrevista à imprensa sobre a reunião de líderes que foi adiada para o dia seguinte. Foto: Wilson Dias/ABr – 19/12/2006

JAVIER ALFAYA - Aldo, nós começamos juntos, em 1975, nossos estudos universitários, e um engajamento maior com as preocupações políticas, com a militância mais ativa, dentro da universidade. Eu na Bahia e você em Alagoas, centros de grande efervescência em crescimento, na universidade federal, parte do movimento de oposição ao regime militar, à época já um fenômeno nacional.

Hoje, passados 30 anos, você está na presidência da Câmara dos Deputados, Marcelo Barbieri é deputado em São Paulo, Fredo Eveling é líder político também em Brasília, Danilo Fortes na FUNASA, muitos são deputados. Essa geração deu uma grande contribuição para a política brasileira. Qual é a sua opinião sobre a importância que esse engajamento político teve para a formação dessa geração de lideranças?

ALDO REBELO – A luta contra a ditadura e pela redemocratização do país uniu amplas forças políticas e sociais no Brasil, e por ser uma causa tão cheia de generosidade e legitimidade, despertou na juventude um entusiasmo muito grande, principalmente entre esses jovens mais desprendidos e generosos que formavam a vanguarda, a parcela mais avançada, que chamávamos de movimento estudantil. Portanto, dentro da universidade ganhou voz a luta dos estudantes pela democracia, um apelo muito grande nas camadas médias da população. Creio ser essa a explicação mais profunda e verdadeira da formação de um grande número de líderes, não apenas de políticos hoje. Lideranças empresariais, sindicais, partidárias, de intelectuais, acadêmicas; todo o movimento estudantil dos anos 70. Houve uma geração muito importante, a dos anos 60, que em parte sacrificou-se no exílio, na clandestinidade, uma boa parte dela ligada a concepções foquistas, ao voluntarismo que julgava ser possível derrotar o regime militar pelo esforço de poucos, inclusive pela luta armada.

Congresso da UNE 1980

A geração dos anos 70 se distingue da dos anos 60, porque adotou caminhos da luta democrática, da união de amplas forças políticas e sociais, da reorganização dos centros e diretórios acadêmicos, da luta pelos direitos humanos que tinha como pano de fundo, a luta pela liberdade, por uma nova constituinte, e principalmente pela anistia. Adotou a bandeira de luta contra a ditadura como uma questão democrática e não como uma questão da revolução social. Ela pode fazer alianças mais amplas, encontrou apoio de parcelas mais amplas da sociedade, levou o regime militar ao isolamento. Culminou na campanha das diretas. Os anos 70 foram um marco histórico no avanço desse país. Muitas batalhas foram vencidas: a constituinte, a anistia e a redemocratização do Brasil.

Na década de 80, o regime ditatorial já estava em largo declínio. Era quase que um fantasma à própria ditadura. E acho que essa experiência permitiu a juventude que dela participou, exercer um papel de liderança em quaisquer atividades a que se dedicasse, política, parlamentar, institucional, partidária, acadêmica, empresarial, sindical. Todos daquele período participaram largamente de organização, de processo organizativo muito grande, porque foi quando o movimento estudantil foi reorganizado, os congressos estudantis, sejam o congresso estaduais, regionais, os congressos setoriais tipo o ECEM(Encontro Científico dos Estudantes de Medicina), CESAC, congressos de estudantes de economia, de jornalismo, de pedagogia. Havia também um debate sobre os rumos do país muito grande. Você exigia que as lideranças se preparassem, inclusive formando o seu pensamento. A maioria com base na doutrina marxista, mas fundamentada no estudo da história da antropologia, da economia, das ciências sociais em geral. Evidentemente que essa geração obteve a grande vantagem; os economistas diriam vantagem comparativa. De terem feito na universidade, múltiplos cursos de pós-graduação na vida, na prática, em todas essas esferas de atividades.

JÁ –   Eu concordo com sua observação. Acho que essa geração que entrou na universidade entre 73 a 75, com muita força a partir de 76, aprendeu a lutar, entendendo as artimanhas das articulações e a força que as frentes políticas tinham. Combinou isso com a absorção de uma cultura que influenciou bastante essa geração no movimento estudantil, que foi – vamos dizer – conseqüência da cultura. No final dos anos 60, que a cultura advinda do movimento hippie da incorporação de alguns tipos de vivência que eram frutos de movimentos comportamentais, culturais, artísticos, nossos aqui no Brasil, mas também frutos de movimentos na Europa, de outros lugares da América Latina, da renovação da arte e da música que tanto influencia no comportamento da juventude. Nossa geração também incorporou temas novos ao movimento estudantil, apareceram coisas novas. Digo isso até porque na minha vivência na Bahia, antes de se falar, por exemplo, em movimento ambientalista, tínhamos no diretório acadêmico e no ambiente da escola de arquitetura, lutas e debates sobre essa temática, foi onde começou a falar em defesa da Amazônia, através igualmente dos Comitês em Defesa da Amazônia, numa mescla correta de defesa de patrimônio natural e dos interesses nacionais e disso derivando pra outras práticas de defesa, de formas variadas de ver a economia, planejamento urbano, planejamento econômico e etc.

Você acha que podemos confirmar como sendo isso um dado positivo dessa nossa geração? Essa geração que mesclou herança recente, digamos que vinham de outros movimentos estudantis, além do nosso, junto com esse aprendizado e essa habilidade política que você destacou agora?

AR – Eu acho que do ponto de vista comportamental, a mudança é importante. Foi feita nos anos 60. Eu acho que nos anos 60, do ponto de vista do comportamento, nós realizamos nos anos 70, aquilo que nos anos 60 já estava feito. Eu acho que nos anos 70, a mudança foi essencialmente na política. Acho que o movimento dos anos 70 ele era essencialmente político. O comportamento era secundário na medida em que estava estabelecida a mudança de perspectiva, de comportamento, usada nos anos 60. Nos anos 70, o fundamental foi a mudança na orientação, no abandono pra usar uma expansão do voluntarismo pelo caminho do enfrentamento, contra o regime ditatorial, com uma tática que tinha como centro a busca do isolamento do regime ditatorial pela união de amplas forças políticas, sociais, intelectuais, baseado na redemocratização, na luta por uma constituinte e pela anistia ampla, geral e irrestrita. Eu acho que isso é que permitiu o movimento estudantil exercer o seu papel.

Ele arregimentou dentro da própria juventude e da população em geral. Você adotou esse caminho que sem   as correntes políticas, ideológicas não abandonaram a perspectiva revolucionária transformadora. Mas isso ficou no terreno da estratégia que nos anos 60 não era uma coisa clara. A tática foi firmada na política de forças amplas para isolar e derrotar o regime ditatorial. Eu acho que essa é a chave.

JA – E quanto a forma de agir e os métodos do movimento estudantil que derivavam dessas mudanças?.Quer dizer, o movimento estudantil era um movimento muito macio entre 73, 74 e 75,   muito ativo e combatente, destacadamente a partir de 76, 77 e até 78, quando houve as greves operárias do ABC.Foi o único movimento de massa significativo que havia no Brasil, que foi crescendo gradativamente. E em 79 se reconstruiu a primeira grande organização de massa que agia com mais liberdade, porque eu me lembro que a CONTAG já existia.   Mas não era uma organização que lutava destacadamente, pelo menos assim de maneira mais explícita na luta política contra a ditadura. Então, o movimento estudantil foi o grande porta voz de uma sociedade muito amordaçada e muito reprimida. E acho que nós incorporamos novos métodos de fazer movimento estudantil, saindo talvez de um “cupulismo” que provavelmente tenha marcado o movimento estudantil na segunda metade da década de 60 e no finalzinho até por força da repressão evidentemente. Você concordaria com isso?

AR – Eu acho que o “cupulismo” não era um defeito nos anos 60, era uma conseqüência, porque como você realizava um Congresso estudantil clandestino? Nos anos 70 nada era clandestino. Realizamos os encontros nacionais dos estudantes( ENE`S), um na USP e outro na PUC, outro em Belo Horizonte. Os congressos eram cúmplices. Eram nos centros decisórios do País. Essa geração não procurou …(?) Se você procura …(?) , você pode entender como “cupulismo” uma coisa que feita na clandestinidade, tem que ser organizada por poucas pessoas. Eu acho que o método era conseqüência da concepção da luta, da tática empregada.

JA – Quanto mais gente melhor, sempre que isso era possível, digamos assim.

AR- Era possível,muitas vezes foi assim, então acho que o método é sempre conseqüência da concepção, da tática que você usa; como a própria retomada do movimento sindical. Quando os operários do ABC retomaram a ofensiva nas lutas por seus direitos, deram esse destaque, ou seja, de forma aberta. Eu acho que essa é a grande diferença.

JA – Muito bem! Lá em Alagoas, você entrou na universidade em 75, conheceu Renan Calheiros, seu colega de curso. Alagoas era naquela época um centro importante do movimento estudantil, mas muito afastado dos principais centros políticos brasileiros e dos grandes centros que tinham grandes quantidades de estudantes universitários. O fato de você ser de um estado nordestino contribuiu pra se pudesse ter uma visão mais brasileira, global, acerca do papel da juventude universitária, que talvez não se pudesse ter em alguns outros centros, em função de serem, digamos, centros que absorviam o restante do Brasil, mas sem conhecer muito o restante do País. Um pouco assim; usou sua centralidade de maneira um pouco egocêntrica. Que dizer; sem enxergar o Brasil a não ser através de estereótipos.

Você foi presidente da UNE no segundo mandato, depois da reconstrução.O primeiro foi presidido por outro nordestino Rui Cezar Silva. O fato de você ter vindo desse estado periférico o ajudou a levar, para as lideranças do movimento estudantil, uma vivência mais real do Brasil, real e geral, do Brasil “brasileiro, digamos assim?

AR – Você pode falar, por hábito, do nordeste em geral, e Alagoas em particular, como periferia, mas do ponto de vista político-cultural o nordeste nunca foi periferia! O nordeste sempre foi um centro de produção intelectual e política muito importante no país! Mais da metade dos chefes de gabinete do império foram do nordeste, principalmente da Bahia e de Pernambuco. Os dois primeiros presidentes da República eram nordestinos e alagoanos. O chefe do primeiro movimento foi Deodoro, e o que depois chamou-se de consolidador da república, era outro alagoano, o Floriano Peixoto. Desse período a presença de Alagoas não era apenas intelectual. Era política, era intelectual com Guimarães Passos; era política com Deodoro, com Floriano Peixoto, com Jorge de Lima, com José Lins do Rego, que viveu em Alagoas. O Graciliano Ramos, o Monteiro foi chefe militar do Estado Novo, da Revolução de 30, também era alagoano. Então Alagoas sempre teve uma presença política muito grande. Era uma periferia econômica, mais com uma tradição política e cultural muito grande. Então essa vanguarda do movimento estudantil era uma vanguarda com algum espírito cosmopolita, ou internacionalista como alguns possam entender, e de grande preocupação nacional, todas liam jornais diários do Rio, de São Paulo, todos eles eram mestrados na literatura marxista. Havia uma leitura importante, clássica da literatura brasileira. Eu lembro que nós tínhamos as representantes mais organizadas do Jornal Movimento que era o principal jornal da resistência democrática daquele período. Então, isso dava uma visão muito ampla das coisas e uma preocupação muito grande com o rumo da política, da economia, e ao mesmo tempo nos facilitava a intervenção, a exposição das idéias e do pensamento em ambiente nacional do movimento estudantil, que projetava as lideranças estudantis em Alagoas e no nordeste. Você também como nordestino da Bahia, sabe disso, na música também a Bahia é protagonista como principal movimento estético e renovador da música popular brasileira nos anos 60 e 70, com gente que está presente, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, João Gilberto, Gal Costa, Bethânia, Capinam e tantos outros, além dos pernambucanos que também tem a sua experiência como Gilberto Freire, Ariano Suassuna, o movimento Armorial, o Rio Grande do Norte com a presença agigantada de Câmara Cascudo, as tradições do Ceará, com grande tradição literária. Foi o primeiro estado a libertar os escravos. Tem a figura do Francisco Nascimento, o dragão do mar. Fez a greve pra não transportar os escravos nos navios para Fortaleza. A literatura brasileira praticamente quase que fundada por José de Alencar. Então o nordeste tem essa contribuição e acho que isso influencia, dá a base pra que essa juventude se inspire, encontre modelos.

JA – Muito bem. Você poderia falar um pouquinho, sobre esse papel que sempre se atribui ao movimento estudantil, não só aqui no Brasil. Evidente que quem passa pela universidade leva vantagem em relação a outras parcelas da juventude, infelizmente ainda sem ingressar no ensino superior. Os de quase todos os setores da universidade, tendo participado do movimento estudantil ou não. Você acha que uma das funções, permanentes do movimento estudantil é o da formação regular de lideranças? Isso ficou revitalizado na atual geração, ou você acha que tende a diminuir de importância?

AR   - Eu não tenho muita informação pra falar da experiência atual. Sei que nos anos 70 o movimento estudantil recrutava dentro da universidade com que havia de mais avançado, dentro da universidade em todos os cursos aqueles mais generosos, mais preocupados com o país. E penso que o movimento estudantil talvez seja, ainda hoje, uma das mais importantes disciplinas da universidade.

JA – Eu sempre digo, nos debates para as gerações mais novas, que o movimento estudantil é uma espécie de escola entrelaçada com a outra escola. Você concorda com isso?

AR – Penso que o movimento estudantil permite uma experiência que universaliza o conhecimento. Você estuda medicina, engenharia, direito, arquitetura, ou pedagogia. O movimento estudantil permite a percepção na sua disciplina, na sua atividade específica do que há de universal e geral. O que você estuda é o que você pretende colocar em prática.Acho que uma ofensiva, ideológica e conservadora contra a política, terminou por afastar uma parte da juventude desse movimento estudantil que empobrece os torna mais limitados. Vão ter outra visão da vida porque não tiveram as experiências do que alguém já chamou de universidade do asfalto; universidade das ruas; universidade das assembléias. Eu era estudante de direito, mais participava do ECEM, o Encontro Científico dos Estudantes de Medicina.   Participei de encontros de estudantes de Agronomia, de Engenharia, de Pedagogia e isso evidentemente ampliou meus horizontes, minha visão como estudante e como cidadão.

JA  - Perfeito, você usou uma palavra chave: horizonte. Vamos falar um pouco então, dos horizontes fora do nosso país. Nossa geração, da reconstrução da UNE em 79, teve contato com lideranças estudantis de outros países. Você integrou a primeira delegação de brasileiros que foi se solidarizar com os palestinos, entrevistou e esteve com Arafat .Foi ao Panamá, Cuba, enfim, você teve grandes experiências. O movimento estudantil internacional também gestou grandes líderes. Sempre me vem à memória Samora Machel, que foi vice-presidente da UIE(União Internacional dos Estudantes), e outros tantos que já foram, e hoje, são ministros. Líderes especialmente dos países que lutaram contra o colonialismo, e o imperialismo. Hoje, temos uma articulação que está muito distante do que já tivemos internacionalmente. A UIE hoje é uma entidade que luta tão somente para manter sua sigla e sede. Acho que isso tem muito haver com o que você comentou agora a pouco; quer dizer, deram um “chega pra lá” na juventude, digamos assim, em plano internacional e agora estamos distante de algo que já foi organizado e pujante. Também tem a ver com a falta de apoio. Apoio de estados, apoio de governos…! Como é que você avalia essa perspectiva? Você acha que ainda há papel pra uma articulação internacional juvenil, aproveitando o nós, na frente, bandeira que se criam em escala internacional, por exemplo, a luta pela educação gratuita, pela paz, contra agressões como no Iraque, a urgente defesa ambiental, são temas que atraem as atenções da juventude? O que é que você acha sobre isso?

AR – Havia uma confusão na luta da juventude com a dos países socialistas, que era uma bandeira anti-imperialista, e o movimento estudantil destes países era muito mais uma escola de formação de quadros dirigentes, dada a natureza dos regimes e dos governos nos quais atuavam esses movimentos. Claro que não vou discutir a legitimidade desses movimentos. Quero que você entenda que havia um papel que era diferente do nosso. O nosso era muito mais um movimento de contestação ao regime existente. Aqueles eram muito mais um movimento de legitimação, que não levavam em conta a discussão  do conteúdo e do mérito desses regimes.

JA – Aldo, falemos um pouco mais de um assunto ligado aos bastidores do movimento estudantil; as articulações. Naquela época, o nosso partido, o PCdoB, e outros tantos, não tinham a possibilidade de atuar legalmente, abertamente. E nós tínhamos uma corrente que foi uma das coisas mais interessantes, vibrantes e bonitas que o movimento estudantil brasileiro produziu, que foi a VIRAÇÃO. Essa experiência de ter um núcleo que é o partido dirigente, formulador das primeiras propostas e uma grande militância, que gravitava e se organizava em torno daquelas idéias, é também uma grande experiência e nos ensinou a trabalhar com os que eram, ou não da organização e com quem nós tínhamos que conviver, discutir, ouvir, convencer. Essa experiência para mim foi enriquecedora, porque muitas vezes essas forças, algumas voluntaristas, tendiam a adotar certa atitude de desprezo mesmo, das vontades e dos meios de comportamento, dentro da própria massa, ainda que massas mais avançadas. As tendências também foram boas escolas quanto ao método de fazer política, assim como a nossa relação, de vanguarda, com a faixa majoritária, a massa estudantil?

AR – Cada corrente expressava a sua forma de organizar e de estruturar o movimento mais condicionado por uma tática que a dos anos 70 eram fundamentalmente diferente da dos anos 60, na medida em que nos anos 70 você tinha que aceitar – mesmo aqueles que tinham ressalvas – a centralidade da questão democrática. Tivemos muitas vezes, aplicação de métodos voluntários na luta democrática anti-ditadura . E quem adotou esse método, eu creio que saiu prejudicado. Não foi bem sucedido.

JA  - Quando nós organizamos o congresso da reconstrução da UNE em Salvador, em maio de 79, havíamos discutido em nossa corrente, a VIRAÇÂO, a possibilidade de algumas candidaturas, alguns nomes que seriam reforçados pra se tornarem candidatos a presidente da entidade, ou se preparassem para uma eleição posterior, já que havia eleição, e havia polêmica sobre se o congresso elegia ou deixava pra depois. A corrente a qual nós pertencíamos e pertencemos que é ligada ao PCdoB, estava dividida em duas grandes, digamos, opiniões em torno de alguns temas. Entre eles o tema da eleição do presidente, por conseguinte, da UNE. E isso correspondia a uma divisão que nós tivemos que adotar, que o partido teve que adotar, pra se proteger da repressão política. Todas as estruturas que não se tocavam, se tocavam muito pouco na clandestinidade, e que por problemas de relacionamento, acabaram tendo dificuldade em unificar uma posição. Era isso, se não me engano. Porque havia VIRAÇÂO, que era muito forte em quase todo o Brasil e havia a CAMINHANDO, que era muito forte aqui em São Paulo, com bastante força no Rio e força também no Paraná, em Londrina, me lembro que eram grandes centros de CAMINAHANDO. Nós entramos com a posição de fazer eleição da diretoria do congresso e perdemos. E entramos com a posição de elegermos e de induzir a liderança de Valdélio Santos Silva, estudante de ciências sociais da UFBA, candidato a presidente da UNE e perdemos também. O congresso da UNE votou pelas eleições diretas em outubro do mesmo ano de 79, e Rui se legitimou como uma grande liderança porque dirigiu o movimento estudantil. Foi isso mesmo que aconteceu. Quer dizer; essa disputa interna que, digamos, implicou uma divisão nossa e uma derrota nossa em relação a uma aliança que se fez com muitas outras forças políticas que não tinham força para disputar conosco e queriam se enlanguescer, se fortalecer para supostamente competir melhor nas eleições diretas. Foi isso mesmo que aconteceu?

AR – Eu acho que sim. Valdélio era uma grande liderança para dentro da tendência e o Rui tornou-se uma grande liderança para fora. Quando prevaleceu a tese da disputa na eleição direta, naturalmente isso sepultou a candidatura do Valdélio e firmou a candidatura do Rui. A eleição no congresso era eleição do Valdélio. A eleição em urna, a eleição aberta, a eleição direta, era a eleição do Rui.

JA – Você imaginava que seria candidato à presidência da UNE na primeira gestão, você imaginaria ou imaginava que ia ser candidatura a presidente da UNE, porque você foi secretário geral da UNE, na primeira diretoria. Rui presidente e você secretário geral. Não é isso mesmo? E depois eu era presidente do DCE da UFBa. Ai você se elegeu presidente da UNE e eu entrei na sua diretoria como diretor de cultura. Você imaginava isso? você pensava, “pôxa, vou voltar Alagoas, vou ficar lá mesmo”? Vou talvez ser advogado, militar no jornalismo ou você, digamos, tava ganho pra idéia, ou foi ganho pra idéia ou você estava assim, meio maravilhado, pessoalmente, com a hipótese de se tornar uma liderança nacional, tendo que sair do seu estado natal, Alagoas e vindo morar aqui em São Paulo?

AR – Não imaginei nada. Não imaginei nem uma coisa nem outra. Eu participava do movimento estudantil porque achava que ali era uma forma de participar do movimento de jornalistas também. Em 1977/78, fui delegado do congresso de jornalistas pela liberdade de imprensa que ocorreu em São Paulo; delegado pelo Sindicato dos Jornalistas de Alagoas. Eu achava que era a minha contribuição, a luta pela democracia, a luta pelos direitos da juventude e do povo. Tudo o mais era conseqüência. Eu me aplicava, me dedicava. Lembro que preparei para o congresso de Salvador, a proposta de estatuto. Eu e o companheiro Carlos Pock. Procuramos o estatuto pra tomar como base uma proposta, e o Pock trouxe o estatuto da Internacional, que você tinha muito de referência também, da Internacional Socialista. Estatuto feito pelo Carl Marx. Você deu muito como referência. Nós fizemos uma proposta de estatuto. Nós nos aplicávamos, nos dedicávamos. Eu ajudei a escrever a carta-programa da primeira chapa da eleição direta pra UNE. Eu escrevi capítulos, Oto Alonso escreveu outro capítulo e o Luis Fernandes escreveu outro capítulo.

JA – A chapa era Viração?

AR - MUTIRÃO. Tinha na abertura um verso do Fernando Brant. Então, eu não pensava o que podia ser. O que podia dar. Nós temos lá em Alagoas muitas lideranças importantes do movimento estudantil. Tinha o Egberto Dicianelli, o Renan Calheiros, Enio Lins, o Sérgio Barroso, Maurício Macedo, Taís Normandi, eram muitas lideranças, com muita capacidade! Todas elas respeitadas. O Thomas Beltrão, outro exemplo; portanto, quando meu nome foi indicado para integrar a chapa, isso era uma possibilidade porque a chapa tinha que ser composta nacionalmente, tínhamos que negociar uma composição com outras forças. Primeiro era se cabia ou não cabia um nome de Alagoas. Essa era a primeira questão. E segundo, em Alagoas havia uma disponibilidade de muitos nomes. Eram todas, lideranças muito respeitadas, muito capazes de integrar essa chapa que foi formada. Quando o meu nome foi escolhido, eu entrei na chapa e houve uma negociação em Belo Horizonte, sobre se eu deveria assumir a direção da região Nordeste ou a Secretaria Geral. Eu assumi a Secretaria Geral. Depois disso, nós tínhamos união estadual de estudantes, diretórios centrais, lideranças importantes pelo Brasil inteiro. Você mesmo, Luis Fernandes, Oto Alonso e outros e outros que poderiam encabeçar a chapa.

JA – Quais foram as correntes políticas que integraram a primeira e a segunda diretoria da UNE.

AR – A primeira diretoria da UNE, foi uma aliança da VIRAÇÃO, ligada ao PCdoB, embora a maioria dos integrantes da VIRAÇÃO que foram pra chapa, não estavam organizados no PCdoB. Me lembro que a fração do PCdoB, era menos da metade dos integrantes da VIRAÇÃO. Havia essa corrente da USP que eram remanescentes da AÇÃO POPULAR REFAZENDO. Tava presente o Barbiere, Olinca, Juca…

JA  - O MR8 integrava a chapa?

AR - O MR8 integrou a chapa com o PCB, chamada UNIDADE. Na segunda gestão é que o MR8, aliou-se ao PCdoB e formou a chapa VIRAÇÃO.

JA – Na segunda diretoria estava presente o PCdoB, o MR8, o PCR, tinha gente do PCR, tinha gente do MEP, aquele menino de lá de Santa Catarina, na 3ª diretoria.

Muito bem, então dando um salto aqui e vendo essa contribuição que Sérgio Barroso, – nosso amigo presidente da CONVERSE -, está lembrando? Muito interessante, ele falou uma coisa muito interessante.

Nós vivemos na década de 70, 80, foi algo de superação da ditadura militar, a multiplicidade de frente que adveio do fim do regime militar, porque as pessoas se espalhavam em diversas frentes, já que haviam uma espécie de desconcentração, por movimentos sindicais, movimentos sociais diversos, movimento de mulheres, enfim, todos os movimentos sociais que hoje são umas das marcas da luta de classes no país. E depois veio a nefasta década de 90, foi quando vivemos o auge da ideologia neoliberal, da prática econômica neoliberal aqui no Brasil e também das conseqüências culturais do neoliberalismo, através das artes, do cinema, do comportamento, da indução ao consumo supérfluo ou de luxo, a juventude classe   média que é muito forte na universidade, a juventude classe média ou classe média alta, digamos assim, um pouco mais rica, ficou muito influenciada por isso também. Não tinha como não ser influenciada.   Você é um dos grandes influenciadores de um movimento no País de constituição de alternativas ao modelo neoliberal em todos os seus terrenos na economia, da forma de pensar, da cultura de largo (?) senso, não apenas da arte mais da cultura em geral que vai da arte à forma de entender o que os tropicalistas baianos chamam de jeito de ser brasileiro, o jeito do Brasil, os jeitos do Brasil. Então, na década de 90, foi uma década de expressão, foi uma década de derrota, foi uma década de resistência. Portanto, você pensa isso?

AR – O começo dos anos 90 foi de regressão da supremacia, de vitórias das correntes conservadoras, de obscurantistas em prejuízo das correntes transformadoras e libertárias; e naturalmente isso se abate nos meios políticos, ideológicos, culturais, comportamentais, psicológicos…, se abate sobre a juventude. O movimento conservador empurrou a corrente da esquerda para o centro, do centro para direita. Isso aconteceu no mundo inteiro. Daí uma atitude de resistência para impedir o aniquilamento do pensamento avançado, do pensamento progressista. Acho que pelo menos hoje, nós temos uma vantagem dessa ofensiva conservadora está sob questão submetida a crítica. Ela está perto de ser derrotada, de ser desmascarada ou superada nos seus defeitos perversos, do ponto de vista democrático, social. Mais acho que pelo menos ela está sob contestação. É evidente na América do Sul pelo menos, que isso está em contestação. Basta examinar a situação do Brasil, da Argentina, Chile, Uruguai, da Venezuela, do Peru, pra chegarmos a essa conclusão.

JA – Aldo, só pra concluir; você agora é o presidente da Câmara dos Deputados, já foi presidente de comissões antes, mais tirando as comissões, você foi presidente da UNE e da Câmara dos deputados. Pré-existia alguma instituição ou organização além dessas duas?

AR – Não. Eu participei de muita coisa, fui indicado por jornalistas à diretoria do Centro Acadêmico de Direito.

JA –Mais presidência. Você presidiu a UNE e agora a Câmara.

AR -  E agora essa.

JA – Sim, claro, está esquecendo que nós pulamos na década de 80 e 90. Você e outros tantos companheiros e companheiras, fundaram aqui em São Paulo a União da Juventude Socialista, e isso já era expressão da necessidade de a gente elevar o horizonte da nossa intervenção. Não bastava apenas só nos concentrarmos contra a ditadura que viria a ser superada em 85, um ano depois, mas de questionarmos o sistema mais profundamente. Daí a necessidade de elevar a bandeira do socialismo, que era meio assim, uma bandeira quase ainda semi-clandestina, pra condição de uma bandeira aberta, desfraldada abertamente. A União da Juventude Socialista é uma grande escola e parece hoje a maior corrente organizada de movimento de estudante em todo o Brasil. Mas, eu queria não explorar isso agora, quero que você fale assim da sua condição de presidente da UNE e presidente da Câmara dos Deputados. Quando está à frente de situações complicadas na Câmara dos Deputados, você ainda lembra do movimento estudantil? Você lembra de congressos de UNE, confusões de plenário, brigas, dificuldade de administrar um plenário de 6, 7, 8 mil estudantes, e administrar um plenário de 200, 300, 350, 400 deputados, e deputados brigando por suas posições?

AR – Eu não lembro porque não há necessidade, mas evidentemente a minha posição, e as minhas atitudes como presidente da Câmara, estão todas condicionadas por minhas experiências do movimento estudantil, era muito mais largo de horizontes de pensamentos, de pendências, de debates. Não havia muitas pessoas preparadas, capazes para o exercício da discussão, de debates, polêmicas. A Câmara guarda uma certa relação com esse universo.

No movimento estudantil tínhamos estudantes de todo o Brasil; do Amazonas ao Rio Grande. Você tinha todos os estados   do movimento estudantil. Os mesmos regionalismo, as mesmas preocupações gerais, a mesma habilidade nas manobras regimentais. Então, isso nos facilita a vida e o exercício da minha função de presidente da Câmara dos Deputados.

Categoria(s): Entrevistas

SÃO PAULO, SP, BRASIL, 18-09-1992: O presidente da UNE, Luiz Lindberg Farias Filho (à esq.), durante manifestação pelo impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. (Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress - Negativo: SP 11191-1992)

JAVIER ALFAYA: – Vamos gravar aqui uma conversa com Lindberg Farias, no gabinete do amigo, companheiro e ex-presidente da UNE, em 1993, Fernando Gusmão. Então você foi em 1992, não é isso Lindberg?

LINDBERG FARIAS: É isso.

JAVIER ALFAYA: – Aliás, você me contou uma história bonita e simpática de que você tem uma formação dentro de casa, parece que de seu pai que te levou a ser simpático ao socialismo, a tudo o que tinha a ver com a Esquerda mais tradicional, o marxismo e tal. Conte um pouquinho da origem dos seus interesses pela política, com 14 anos é isso?

LINDBERG FARIAS: – Na verdade, fui criado numa casa onde meu pai tinha uma grande biblioteca, uma biblioteca na verdade fantástica para a gente. Ele trancava, quando abria era uma coisa, e até hoje a gente conserva, meu pai morreu em 1996. E tem umas histórias que vou ter que contar aqui. Meu pai tinha sido da UNE em 1959, gestão de Oliveira Guanaes. Um ano antes foi candidato a presidente da UNE e tinha uma relação simpatizante ao partidão, na época.

JAVIER ALFAYA: – Como é o nome de seu pai?

LINDBERG FARIAS: – O mesmo meu, Lindberg Farias. Teve uma situação até engraçada que um cara publicou um livro sobre documentos secretos “Arquivos Secretos” e ficou intrigadíssimo, porque nos documentos que ele buscou aparece um Lindberg Farias que responde a um IPM, porque diz que trabalhadores, estudantes e camponeses são unidos e tal. Respondia a um IPM por isso. E ele me perguntava como é que podia, já que sou mais novo. E eu disse a ele que era meu pai, ele estava absolutamente confuso.

Meu pai era médico, estudou na França, depois foi para a Paraíba, fui criado em casa com debates, defesa da União Soviética, defesa de Miguel Arraes, defesa de Brizola e defesa de Cuba. Essas são as referências mais gerais. E a história do livro, da literatura. Eu com 14 anos de idade, pelo que escrevi, eu me achava socialista, comunista, então isso é uma coisa que foi determinante na minha vida. E era isso que eu queria, a UNE pra mim aí já era uma coisa fantástica. Não só por meu pai ter participado, mas pela história da UNE que eu já sabia, o Partido Comunista. A UNE era mágica pra mim, a UNE me pegou muito pela emoção o tempo todo. Entrei no movimento estudantil e vi os filhos de políticos sendo candidatos a grêmios, aquele pessoal de colégio particular, no Colégio Maristas ..

JAVIER ALFAYA: – Também fui dos Maristas.

LINDBERG FARIAS: – E quando entrei na universidade, foi um momento de muita agitação, momento de grande ascenso da luta social neste país. E nós nos dizíamos comunistas, carne fresca, jovem, num período desses. Greve de universidade, paralisações, luta de ônibus, tudo isso tomou minha cabeça.

JAVIER ALFAYA: – Isso foi quando?

LINDBERG FARIAS: – Em 1987 eu entrei e posso dizer que é um ciclo até a eleição do Lula. Na eleição do Lula, decidi largar a medicina. Eu gostava de medicina, mas tinha um dilema com a minha militância, porque eu estudava muito de madrugada, tinha as atividades do diretório acadêmico e tudo,  e eu ficava completamente dividido. Eu me lembro daqueles livros Histórias do Marxismo, Ross Brawn, lembra? E eu ficava com os livros de medicina e os de marxismo ali na mesa. Eram várias cores diferentes e tinha um laranjinha que eu adorava, contava detalhes da história. E a campanha de Lula em 1989 foi determinante, lembro-me que ia para a Universidade, já com a bandeirinha do PCdoB, eu e muita gente. A bandeirinha ficava no canto da sala de aula, assistia aula e depois saiamos.

JAVIER ALFAYA: – É muito importante você falar com esse subjetivismo assim, para as gerações atuais que estão começando e para quem quer conhecer a história dos líderes como você também. Esse dilema criativo que acaba entre seguir a carreira que se vislumbra provavelmente como promissora, principalmente por seu pai ser médico conceituado na Paraíba, com formação fora do país e tal, na Paraíba, naquela época, não deve ser muito frequente, muito menos naquela época, por outro lado sua vontade de explodir de agir com engajamento.

Fale um pouco de como você administrava essa tensão ou não administrava ou deixava fluir.

LINDBERG FARIAS: – São muitas contradições. Meu pai sempre teve uma história de Esquerda a vida inteira, mas são muitas contradições em minha vida pessoal que me levou para o rompimento do curso de medicina. Eu queria fazer história ou filosofia, meu pai foi contrário. Dizia que era uma maluquice largar a medicina. Meu pai defendia Brizola, ele era de família de classe média, minha mãe e meus irmão também e eu era Lula. Em minha casa, casa do Nordeste, havia empregada, pessoa que trabalha em casa, e eu consegui convencer elas e elas votavam no Lula. Meu pai ficava irritadíssimo comigo, porque eu era uma verdadeira tensão em casa, garoto louco, 16, 17 anos, era uma verdadeira luta de classes em casa. Então era uma situação fantástica na vida.

Só pra falar do meu pai, aconteceu a mesma coisa quando fui entrar na UNE, eu já no movimento estudantil, vou pra um congresso da UNE em Campinas, eu já tinha ido a dois. Mas esse congresso, em 1990, depois da gestão do Langoni, o PCdoB retoma, fiz parte de uma safra de renovação do movimento. Havia uma certa saturação do sistema, depois explico isso. Havia o meu nome e o de Patrícia para presidentes, dois nomes novos, uma garotada, 20 anos, falando galera, linguagem próxima, e meu pai estava na Europa e perguntaram a ele se já sabia da novidade sobre seu filho na UNE. Meu pai quase morre. Foi conversar comigo e disse que aquela UNE que ele fez parte, não existia mais. Que a UNE dele, a história dele foi diferente. Foi pré-revolução, que eu iria prejudicar meus estudos, aquela coisa toda. Foi uma conversa de pai pra filho, e  teve como bacana foi que depois fomos morar em São Paulo, lembro-me que fui morar num apartamento todo mundo junto, mas houve um episódio da UNE, depois do impeachment, tudo começou a acontecer, e pude ver o orgulho de meu pai … (chora) … desculpe. Que coisa ridícula, mas coisa de pai é muito forte.

JAVIER ALFAYA: – Que é isso.

LINDBERG FARIAS: – Que babaquice.

JAVIER ALFAYA: – Não é babaquice de jeito nenhum

LINDBERG FARIAS: – Mas toda vez que fala em pai é forte demais. Eu tento segurar, mas não consigo.

Então quando houve aquilo foi um encontro fantástico, porque ele vibrou muito e a gente se falava todo dia. Pra ele também acho que foi um momento de muito orgulho. Nosso encontro ali fica marcado pelo encontro pai e filho. Veja que coisa, meu pai foi candidato a presidente da UNE, antes da gestão de Oliveira Guanaes. Foi da chapa que perdeu a eleição e, de certa forma, eu virei presidente da UNE.

JAVIER ALFAYA: -  Completou uma obra dele, digamos assim.

LINDBERG FARIAS: -  Mas, isso foi meio assim e depois ele achava que a UNE tinha morrido. Que é um debate de que havia na UNE: UNE não existe mais, acabou. E a UNE não havia morrido. Ele achou fantástico porque viveu aquilo também, a história pessoal. Porque no meu caso a UNE já estava um pouco em casa, vivendo a história da UNE, porque o saudosismo do meu pai era muito grande. Meu pai tinha ido à França, voltou, estava ali, foi para a Paraíba, morou aqui no Rio, viajou aos países do Leste e já nasci com aquela vivência fantástica.

JAVIER ALFAYA: – Agora antes de chegar aos três congressos que você frequentou, pelo que entendi, no terceiro você foi secretário-geral, você foi coordenador geral de medicina, no primeiro ano.

LINDBERG FARIAS: – Foi, no primeiro ano.

JAVIER ALFAYA: – Depois você me disse que candidato a presidente do DCE?

LINDBERG FARIAS: – No primeiro ano.

JAVIER ALFAYA: – Você perdeu a eleição?

LINDBERG FARIAS: – Aí o que acontece é que a gente perdeu no primeiro ano, no outro ano a gente ganhou o DCE, só tinha coordenador-geral, não tinha presidente do DCE. Em 1987, eleição do DCE; em 1988 inteiro, o DCE fica com eles; em 1989 pra 1990, nós ganhamos o DCE e levo essa bancada enorme, pusemos uma hegemonia na Paraíba grande nesse período. Mas não fui presidente, muita gente da Paraíba diz isso, diz que fui presidente da UNE e não do DCE. Eu digo é verdade, eu assumo que perdi uma disputa, porque perdi uma eleição do centro acadêmico, a chapa era “Menos blá, blá, blá. Mais Luta e Ação Buscar”. Era muita tese, eu ganhei o debate no debate. Era aquele pessoal …

JAVIER ALFAYA: – Como era aquele pessoal da Federal de Santa Maria, do Rio Grande do Sul, de onde veio Tarso Genro, não era não?

LINDBERG FARIAS: – Ganhei a eleição no debate. Aí fui candidato a presidente do DCE e perdi, rapaz. Foi uma chapa, tinha até um nome indígena, mas fizeram uma sacanagem comigo. Foi um negócio que eu não devia nem falar aqui. Na época teve um negócio na Globo, com a Lucélia Santos “Bonitinha, mas Ordinária”. Em todo canto que eu entrava eles diziam: “bonitinho, mas ordinário”. Risos. Pois é, isso me incomodava, Javier, foi o primeiro ataque moral que eu tive. E me chamavam de Lucélia Santos, isso é que era pior, um nome feminino. Eu ficava puto. Hoje levo porrada na política e digo que estou acostumado a apanhar. Já levei milhares de vaias, muita disputa. Tem que ter a arte da vaia … Ser vaiado e vaiar

JAVIER ALFAYA: – Tem que driblar a vaia, tem que ficar tranquilo, se ficar nervoso com os vaiantes, aí você está mais vaiado ainda.

Sim, quando você foi presidente do DCE levou grande delegação para a UNE e voltou para a Paraíba já com um grande feito, aí você já se preparou, já ficou com a cabeça virada para sair da Paraíba.

LINDBERG FARIAS: – Não pensei no máximo em ser vice-presidente da UNE em Pernambuco ou Paraíba. O importante para a gente era o mundo, o Socialismo, o debate presidencial, o Lula.

JAVIER ALFAYA: – Pra que os nossos leitores possam entender melhor a Universidade Federal da Paraíba era única do Brasil inteiro que de fato era multicampi. Tinha em 7 cidades. Era muito respeitada inclusive.

LINDBERG FARIAS: – Era maior terceira universidade em número de cursos, com um campus enorme em Campina Grande. Agora é uma universidade independente. Tinha Cajazeiras, Souza, Patos, Bananeira, Areias. E lembro do primeiro congresso da UNE, era uma coisa marcante,  era um grau de partidarização. A presidente era Gisélia Mendonça que foi em São José dos Campos. Eu não fui em Campinas. Fui em São José dos Campos e Brasília. O presidente era do PT, era Valmir. Chegando lá, os nossos ônibus do PCdoB e do PT a briga era tão grande que teve agressão física para ver quem ira nos ônibus tais. Foi porradaria, sangue, confusão, uma coisa terrível.

Cheguei no congresso era tudo separado, um cordão de isolamento separando o PT do PCdoB, comprei logo uma camisa cheia de foice e martelo, achava o máximo aquele negócio todo ali. Era uma polarização entre os estudantes, tanto é que tínhamos um amigo aqui do Rio, muito amigo do Romário, no congresso de São José dos Campos, chama-se Afonso Cláudio, irmão do Kiki, é produtor cultural hoje, que criou um movimento independente contra aquilo tudo.

JAVIER ALFAYA: – Havia uma rejeição às práticas muito carregadas de sectarismo com as militâncias e partidos e aparece espontaneamente uma reação de pessoas que eram também lideranças, mas não vinculadas ao partido. Esse fenômeno você acha que teve o seu auge naquele momento, porque até hoje há muita militância independentista, mas naquele momento serviu para chamar a atenção dos partidos políticos? Foi uma crítica?

LINDBERG FARIAS: – Ali foi o auge da partidarização, mas não sei se a lógica dessa repulsa foi o auge. Talvez o auge tenha sido no congresso em que fui eleito e que impôs uma mudança. Porque em São José dos Campos houve pancadaria e o PCdoB sai do congresso no final e não participa até o final. Houve o congresso de Brasília, começa a haver um distencionamento fantástico e passou à proporcionalidade na diretoria da UNE. É quando entra Langoni – presidente, Valdemar – vice-presidente. Esse é um congresso transformador da história do movimento estudantil, 1989.

Esse foi um congresso que refundou, porque houve o auge da porradaria, do distanciamento foi forçado ali, ajudado pelas condições políticas de uma aproximação do PT com o PCdoB, vamos falar a verdade, até mesmo porque você é o escritor do negócio, porque havia um clima geral que ajudava.

Esse clima geral que ajudava fez a reaproximação do PT com o PCdoB e foi ali no momento proporcionalidade. E com a proporcionalidade vamos para o outro congresso que é o nosso. A proporcionalidade foi um passo. Só que os estudantes nessa linha mais independente não queriam só isso. E aqui vou dizer da onde surgiu. surgiu um fato que viramos o congresso da UNE, porque chegamos numericamente inferiores ao PT. O PT majoritariamente superior. Aí um cara chamado Renato Rabelo chegou e disse: “Tem alguma coisa diferente nesse congresso.” E ficou olhando a cara dos caras. Ele achou um perfil muito estudantil. E ele levou uma tese que mudou o congresso e nos levou à vitória, que foi a da bancada por estado.

Ele disse esse tal de congresso dividido no meio. Aquilo teve uma reação da gente, porque havia uma cultura da geração de vocês que era aquela de corrente contra corrente. Então com a nossa reação nos dirigentes …

JAVIER ALFAYA: – Para entender melhor, você diz para organizar melhor o plenário de um congresso por estado.

LINDBERG FARIAS: – Esse era o discurso, independente do partido político. Estava todo mundo no estado, discutindo. Esse foi o nosso discurso. O PT acuou e disse: vamos. Quando foi, a base se diluiu e disse: não vamos. E fica o vai, não vai. A nossa bandeira foi democrática. Cantávamos: “Está decidido, está confirmado é a bancada por estado.” E os estudantes com a gente.

Associado a isso, nós ganhamos o congresso da UNE por dois outros motivos. Motivos completamente partidários. Tinha um grupo de muita força no movimento estudantil “Caminhando”, PRC, e esse foi um momento de uma revisão ideológica, Valmir era do PRS, Langoni também. E o PRC faz um debate, uma revisão ideológica. O PRC funcionava como um exército Leninista e os caras viram Nova Esquerda. E aí aqueles caras que unificaram o PT numa visão dali, passam por aquele momento da revisão do Genuíno, aquela turma toda.

JAVIER ALFAYA: – Você acha que teve uma influência pelas teses do comunismo?

LINBERG FARIAS: – Não, depois já. Foi a queda do muro: socialismo acabou. Então, a Nova Esquerda acabou com aquele núcleo duro deles. Estou estudando os casos.

O outro caso: o racha. Começa a convergência socialista, tinha sido expulso ou estava no processo de expulsão e a convergência socialista faz o primeiro racha e lança uma chapa com a causa operária no congresso, ao que nós facilitamos. Porque fizemos um acordo com a convergência socialista. Tinha uma cláusula de barreira no movimento estudantil, que era 10% para poder entrar na diretoria. Isso forçava a entrar lá. Lembro-me que negociei essa e baixamos para 1%. Isso permitiu eles entrarem na UNE e disseram que se vocês derem isso, a gente fecha acordo com a causa operária. Negociamos com a convergência e fechamos acordo claro, limpo. A convergência fechou com a causa e nós rachamos. Isso tudo gerou um cenário imprevisível e nós ganhamos para presidente de UNE.

Outro fator, foi o problema dos candidatos a presidente. Os candidatos a presidente naturais eram Valdemar, um cara da Bahia que teve uma crise por causa da namorada, uma loirinha chamada Virgínia, que até hoje ele se arrepende, porque abriu mão de um bocado de coisas, e Luciana e nem existe mais esse namoro. (Risos) A loirinha de Valdemar era uma gracinha. Sabe que os ônibus de congresso eram históricos, dois dias da Paraíba para o Rio e tal, tinha romance, namoro, ali atrás do ônibus, colocava um colchonete e era o matadouro, fazia rodízio, era uma coisa terrível. E hoje vejo assim, naquela época já existia AIDS. Lembro que teve um ônibus desses que as mulheres fizeram um negócio que os homens ficaram quase nus nos ônibus. E aqueles ônibus do Nordeste quando iam para o Sul eram aventuras históricas. Lembro em Florianópolis, no congresso da Viração, um cara de Cajazeiras abriu o negócio do ônibus em cima e entrou em Florianópolis nu em cima do ônibus e a Polícia parou. Descíamos para comer e voltávamos com garrafas de vinho. Eu não sei como aquela merda chegava no destino final. E essa Virgínia do Valdemar eles de fato eram agarradinhos e tal, debaixo do lençol. E isso tirou Valdemar do negócio.

E na noite da véspera da escolha do negócio chegaram para mim e disseram que o Renato Rabelo queria falar comigo, o cara do PCdoB.

JAVIER ALFAYA: – Renato Rabelo era o responsável do PCdoB por acompanhar a juventude naquela época e o movimento estudantil.

LINBERG FARIAS: – Aí eu me senti o próprio comunista, me levaram por uns caminhos para uns trailers. Aí ele está lá sentado numa mesa distante, aquela figura assim, aí ele me disse que estavam pensando em ser presidente da UNE Patrícia ou eu. Eu fiquei tão emocionado, nem sei o que falei. Saí dali tão emocionado, e tinha meu melhor amigo. Era meu amigo que jogava pólo aquático comigo, não tinha nada a ver com política, eu falei com ele e tal. Fui dormir e no outro dia ninguém me falou nada. Aí Gisela anunciou Patrícia, não me falaram nada. E eu virei secretário-geral, queriam que eu fosse tesoureiro, mas eu disse que não.

JAVIER ALFAYA: – Então você entra na UNE em 1990, secretário-geral.

Categoria(s): Entrevistas

Projeto Memória do Movimento Estudantil

Javier Alfaya

Entrevistadores: Ana Paula Goulart e Angélica Müller

Data da entrevista: 08/11/2004

Transcrição: Denise Maria Duque Estrada

Revisão: Ana Paula Goulart

O senhor pode nos dizer seu nome completo, local e data de nascimento?

JA – Meu nome completo é comprido. Meu nome é Francisco Javier Ulpiano Alfaya Rodrigues. Sou nascido em Redondela, Galícia, Espanha, em 31 de julho de 1956. Cheguei aqui no Brasil pequeno. Minha família é de imigrantes. Meu pai veio trabalhar no Brasil e chegou aqui no dia 1º de outubro de 1963.

E o nome e a profissão de seus pais?

JA – Meu pai trabalhou em fábrica, funcionário de indústria de bebidas. O nome dele era Fernando Alfaya Bula. Minha mãe foi sempre dona de casa, Maria Emma Rodrigues Guerra.

Sua família teve envolvimento anterior com a política?

JA – Sim, teve. Tenho tios que foram militantes, são ainda militantes de causas progressistas, lá na Espanha. Minha família toda é espanhola originalmente, e meu pai também foi  muito influenciado pelo ambiente político espanhol, do pós-guerra civil, do pós-Guerra,  na II Guerra Mundial, com uma formação assim muito confusa politicamente, porque possuíam uma bagagem educacional bastante conservadora. Mas há também referências familiares de militância em partidos de esquerda, do Partido Comunista Espanhol, Partido Socialista, hoje novamente no poder na Espanha. Então, na família, eu tenho referências de dois campos bem nítidos. Desde sempre houve interesse pela política.

Que influência isso teve na sua vida?

JA – A influência não foi determinante, mas foi importante. Importante porque em minha casa o que havia era uma carga, não de formação, mas de rica informação política. Meu pai e minha mãe sempre cuidaram pra que nós tivéssemos vasta  informação sobre literatura, história, especialmente história, o que acabou aguçando a curiosidade sobre o que são as coisas, como funciona a dinâmicas da sociedade e… porque um regime político é assim ou assado. Enfim, em 1964 houve o golpe militar.
Eu me lembro das tropas em Salvador, a movimentação nas ruas. Então, a política pegou pesado e quando a gente viu a intervenção militar, autoritária aquilo ficou marcado. Eu tinha oito anos de idade mais ou menos e referências de uma outra ditadura, a espanhola, de Franco, bem mais feroz do que a brasileira. Então aquilo serviu, digamos de alerta, sobre como as coisas eram e como poderiam ser, isso acabou aguçando a minha curiosidade política, que depois se desenvolveu mais tardiamente. Ainda no 5º ano primário (antigamente era assim), começou a haver pessoas, adultos, professores, principalmente, falando de ditaduras. lebravam Franco na  Espanha… a ditadura brasileira…’. E, acabei sendo marcado por duas ditaduras. Minha família veio de um país sob um ditadura fascista, barra pesadíssima, construída a partir de uma guerra civil que deixou mais de um milhão de mortos, dezenas de milhares de fuzilados e desaparecidos. E acabamos aterrisando numa realidade que também viveu, logo depois, uma ditadura com também seus milhares de perseguidos, presos e também suas centenas ou milhares de mortos e desaparecidos. Isso marcou muito essa fase de oito, nove anos, e a partir daí comecei a ficar aberto e curioso com as coisas da sociedade, com as injustiças sociais e da política.

Nessa época, onde você estudava?

JA – O principail foi o Colégio Maristas. Entrei no que era antigamente 1ª série do ginásio, que agora seria a 6ª do fundamental. Entrei nos Maristas e só saí mesmo para o vestibular. Então, toda a minha formação da segunda metade do ensino fundamental ao ensino médio foi no Colégio Marista de Salvador, que era -é ainda-  um colégio de elite, de excelente nível de formação cultural, que ajudou muito a minha politização e a minha formação política.

Porque lá, apesar da ditadura, vivia-se um clima de informação, não de militância, porque não havia militância estudantil. Era é uma típica escola particular, voltada para um segmento mais elitizado da população, embora no colégio houvesse uma forte presença de classe média mesmo, não apenas filhos das famílias mais ricas de Salvador, da Bahia. Havia uma forte presença da classe média e de filhos de intelectuais. E isso ajudou a construir um clima cultural no colégio. Lá nos Maristas, eu ouvi falar pela primeira vez de conceitos como: independência nacional, soberania nacional, socialismo – se fava em socialismo em sala de aula de história. Eu me lembro de um episódio uma solenidade de Sete de Setembro. Um professor fez um discurso falando da verdadeira independência nacional. Depois descobri que ele veio a ser um militante do meu partido. Uma pessoa destacada, chegou a ser presidente do PCdoB de São Paulo, o Olival Freire.

Tudo isso vai criando em alguém com 12, 13 anos, referências outras, que são a base para uma formação direcionada, sólida. Eu vejo nisso as bases da minha politização.

E quando você ingressou na universidade? Onde estudou?

JA – Eu tinha me interessava por arte, por cinema, por fotografia. Aprendi a fazer fotos. Eu sou fotógrafo. Arquiteto de formação, mas fotógrafo. Na escola a gente teve acesso à produção cultural. Os filmes de Glauber Rocha eram proibidos, mas a escola passava os filmes dele, meio que às escondidas.

Tinha um professor de cinema que dava uma aula excepcional, uma aula fora da aula. Era uma conversa às 6 da tarde. A gente assistiu Terra em transe, assistiu Barravento, o primeiro filme de Glauber. Isso tudo no colégio. Foi politização e foi formação cultural ao mesmo tempo. Então, quando a gente, eu e um grupo de pessoas de lá, dessa minha geração, entrou na universidade, já sabendo o que queria.

Queríamos nos aproximar, na universidade, da esquerda. No meu caso, e8u busquei o Partido Comunista, que eu não conhecia, mas sabia que existia por revistas e jornais da Espanha, que vivia seu período de democratização por lá. Tudo isso entre 1974, e 1976. Foram os anos chaves na minha decisão de me tornar militante. Então, fiz vestibular para Arquitetura, na Universidade Federal da Bahia, e já entrei participando. Entrei em 1975, quando houve a primeira greve geral estudantil universitária depois da grande repressão de 1968 , do fechamento dos DAs, dos DCEs, do AI-5, do 477, dessa coisa toda. Foi uma greve que teve grande repercussão, a nível nacional e internacional. A BBC de Londres acompanhava e noticiava a greve.

A gente ficava ligado na BBC para depois falar nas assembléias. Era uma greve contra as normas do jubilamento. Algumas dessas normas eram mais acentuadas na problemática acadêmica. Quem ficava tempo demais na universidade, por exemplo, e repetia muitas disciplinas, perdia a matrícula. Só que o jubilamento era também usado com uma forma de perseguição política. Quando a gente atacou o jubilamento, atacou porque ele representava um instrumento de perseguição política aos estudantes militantes. Nossa greve, como toda greve na época da ditadura, não era por causa apenas daquela bandeira.Tinha como intenção, como móvel explicito ou implícito a conquista de liberdade, da democracia na universidade e, por conseguinte, na sociedade brasileira como um todo. A gente brigava contra o jubilamento, mas a luta, na verdade, era contra o autoritarismo na universidade, a presença da ditadura nas normas internas, que eram discriminatórias, antidemocráticas, e também através do SNI (Serviço Nacional de Informações).

Nas universidades públicas, nas federais, existia a ASI (Assessoria de Segurança Interna) que era o escritório do SNI dentro da universidade. E ficavam lá os dedos duros, perseguindo e fiscalizando estudantes, professores, funcionários. Controlavam o que o professor dizia em sala de aula, o conteúdo da disciplina, o que o estudante fazia. Então, a gente fez a greve, que foi um sucesso tremendo. Derrubamos a grande maioria das normas do jubilamento. Foi uma greve geral, de 100% de adesão. Um negócio fantástico.

Naquela época, não conseguimos ainda fazer passeata, isso só fizemos em 1976. Mas foi a primeira grande manifestação pública de Salvador da Bahia depois da grande repressão de 1968. Porque até 1968 ainda havia passeatas. Depois disso, até 1975, foi brabo. Só aconteciam os encontros de caráter não políticos. Sobreviveu apenas os encontros nacionais de engenharia e os encontros científicos de medicina, que tinham que ser chamados científicos, para poderem passar pelo crivo da ditadura. Se dissesse “Encontro Nacional de Estudantes de Medicina”, o MEC não autorizava.

Mas, encontro científico podia. As palestras eram todas em torno de assuntos técnicos. Mas havia, além das mesas redondas no auditório, outras mesas redondas e encontros, que foram criando esse processo de reconstrução do movimento estudantil, que se acelerou a partir de 1975 até se desdobrar, em 1979, na reconstrução da UNE, em Salvador também.

Gostaria de frisar uma coisa que eu acho importante, já que nós estamos aqui falando e registrando a memória do movimento estudantil: já se falava em reconstrução desde 1972. Nessa época, eu não era ainda da universidade (já que estou falando do que eu vivi concretamente, não apenas do que eu ouvi falar), eu era secundarista, mas nós já ouvíamos falar no assunto. Depois, isso se confirmou com a minha presença na universidade, observando, lendo coisas e ouvindo pessoas que participaram. Houve um forte movimento cultural, uma coisa que a UNE agora resgata e põe em outro patamar, que é o Circuito Universitário Cultura e Arte (CUCA), as Bienais da UNE etc… Em 1972, por exemplo, na Bahia, – quase ninguém sabe disso, é importante que se diga – foi feito o cinqüentenário da Semana de Arte Moderna de 1922, para comemorar os 50 anos de Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Vila Lobos, Tarsila do Amaral e etc. e tal. Foi uma valorização da cultura e da arte brasileira e, ao mesmo tempo, da identidade nacional brasileira. Portanto um momento de nos afirmarmos como brasileiro contra a presença cultural do imperialismo americano, principalmente porque, é bom frisar, em 1971-72, na UFBA, houve a primeira aplicação da Reforma MEC-USAID. A primeira universidade brasileira que teve sua estrutura interna curricular e organizacional, do ponto de vista acadêmico, alterada para adequá-la à reforma do MECUSAID, da agencia norte-americana de difusão cultural, foi a UFBA.

O que se alterou no dia-a-dia da Universidade depois da reforma?

JA – Bom, alterou muito. Acabou-se com o curso seriado, o que trouxe grandes conseqüências acadêmicas, com a perda da unidade dos cursos – do curso de filosofia, de Arquitetura, medicina e tal. Houve uma atomização do curso e, ao mesmo tempo, uma quebra também da unidade política dos estudantes e uma quebra da unidade da convivência, não apenas política porque se quebrou muito a cultura da convivência, de se estar mais tempo na sua faculdade, no seu curso, ou na sua unidade de ensino, para conviver com a geração que entrou na faculdade e outras que já estavam e as que viriam depois.

Ao se criar o curso básico nos institutos básicos ou as matérias ou as disciplinas nucleares que você podia fazer em outros lugares, com alunos de outros cursos, em tese havia vantagem da convivência com pessoas de outros cursos. Mas isso trouxe a diluição da disciplina, porque se fugia muitas vezes de conteúdos que mais interessavam a este ou aquele outro curso. Criou-se muita insatisfação acadêmica, muita crítica acadêmica, consistente, a esse tipo de modelo.

Resumindo, trouxe como conseqüência a quebra da unidade da convivência social e da articulação política, além de outras conseqüências à qualidade de ensino, no terreno meramente acadêmico, que especialistas revelam, hoje, serem objeto de críticas muito profundas e até da retomada de uma reflexão acerca de como deve ser o modelo de matrícula, por exemplo, nas universidades públicas brasileiras: se em cima do sistema de créditos, que era o que a reforma trazia, ou se através de um outro sistema. Hoje, isso está em debate, se nós devemos retomar o curso seriado, ou não, como re-estruturar, se as disciplinas nucleares, das grandes áreas do conhecimento, devem ter conteúdo específico ou não.

Só para colocar o exemplo específico da UFBa, que foi a primeira a aplicr a reforma, a matemática básica, que serve para toda área de Exatas, já é ministrada de maneira dirigida para certos cursos, que exigem detalhamento em alguns conteúdos. Na UFBA, a Arquitetura está classificada como Ciências Exatas, diferente de outras universidades federais, em que Arquitetura está em outras áreas de conhecimento.

Então, havia demandas específicas do curso que era impossível atender, tendo esta espécie de ensino da matemática básica ou física básica para todos os cursos. Mas isso é um programa a ser debatido com mais detalhes. Voltando então à história: em 1972, 1973, 1974, 1975, houve muita resistência cultural e também a construção do primeiro CUCA e do primeiro CUC na UFBA. O CUCA renasce ou nasce agora por um projeto da UNE, mas o CUCA, enquanto sigla, existiu na Bahia entre 1973-75. Claro que não era esse projeto que está em curso, que é muito mais grandioso, com muito mais potencial, em outras circunstâncias completamente diferentes. Nós estávamos resistindo à perseguição, à ditadura, à polícia, à expulsão da universidade. Mas, na Federal da Bahia, existiu o CUCA (que era Centro Universitário de Cultura e Arte) e havia o CUC (Circuito Universitário de Cinema), que pertencia ao CUCA. É bom frisar isso porque são duas siglas hoje muito usadas com outro conteúdo, em outra conjuntura histórica. Mas a coincidência é bonita e interessante.

Como foi a tua trajetória dentro do movimento estudantil?

JA – Eu participei da greve no final de 1975 e início de 1976. Nas férias, nós ficamos matutando: Como é que a gente dá continuidade a essa exclusão com a greve contra o jubilamento? Havia duas vertentes básicas. A primeira era a participar do movimento estudantil especificamente disputando Diretório Acadêmico, a diretoria do DA e do DCE, coisa que eu acabei fazendo. E uma segunda vertente era a intervenção artística e cultural. Então, nós criamos, em A|rquitetura, um grupo de teatro que se chamou “Sonhos e Concretos”, que eu acho um barato, nome que jogava as expectativas do sonho e a completude do concreto da Arquitetura. Então, resultado da intervenção concreta, do concreto da Arquitetura e do sonho, “Sonhos e Concreto” era o grupo de estudantes de Arquitetura. E a gente pegou os livros do Boal, Teatro do Oprimido, Duzentos Jogos de Exercícios de Teatro para Ator e não Ator. Pegamos depois o livro de crônica dele, Nostra América, escolhemos uma das crônicas, que era Nossa Senhora dos Oprimidos, e fizemos três ou quatro colagens de textos.

Fizemos uma primeira montagem a partir de uma criação coletiva, depois fizemos uma colagem de textos de Brecht, Aquele que diz sim e aquele que diz não. Foram três textos, três montagens, com diversas apresentações no pátio da escola de Arquitetura, no pátio da Escola de Teatro e, uma vez, no Instituto de Arquitetos, que não foi feita porque a polícia federal chegou e disse que se a gente fizesse saia todo mundo preso. A gente acabou fazendo, a gente decidiu não fazer a apresentação por causa do IAB. A gente queria preservar o IAB que era um espaço emprestado, a gente não quis comprometer então, aquilo que não era nosso, a gente quis preservar o IAB. Mas dentro da Universidade mesmo com a polícia não querendo, a gente fazia e fizemos quantas vezes quisemos. Então, eu quero pontificar essa característica daquela época.

Havia uma boa articulação entre militância política especificamente estudantil, convencional, e havia uma convenção cultural artística de agitação política muito interessante. Na UFBA havia isso. Tínhamos também muitas Mostras de Som, como a gente chamava. Diana Pequeno, que é uma figura que circulou muito pelo mundo de São Paulo e acho que ainda mora em São Paulo, nasceu das mostras de som da Universidade. Ela fazia engenharia química. Outro músico importante na Bahia,   Carlinhos Cor das Águas, também fez Arquitetura. Durval Lélis, que é uma figura muito conhecida, hoje Asa de Águia, uma figura que circula pela Axé Music, com o Trio Elétrico aqui, por SP, Rio, uma figura já nacional, mas que tocava Bob Dylan na época. Essa turma é uma geração que veio do movimento estudantil da UFBA a partir dessa geração 1975-76.

Que correntes políticas e ideológicas estavam presentes no movimento estudantil nesse momento?

JA – Bem, com muita força na UFBA e à nível nacional, tinha o PCdoB, ao qual eu me liguei já nessa   época. O PCdoB dirigia uma corrente estudantil que foi fundamental na reconstrução do movimento estudantil: a Viração. Esse nome é definitivo e marcante na história do movimento universitário. E havia uma outra corrente que se chamava Caminhando, ligada também ao PCdoB. Porque o   PCdoB, por razões de segurança, em função de proteger-se contra perseguição da polícia, armou clandestinamente duas estruturas. Essas duas estruturas, que eram as duas do PCdoB, acabaram dirigindo duas correntes de movimento estudantil, que se articulavam e acabaram depois tendo divergências. A Caminhando tinha a sua base principal em São Paulo, e Viração era muito forte no restante do Brasil. Caminhando tinha também ramificações no Rio de Janeiro e em outros lugares.

Estas eram duas grandes correntes do PCdoB, mas havia outras tantas correntes. Uma outra corrente, na época clandestina, com muita força também se chamava AP, que era APML: Ação Popular Marxista Leninista. Chama-se, em Salvador, se eu não me engano, de Nova Ação. E havia também as correntes trotsquistas todas, como a Liberdade e Luta e outras. As correntes estudantis ganhavam nomes diversos, mas a matriz do pensamento político era trotsquista. Tinha a Quarta Internacional, como nós, ou eles mesmos, se autodenominavam. As correntes estudantis ganhavam denominações diversas em função de conteúdos políticos programados com estratégicos diferenciados. No caso da Bahia, havia Combate, havia Liberdade de Luta, havia Viração, havia Nova Ação, havia o PCB, que tinha muita força em plano nacional, a partir de São Paulo basicamente e do Rio também, e o PCB que tinha muita força na corrente histórica, já vinha de antes, de 1968, que na Bahia se chamou Sangue Novo. Esse nome foi dado a uma plataforma que concorria ao DCE, e acabou batizando a corrente política.

As correntes, que eu me lembrei assim de supetão, eram essas que havia. Havia também, é claro, correntes mais conservadoras, mas eram minoritárias. Eu me lembro que, no Congresso da reconstrução da UNE, a única direita presente era gaúcha. Eram Getulistas, se a gente podia chamá-los de direita. Mas eles se apresentavam como os mais conservadores. Eles mesmos se auto-colocavam numa posição hostil à esquerda. Então, mesmo que eles não fossem propriamente de direita, e não eram, no universo sectário que predominava no movimento estudantil, se eles não eram um de nós eram contra nós.
 

Javier, você poderia falar um pouco sobre a sua militância dentro da UFBA. Você foi candidato à coordenação do seu CA lá, não foi?

JA – Fui. Vocês chamam aqui de CA, mas nós chamamos de DA. Até houve uma grande polêmica, assim, radicalizada, no movimento estudantil, se devia ser CA, DA ou DA Livre. Até hoje essa polêmica não se encerrou, e ficou pelo formalismo do que já estava posto. Quem era CA ficou CA (Centro Acadêmico), quem era DA ficou DA (Diretório Acadêmico). No Nordeste, era Diretório Acadêmico. Então, ficou DA. Em Arquitetura, até por uma resistência cultural do pessoal de Arquitetura, o DA não se chamou DA, que era um padrão que a ditadura queria impor: Então, Arquitetura ficou como era antes: DEA (Diretório de Estudantes de Arquitetura). Era para ser Diretório Acadêmico de Arquitetura, mas a gente manteve conscientemente a sigla DEA como uma forma de resistência mesmo. Então, em 1976, eu fui candidato a diretor do DEA. Não ganhamos a eleição, perdemos para a chapa dirigida pelo PCB. Essa chapa fez um discurso muito despolitizado, advogando uma coisa que era uma das marcas do PCB na época, que era uma maneira de se contrapor a nós. O PCB defendeu o tipo de movimento estudantil que era muito mais para formação de quadros para tarefas posteriores na ocupação dos espaços permitidos ou a serem conquistados na sociedade. Nós discutíamos muito isso contra o PCB, dizendo que era uma visão etapista da revolução, uma visão errada de um processo de transformação revolucionário ou mais estrutural, mais profundo do Brasil. Era uma idéia de que tinha que se ocupar espaços na máquina pública. É interessante porque essa é uma discussão que se está posta agora. A esquerda chegou aos postos da máquina pública no país. Boa medida, porque nós ganhamos a presidência da República. Quer dizer, nós ganhamos isso e tudo que é seguinte. A esquerda dirige alguns governos de Estado, dirige muitas prefeituras, está nas Assembléias, está nas Câmaras, na

Câmara dos Deputados, nas Câmaras de Vereadores, nas Assembléias Legislativas, no Senado, nas administrações públicas, nas estatais, nas secretarias. Naquela época, havia um forte debate sobre isso.

O PCB advogava um movimento estudantil mais despolitizado, no sentido de que não era bem do movimento estudantil fazer grandes ofensivas, grandes passeatas, confrontos. O movimento estudantil, segundo eles, deveria se voltar para dentro da universidade, refazer a universidade, ocupar postos dentro da universidade, ter representações nas instâncias acadêmicas de direção da universidade: Conselho Universitário, Conselho de Pós-Graduação, Conselho Extensão, Conselho de Curadores,

colegiado, departamentos etc., para ir formando os quadros politicamente e intelectualmente para posterior ocupação de cargos nas instâncias públicas. Eles criavam uma dicotomia entre isso e a militância mais combativa, mais de liderança de massas, de movimentos para os quais nós iríamos durante a universidade ou depois da universidade, para sermos provavelmente um militante de esquerda dirigente, de sindicato, associação de moradores, movimento negro, movimento feminista, que naquela época recomeçava com força, movimentos ambientalistas, os chamados movimentos sociais. Então, como na época era tudo radicalizado no embate teórico entre os estudantes, havia uma falsa contradição (hoje, nós vemos que é uma falsa contradição, mas na época era um divisor de águas) de concepção de movimento estudantil. Então, nós perdemos a eleição no DEA para o pessoal

que defendia esse tipo de concepção, que acabou levando a uma diretoria que fechou o DEA. O Diretório de Estudantes de Arquitetura ficou – não falo simbolicamente – ficou literalmente sem funcionar um ano. Aí depois a vitória foi fácil, porque ficou provado que a tese do movimento estudantil despolitizado levava na prática a um movimento estudantil parado, a um não-movimento estudantil.

Foi o que aconteceu na Arquitetura. Então, nós ganhamos a eleição seguinte. Eu era candidato à presidente. Então eu fui presidente do Diretório de Arquitetura em 1977, gestão 1977-1978. Depois, fui eleito secretário geral do DCE, na gestão 1978-1979. Houve a reconstrução da UNE em maio de 1979 em Salvador. No final de 1979, eu disputei outra eleição e, de secretário geral, passei a ser candidato à presidência do DCE da UFBA, que era – junto com o da Federal de Minas, da Federal do Rio de Janeiro, da USP, da PUC-SP e da Federal de Pernambuco – um dos mais importantes e ativos DCEs do Brasil, naquela época.

E quais eram as principais reivindicações dos estudantes da UFBA naquele momento?

JA – Todas as plataformas de disputa DCE eram muito específicas, contradizendo essa leitura conservadora de que o movimento estudantil se dispersou, em determinados momentos, porque ele não abraçava as reivindicações universitárias propriamente ditas ou acadêmicas. Isto é falso. Eu afirmo categoricamente que isso é falso. Em nenhum ano, nenhuma plataforma estudantil de disputa de DCE deixou de ser assentada fortemente em reivindicações internas da universidade. Incrível isso. Quem afirma o contrário, simplesmente mente propositadamente, desconhece ou não faz uma análise minimamente séria a partir de leitura de documentos da época, dos jornais, das plataformas. Dizer que  o movimento estudantil era apenas um biombo para as organizações clandestinas se manifestarem, isso é falso. O movimento estudantil era movimento estudantil mesmo, para valer. Na nossa plataforma do DCE tinha desde reestruturação dos currículos de cada curso até a melhoria das condições de vida nas residências estudantis, melhoria da qualidade da alimentação nos restaurantes universitários. Era uma contradição tremenda. O restaurante universitário sempre foi um grande foco de agitação estudantil e uma grande fonte de reivindicações para a melhoria da política da assistência aos estudantes. Então, esta era uma pauta fortíssima. Havia também a luta por mais verbas para aplicar em laboratórios e bibliotecas, na compra de mais livros, de mais equipamentos, de mais instrumentos; apoio à luta de funcionários e professores, que naquela época era muito discreta, praticamente inexistente. Portanto, essa luta chamada específica era muito forte, muito acentuada, e

com ela se articulava a luta de caráter político mais geral. Na minha chapa para o DCE, nós já reivindicávamos, por exemplo, a convocação da Assembléia Constituinte, que só veio a acontecer a partir em 1987-1988. As nossas bandeiras políticas eram: anistia ampla, geral e irrestrita e revogação das leis de exceção. O slogan era esse: “Pelas liberdades democráticas e pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte”. Eram essas as grandes bandeiras políticas, de caráter anti-ditatorial, democrático, que nós defendíamos. Ao lado disso, nós levantávamos bandeiras antiimperialistas contra ingerência do modelo norte-americano e das agências de fomento à pesquisa acadêmica no meio universitário. A discussão sobre o papel da Fundação Rockfeller, da Fundação Ford é uma polêmica atual: a relação de projetos da Fundação Ford com certas pesquisas, a influência em certos conteúdos   e certas concepções de movimento social, movimento negro, movimento ambientalista, movimento de juventude, movimento feminista. Isso já era um assunto em 1974, em 1975. Já era de antes, na verdade. Mas eu falo da minha época, em 1975, 1976, 1977. Nós discutíamos o papel e a presença de fundações norte-americanas na estrutura da universidade, na estrutura acadêmica e na estrutura física.

Em Arquitetura, nós tínhamos umas salas que eram fechadas. Nós não sabíamos o que era. Havia uma marca, um cartaz, uma placa, dizendo que era um projeto ou um programa de pesquisa financiado pela Fundação Ford ou pela Fundação Rockfeller. No caso de Arquitetura, eram programas de estudos sobre recuperação de áreas degradadas ou características da favela brasileira ou da favela na Bahia. E nós achávamos que tinha muito a ver com os estudos de contra-insurgência, com a política de Segurança Nacional que os americanos desenvolviam no Brasil e no resto da América Latina. Tinha a ver, porque

os focos do protesto, da luta, não tinham a ver somente com a floresta tropical, como era o caso da experiência guerrilheira da década de 1960, que culminou com o guevarismo, com o exemplo de Che Guevara, quer dizer, com a tentativa da organização guerrilheira em mata tropical, em floresta tropical – como no caso da Bolívia e com a Guerrilha do Araguaia, depois no Brasil. Havia um interesse muito aguçado desse Centro de Inteligência sobre a viabilidade, a possibilidade de insurreição em grandes centros urbanos e em zonas de degradação social, de grande pobreza. E nós achávamos que, no caso de Arquitetura, os estudos focados nesse tipo de tema, financiados por fundações norte-americanas, tinha muito a ver com o estudo da possibilidade de insurreição ou de levantes urbanos a partir de

zonas faveladas, por exemplo. Então, havia essa polêmica entre nós e essa polêmica se estende até hoje. O problema do financiamento das pesquisas e da influência do órgão financiador, da agência financiadora nos processos, nos métodos de pesquisa, nos conteúdos a serem investigados, as “principalidades”, as coisas secundárias e nos resultados finais, evidentemente. Então, esta era uma das questões presentes na nossa plataforma. Nós discutíamos isso, estava escrito nas plataformas que disputavam o DCE. Portanto, havia um forte conteúdo antiimperialista nas plataformas. A minha era assim. Havia uma referência explícita ao imperialismo norte-americano. Nós usávamos muito a referência gráfica da águia norte-americana e do ataque ao símbolo dos Estados Unidos da América do Norte. Havia bem uma articulação entre o político mais geral, de caráter antiimperialista, com a

influência disso nos curriculuns e na estrutura acadêmica. Então, aquele que diz que o movimento estudantil não tem uma tradição de luta específica, acadêmica, universitária no sentido restrito do termo, desconhece a história do movimento estudantil. Como não havia debate entre os partidos abertamente, porque os documentos eram clandestinos, boa parte do debate teórico da esquerda brasileira era transferida para as plataformas do movimento estudantil. Como não havia também a disputa de Centrais Sindicais (porque elas eram proibidas) ou dos Sindicatos (porque eles estavam sob intervenção do Ministério do Trabalho), o movimento estudantil, ao lado das teses acadêmicas e do debate dentro das faculdades feitas com os professores, era o grande palco de confronto das teses das

organizações clandestinas, já que seus documentos não podiam se confrontar tão abertamente quanto, por exemplo, as plataformas de um DCE, que acabava virando também plataformas de uma visão de Brasil e de uma visão da luta e transformação do Brasil que cada uma das organizações clandestinas tinha.

Vamos falar um pouco, agora, do processo de reconstrução da UNE. Você participou em 1976 do I Encontro Nacional de Estudantes, onde começou o debate sobre a reconstrução?

JA – Não, eu não participei dos ENEs. Foram quatro ENEs – Encontro Nacional de Estudantes, sempre por definição política. No primeiro e segundo, nós da Viração não reconhecíamos muito. Quer dizer, os encontros aconteceram sem a nossa participação, pelo menos mais massiva e forte. Da Bahia, a   impressão que a gente tinha é que eram muito centrados numa dinâmica da USP e muito de São Paulo.  E nós tínhamos restrições a um processo que não levasse em conta a média nacional ou, pelo menos, outras realidades que não fosse a paulistana. Então, a gente desconfiava um pouco assim, de uma certa postura que a gente achava que saía da média do comportamento do estudantado brasileiro.

Achávamos que seria um movimento estudantil de minorias, meramente da vanguarda, e não de um grande contingente estudantil. Depois do 3º ENE e do 4º ENE, ao que me consta, nós do PCdoB participamos, e participamos com muita força. Mandamos gente do Brasil inteiro, delegações com centenas de pessoas. Marcamos muita presença. Eu não fui ao 3º e ao 4º ENE por uma decisão nossa. Rui era presidente de DCE e eu era secretário geral. O presidente viajava, e era possível a sua prisão no meio do caminho ou a dificuldade de voltar por obstáculos que a repressão poderia colocar. Então, eu fiquei na Bahia. Eu me lembro que a gente discutiu isso e ficou decidido: o Rui vai e Javier fica.

Então, o Rui foi para o 3º ENE e eu não fui. Então foi uma divisão de tarefas, digamos assim. Mas eu participei muito de assembléias e ajudei a escolher delegados. Acho que fui candidato, não me lembro direito, a delegado de Arquitetura, mas nós escolhíamos também suplentes, e acabei não viajando por uma decisão de movimento estudantil. Esses ENEs acabaram redundando numa proposta de criação da Comissão pró-UNE, que era formada por quatro ou cinco DCEs, destacadamente pelo DCE da Federal da Bahia, o DCE da USP, o DCE da PUC-SP, o da UFRJ e, não me recordo com muita precisão, mas acho que também o DCE da Federal de Pernambuco. Dessa comissão pró-UNE, aí sim, eu participei com muita força. Em Salvador, nós fizemos muitas atividades pela reconstrução da UNE,

Preparamos a cidade para receber o Congresso de reconstrução. Foi lindíssimo, porque não tínhamos dinheiro para pagar hotel e precisamos receber milhares de pessoas. E a cidade de Salvador hospedou milhares de pessoas. Além de nós hospedarmos pessoas nas dependências das universidades -com muita restrição, porque os diretores, para não falar dos reitores, não queriam emprestar as dependências das faculdades-, nós colocamos, se eu não me engano, mais de 2 mil, 3 mil pessoas hospedadas em apartamentos, em residências em Salvador. Nós fizemos campanha pela imprensa e as pessoas ligavam para a central oferecendo suas casas. Conseguimos hospedar milhares de pessoas em residências, em 1979. O processo de reconstrução da UNE foi muito bonito. Foi um processo acompanhado com muito interesse por parlamentares da oposição, pelo MDB da época, por sindicatos de trabalhadores rurais. Eu me lembro da presença do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de

São Felix do Araguaia, que falou em nome dos camponeses no Congresso de Reconstrução da UNE em 1979. José Serra falou como último presidente da UNE na legalidade. Ele era o presidente da UNE na época do Golpe Militar e falou em nome dos ex-presidentes. Levantamos a fotografia de Honestino Guimarães. A partir de uma foto pequenininha, 3×4, de uma carteira de identidade que conseguimos com familiares seus, nós fizemos um grande retrato de Honestino. O Congresso da Reconstrução da UNE, no ato de inauguração, tinha 11 mil pessoas. José Celso Martinez se apresentou. O Oficina ainda não existia em São Paulo, não tinha sido ainda reconstruído. Zé Celso Martinez tinha voltado de Moçambique. Ele e outro companheiro seu apresentaram filmes feitos em Moçambique, fizeram uma intervenção teatral importantíssima, de caráter bem antiimperialista, anti-norte-americano, antiestados unidense, já falando em revolução cultural. É bom frisar que nós vivíamos uma época em que nós conseguíamos, para felicidade do movimento estudantil, da esquerda brasileira, absorver lições que vinham de 1968, do movimento extra-partidário militante. A gente absorveu muito a cultura hippie, elementos e conteúdos que vinham de outras preocupações que não apenas da militância partidária, explícita, política. Então, naquela época começou a se falar muito dos direitos da mulher. Na minha

campanha para o DCE da UFBA, nós fizemos uns cartazes, que eram cópias heliográficas, feitas em escritórios que faziam cópias para Arquitetura, que a gente não tinha dinheiro para pagar off set, então a gente fez uns cartazes. Eu me lembro que havia a figura de uma mulher super bonita, que fizemos a partir daquele quadro que retrata a insurreição em Paris, a revolução francesa. Era um quadro que representava a liberdade dirigindo o povo então. Alguém repetiu a figura feminina, rasgando a vestimenta e mostrando os seios. E o slogan era: “rasgar os mitos”. Quer dizer, em 1978-1979, alguém disputava o DCE mostrando mulheres com os seios nus e apresentando isso como símbolo da libertação da mulher. Era superimportante! O movimento feminista não fazia isso. Não se usava, por exemplo, a nudez. A nudez não como nudez, reafirmando uma visão utilitarista do corpo feminino, mas

a nudez expressando justamente o contrário, como forma de libertação da mulher. A gente colocou isso na chapa do DCE. Hoje em dia, será que se faria isso, por exemplo? Eu não conheço ninguém fazendo isso. Eu acho que foi uma postura super-avançada. Naquela época, começava-se a discutir o uso da maconha: fumar ou não fumar; é legal, não é legal. Discutíamos também homossexualidade e sexualidade no sentido mais amplo do termo. Depois da anistia, em 1979, com a chegada de muitos exilados que vinham de outras experiências, principalmente das experiências da luta libertária, da luta progressista de esquerda, pós-1968 da Europa, esses elementos – como a preocupação ambientalista,

a luta pela igualdade entre homem e mulher – se incorporaram ao ideário da esquerda brasileira de uma forma muito mais ofensiva, muito mais afirmativa do que era antes, menos careta também, digamos assim. A luta pela liberdade de expressão sexual veio com essa geração que estava no exílio na Europa. Eu me lembro que, por exemplo, não havia movimento ambientalista expressivo no Brasil.

Não existia movimento de ONGs. Não havia isso. Até que, no seio das universidades e fora delas, mas com pessoas muito ligadas ao movimento estudantil, foram criados os Comitês de Defesa da Amazônia.

Deve-se destacar também a atuação de um gaúcho superimportante na história do movimento ambientalista brasileiro, que é José Lutzenberger. Ele puxou uma luta pelo fechamento de uma fábrica de celulose no Rio Guaíba e a luta em defesa da Amazônia. E, é claro, as lutas preservacionistas   também foram criando um caldo de cultura a partir muito fortemente do movimento estudantil. O que é hoje o movimento ambientalista brasileiro tem sua raiz no movimento universitário e em pessoas que, tendo saído do movimento estudantil e se interessado por fazer Arquitetura, biologia, acabaram depois da universidade se tornando a geração de ambientalistas do Brasil.

Quais foram as principais dificuldades enfrentadas pelo movimento estudantil no processo de reconstrução da UNE?

JA – A ditadura, a repressão política e tudo que isso implica. Dificuldade financeira. A gente não tinha nenhuma fonte de financiamento, nenhuma mesmo. A UNE tem hoje as carteirinhas. Polêmica ou não, monopólio ou não, a UNE tem uma fonte de renda que lhe dá um mínimo de sustentação fundamental.

Aliás, foi quando eu fui presidente da UNE que se criou a Carteirinha da UNE. A UNE não conseguia firmar convênio com ninguém porque não existia legalmente. Então de onde tirar dinheiro para o movimento estudantil? Era um problema. Havia a repressão política, e tínhamos dificuldade de conseguir por causa disso mesmo. Mas era só isso. Havia um clima de desconfiança, de medo em relação aos estudantes criado pela ditadura. Quem queria ajudar não ajudava ou não ajudava muito com medo da repressão e das conseqüências. Isso era uma dificuldade. Então, a ditadura era o grande obstáculo e, portanto, o grande móvel para atiçar um sentido à vida, que extrapolasse o mero objetivo da formatura, de entrar na carreira profissional, ganhar dinheiro, sobreviver profissionalmente e essas coisas.

Esse momento é o da chamada distensão política. Em que medida você acha que a

reconstrução da UNE pode estar relacionada com as mudanças implementadas no governo Geisel?

JA – Bom, evidentemente a reconstrução da UNE teria sido impossível em 1970, 1971, porque ali estava todo mundo correndo da polícia, da perseguição e etc. No momento da reconstrução já havia um abrandamento do regime, mas o regime – é bom lembrar – matou até 1976. Depois houve mortes em manifestações de rua, mas gente que morreu pela ação direta da repressão política foi até 1976, se não me falha a memória. Wladimir Hersog foi assassinado em 1975. Em 1979, evidentemente já estava havendo muito desgaste da ditadura, mas a ditadura só tem fim em 1985 no Colégio Eleitoral. De 1979 a 1985 são seis anos. Havia, portanto, ainda muita gente precisando responder inquérito. Eu fui punido com 15 dias de suspensão na UFBA, porque organizei uma festa pró-reconstrução da UNE na Faculdade de Arquitetura. Durante 15 dias, eu não poderia assistir aula porque fiz uma festa que tinha como meta a reconstrução da UNE. Havia isso. Alem disso, havia toda uma possível perseguição que ficaria marcada no currículo se alguém fosse punido por algo mais severo do que coisas como essas. E havia as perseguições que poderiam ser movidas no terreno judicial, policial propriamente dito. No meu caso, é um assunto que a gente vai tratar daqui a pouco. Quando eu fui presidente da UNE, sofri um inquérito de expulsão do país a partir da lei de estrangeiros, que era uma lei implantada pela ditadura.

Mas a isso foi em 1981, 1982. Ainda em 1979, de fato havia uma distensão. “Distensão” era como eles chamavam, mas a gente resolveu acelerar essa distensão. A gente queria rapidez nesse processo. Nós não usávamos nem o termo “superação”, nem “distensão”. A gente usava a expressão “derrubada ditadura”. A gente queria derrubar a ditadura. Não queira superar a ditadura, não queria que houvesse um processo de auto-regulação do regime, que se transformaria por conta própria de ditadura em democracia limitada, e foi o que de fato aconteceu. Nós queríamos a derrubada da ditadura por um movimento de massas, através de manifestação de rua, pressão. Queda do regime militar, fim da ditadura militar, era o slogan que se levantava. Havia o medo, mas era crescente a cada ano, a cada   semana, a cada dia a vontade de superar o medo. Foi, portanto, uma coisa que marcou e educou gerações inteiras de gente que passou pela universidade ou que passou pelo movimento secundarista, tendo ido para a universidade ou não. A gente sempre esquece do movimento secundarista. É bom frisar sempre o movimento secundarista, que se reconstrói nacionalmente logo depois da reconstrução da UNE. No Congresso de Reconstrução da UNE, houve uma reunião de secundaristas. Não era um encontro oficialmente anunciado, mas houve um encontro dos secundaristas que lá estavam e, logo depois, houve o processo pró-reconstrução da UBES, União Brasileira de Estudantes Secundaristas. O meu reconhecimento institucional levava a uma dificuldade tremenda de conseguir recursos materiais, a perseguição política levava ao medo, que trazia como conseqüência que outras possibilidades de apoio material não existiam, porque o que havia de extra-universidade se fechava para o movimento estudantil. Mas, bem ou mal, nós conseguimos. Com os próprios estudantes dando ajuda financeira, avançando sobre a repressão, ampliando espaços democráticos no país, se articulando com setores progressistas das igrejas, católica e não católicas.

E o movimento sindicalista?

JA – O movimento sindicalista não existia com muita força. Ele estava rompendo o antigo processo anterior, estava se reconstruindo em novos moldes. Existia com muita força, antes de 1979, as chamadas oposições sindicais, e já havia em alguns lugares do Brasil sindicatos fortes, com diretorias em transição que nos apoiavam, mas não faziam parte da vanguarda de apoio ao movimento estudantil. Porque o movimento estudantil era tido por setores do movimento sindical como irresponsável, esquerdista, juvenil, pueril, com pouca conseqüência. Mas, na verdade, o movimento estudantil era o grande aríete, a grande maçaneta que dava uma porrada mesmo, que levantava as bandeiras políticas. Era o movimento estudantil, não o movimento sindical. O lema do movimento sindical, mesmo o do ABC, era lutar pelos direitos dos trabalhadores. O “abaixo a ditadura” aparecia no meio de assembléias, mas não era a bandeira que a liderança o movimento sindical levantava. A

liderança queria lutar pelo direito dos trabalhadores, pela liberdade sindical. Quem ia adiante, quem defendia a constituinte, o fim das leis de exceção, a revogação do 477, a revogação do AI-5, a revogação da lei de Segurança Nacional, o fim da ditadura militar, isso quem fazia era o movimento estudantil.
 

No Congresso de 1979, foi aprovada pela primeira vez eleição direta para diretoria da UNE. Como foi isso?

JA – Foi uma decisão de maio de 1979, e a eleição se realizou em setembro de 1979.
O que isso representou?

JA – Houve um debate teórico sobre métodos do movimento estudantil, sobre as formas de organização etc, que se concentrou muito em torno do tema da eleição direta ou não para a diretoria. Agora, esse tema também escamoteava outras divergências. O tema era real, mas se inflava essa polêmica para permitir mais tempo para algumas forças, que certamente perderiam uma votação no Congresso, se re-agrupassem, se aglutinarem em aliança com outras correntes políticas para disputar a diretoria da UNE. Então, não era só uma concepção do movimento estudantil que estava em jogo. Tratava-se também de uma jogada política para permitir que o PCdoB não ganhasse a votação em maio, no Congresso de Reconstrução, e dar um tempo para que outras correntes se aglutinassem para disputar

em melhores condições. Não adiantou a manobra, porque a gente ganharia no Congresso se houvesse votação de delegados e nós ganhamos a eleição em setembro através do voto direto. Argumentava-se que a votação direta daria mais legitimidade a UNE. Nós não concordávamos e acho que nós estávamos certos. O auge da UNE foi a sua reconstrução, foi o momento ápice daquela época. As notícias sobre a eleição direta e a posse da diretoria foram secundárias se comparadas ao espaço e as manchetes que todas as grandes revistas nacionais – Veja e Isto É – estavam se preparando para dar na época da Reconstrução da UNE. De fato, a Isto É deu capa à reconstrução da UNE, mas deu porque era reconstrução. A eleição da diretoria, em setembro, já foi notícia secundária, porque a grande notícia foi a reconstrução. Então, o bom teria sido que na reconstrução já tivesse saído uma diretoria

com tarefas e lutas para serem encaminhadas. Nós tivemos ainda que segurar certas lutas, não tivemos uma diretoria plena, porque a diretoria provisória que foi eleita teve como grande tarefa a organização da eleição direta em setembro e outubro daquele ano.

Quem fazia parte da diretoria provisória?

JA – A diretoria era encabeçada por Rui César Costa Silva, estudante de jornalismo, de Comunicação da UFBA que, depois, foi nosso candidato e eleito presidente da UNE. Os outros eram Marcelo Barbiere (que é deputado federal hoje, por SP), Luis Falcão (que foi vice-presidente da UNE quando eu fui presidente), um companheiro chamado Pimenta (da Federal de Juiz de Fora). Havia, se eu não me engano, duas mulheres na diretoria: a Secretária de Relações Internacionais e a vice-presidente do Nordeste, que era da Universidade Federal de Pernambuco. Aldo Rebelo foi o secretário geral da UNE nessa priemira diretoria eleita em setembro, mas ele já fazia parte da diretoria provisória. Não me

lembro de todos os nomes.

O que significou, enfim, a eleição do Rui César?

JA – Bom, com Alessandro Rui César culminou o processo de reconstrução, finalmente tivemos uma diretoria que podia circular em nome do movimento estudantil brasileiro, não uma diretoria provisória, não uma comissão provisória, não uma meia diretoria, era uma diretoria eleita, votada pelos estudantes. Rui foi eleito inquestionavelmente presidente da UNE, assim como os outros diretores. É bom a gente não falar só nos presidentes ou nas presidentes para não ficar uma coisa muito centrada só na figura do presidente ou da presidente. A eleição da diretoria foi inquestionável: quem perdeu, perdeu, quem ganhou, ganhou. Quem perdeu reclamava, protestava, contestava muitas vezes a representatividade, porque o numero de votantes foi, se eu não me engano, 380 mil e, na época, nós tínhamos cerca de 1 milhão e 500 mil universitários. De qualquer maneira, é uma coisa extraordinária, porque nenhuma organização nacional tinha ou tem eleição direta. Se eu não me engano, quem tem

eleição direta hoje, são os arquitetos de formação.

O meu Conselho(Arquitetura) tem eleição direta, mas não é uma coisa massiva. A eleição direta para a UNE foi e é, ainda hoje, a maior eleição direta que já se fez para uma organização representativa de um segmento importante da sociedade brasileira. A eleição da OAB era, e é, realizada em congresso. Não é eleição direta. Aliás, eu retifico no CC da OAB é. Sei que as seccionais da OAB são eleitas por voto direto, e acho que se escolhem integrantes nessa eleição direta para os membros da OAB que escolhem uma diretoria em colegiado. Nós não, nós votávamos diretamente para a diretoria da UNE. Ninguém fazia, ninguém fez isso. Nem a CUT faz isso.

A CUT ainda hoje elege sua diretoria em congresso. A CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura) elege em congresso. Outras organizações do mesmo gênero, representativas de movimentos sociais, ou de segmentos sociais desse tipo, massivos, também elegem suas diretorias em congresso. Então, a nossa tese foi derrotada e uma parte do PCdoB, que era da Caminhando, votou na tese da eleição direta em setembro. O PCdoB então se dividiu. Viração votou a favor da eleição na hora, em maio, no Congresso, e Caminhando votou pela eleição direta. Se eu não me engano, houve duas ou três eleições diretas, não recordo direito. Mas depois se voltou ao método da eleição em congresso, que era o que havia anteriormente, e é o que se faz hoje, que é o mais correto.

Como foi a eleição, no ano seguinte, em 1980, do Aldo Rebelo?

JA – Rui César era a grande personalidade da UNE. Rui viajou para fora do país em nome da UNE, participou de Congresso de UIE (União Internacional dos Estudantes), participou de reunião de OCLAE (Organização Continental Latino Americana de Estudantes). Recebemos delegações de fora. Rui foi capa da Isto é, objeto de mútuo interesse para a imprensa, deu entrevistas na televisão. Na época, as entrevistas tinham uma enorme repercussão, porque as entrevistas com certas personalidades eram certa ousadia do jornalismo brasileiro. Corria-se o risco da censura, do fechamento do jornal, punição

ao programa de televisão, e Rui deu muita entrevista. Rui era a grande figura do movimento estudantil nacional, e havia muitas grandes figuras nos Estados. Sempre quero frisar isso, que não era só o presidente, havia muitas lideranças importantes regionalmente e essas pessoas davam muita entrevista também. Havia uma pessoa que ganhou uma tarefa nossa de circular nacionalmente reconstruindo DCEs, fazendo palestras, ajudando a reconstruir Diretórios, ou construindo novos Diretórios. Essa figura se chamava Aldo Rebelo, que foi o secretário geral da primeira diretoria, fruto da eleição direta da UNE. Então, Aldo se gestou como liderança à partir de um trabalho mais de bastidores, e de grande orador que ele era. Continua sendo um grande orador. Nós não tivemos dúvida de que, depois de Rui César, Aldo deveria ser nosso candidato à presidência. Isso foi resultado de uma discussão que certamente teve a participação dos dirigentes, por um processo interno do Partido, mas

que chegou ao nível da corrente estudantil, porque essas decisões tinham que passar pelas grandes assembléias que nós tínhamos. Nós fazíamos reunião de Viração na Bahia, tivemos reuniões nacionais de Viração na Bahia e no Rio de Janeiro com quase 2 mil pessoas. Nós éramos uma corrente de opinião, como havia outras correntes de opinião também do mesmo porte, com 600, 800 pessoas.

Então, eram grandes assembléias públicas, legais, não eram escondidas, não era um processo clandestino, dos partidos que ainda eram clandestinos. Nós aprovamos, em plenária de Viração, o nome de Aldo Rebelo, que foi levado a uma segunda disputa pela chapa Viração. Acho que a segunda plataforma era Viração. A primeira plataforma nossa para UNE, se não me engano, chamou Novo Tempo.

Não teve uma chapa Mutirão?

JA – É, não me recordo agora, se a primeira foi Mutirão… Foi Mutirão, depois foi Nossa Voz e, se não me engano, a última foi Viração. Sei que Aldo foi da segunda diretoria eleita. Ele foi eleito presidente da UNE. Eu era o diretor de Cultura da UNE na chapa que Aldo era presidente.
Como foi a indicação do seu nome para a diretoria da UNE?

JA – Bom, eu esgotava meu mandato de presidente de DCE. Eu era a maior liderança do DCE da UFBA. A UFBA era certamente um dos quatro principais centros do movimento estudantil brasileiro. Eu era assim uma figura muito importante, era praticamente a grande liderança, a grande personalidade pública, digamos, da minha corrente política em Salvador. Na Bahia, não havia outra pessoa mais ou menos com a mesma projeção que eu, e acabei sendo escolhido para ser da diretoria da UNE. Eu já tinha muita afinidade com a área de cultura, já tinha feito teatro, já tinha organizado coisas como as mostras de som, as festas em Arquitetura e tal. Aí, eu fui para a diretoria de cultura da UNE. Eu pedi, eu queria isso. Marquei minha vida até hoje como parlamentar – como vereador, que eu fui quatro   vezes em Salvador, e como deputado estadual – com interesse pela arte e pela cultura, entre outros temas. E a raiz disso está lá no movimento estudantil. Então, eu fui diretor de cultura da UNE, e a diretoria de cultura, junto com Aldo, lançou a revista Movimento, que hoje é a revista da UNE. Aliás, é preciso retificar a numeração da revista da UNE porque ela não leva em conta esse número especial que houve, que foi uma retomada dos números anteriores ao golpe de 1964. A UNE publicava a revista Movimento, que era uma revista superimportante. Na gestão de Aldo Rebelo na presidência e com a minha presença na diretoria de cultura, nós relançamos a revista da UNE no congresso em Cabo Frio,

que acabou me elegendo presidente da UNE.

Como era a atuação cultural da UNE, nessa época?

JA – Da UNE propriamente dita, zero praticamente. O que a UNE fazia era estimular iniciativas que eram muito mais dos DAs e dos DCEs. A UNE emprestava seu nome, mais aqui no sudeste do país: São Paulo e Rio. Junto com os DCEs, organizava mostras de som, festivais de música, mostra de música, apresentações, teatro etc. Era uma ação sistemática, mas não era uma política que emanava com muita autonomia pela UNE. Era muito mais a UNE ajudando iniciativas de baixo do que propriamente uma política da UNE. A revista da UNE foi uma tentativa de provocar isso e eu organizei diretamente, posso dizer isso sem cair no personalismo. Houve uma tentativa – que é preciso também registrar na história – de dois encontros para debater política cultural do movimento estudantil. Eu organizei os

dois, um deles foi em São Paulo, no Teatro do Centro Acadêmico 11 de Agosto, que é o CA da São Francisco, da Escola de Direito da USP. Tenho fotos do encontro. Isso foi em 1980, eu era diretor de cultura. Depois, fizemos o segundo encontro de cultura da UNE, em Curitiba.

Qual era a importância do tema cultura na mobilização política dos estudantes?

JA – Eu acho que ela foi importante naquele período que eu falei, 1973-79. Depois, teve a reconstrução da UNE. Com a reconstrução da UNE, entrou em cena a participação política mais direta, sem se usar a cultura como instrumento para se fazer agitação política. Começou a haver uma decadência, uma queda do interesse pela intervenção estritamente cultural do movimento estudantil. O que foi uma   pena, mas se justificou, dá para se entender bem o porquê. Não houve a competência, o cuidado de cuidar, de preservar essas frentes de atuação, como nós não tivemos o cuidado de desenvolver atividades esportivas nas OEs. A gente só fazia mobilização, greve, agitação política, luta por melhoria

das condições de ensino, qualidade da universidade etc e tal. Não ficava na mão dos principais segmentos de esquerda do movimento estudantil, por exemplo, a organização das ligas esportivas, dos campeonatos e nem da atividade artística ou cultural. Claro que isso não é algo absoluto. Havia coisas importantes, mas acho que tenha sido uma coisa muito significativa. Não se chegou nunca ao zero e isso também variou muito de universidade para universidade. Sempre houve mostra de cinema.

Eu me lembro que, na minha época de DCE, e mesmo depois que eu saí do DCE, quando eu estava na UNE, o pessoal continuou fazendo na Federal da Bahia o CUC (Circuito Universitário de Cinema) e, logo depois, até com professores de cinema da universidade. Manteve-se esse mínimo de atividade de mostra cultural, seja de cinema, seja de montagem de peças de teatro, de textos ou de intervenções   teatrais. Mas isso não me pareceu uma coisa significativa, embora sempre tenha havido um DA e um DCE que tenha feito um caderno de poesia, que tenha feito uma mostra de fotografia. Isso sempre existiu, mas não chegava a constituir uma intervenção poderosa na área cultural e artística.

Você já mencionou o Congresso Cabo Frio, que foi o 33º, que o elegeu presidente da UNE. Como que foi esse Congresso? Quais eram as correntes em disputa? Como foi a composição da diretoria? Quais foram as principais resoluções do Congresso? E por que, nesse ano, as eleições voltam a ser indiretas?

JA – Já é uma coisa curiosa um congresso em Cabo Frio. Não sei se tem universidade hoje em Cabo Frio, mas na época, certamente não tinha. E Cabo Frio era e é conhecido pelos balneários, pela praia, pelo sol, muito mais pelo não compromisso com coisas pesadas, com a militância política, muito mais com o hedonismo, com o prazer do que outra coisa. A gente resolveu fazer um congresso em algum lugar que desse um mínimo de infra-estrutura. No Rio de Janeiro, tinha o governo de Chagas Freitas, que era do PMDB. Embora o chaguismo fosse ligado também à ditadura, mas – para todos os efeitos – era uma legenda oposicionista que dirigia o Rio de Janeiro. Então, nós fomos atrás de um espaço mínimo de representatividade do movimento estudantil e onde houvesse uma presença democrática na   cidade ou no Estado que nos permitisse uma retaguarda material e política, para ninguém ser preso, e nos permitisse a realização do Congresso. Que Estado era esse? O Estado do Rio de janeiro. Um movimento estudantil forte, na UFRJ, na PUC do Rio, na outra universidade que é de uma igreja também cristã que eu esqueci o nome. Enfim, havia pelo menos quatro, além da UFRJ, universidades com forte movimento estudantil no Rio de Janeiro e com isso estava criada a base. Além do Rio de Janeiro ter sido, e ainda é hoje, um grande centro cultural e de grande participação democrática. A gente foi pedir apoio ao governador Chagas Freitas. E conseguimos. Só que por uma série de circunstâncias – eu acho que o chaguismo não quis dar uma mostra de confronto com a ditadura militar –, não dava para fazer no Rio. Aí nós acabamos fazendo em Cabo Frio, no estádio de futebol de Cabo Frio. E fomos hospedados em péssimas condições pelos colégios de Cabo Frio e no próprio estádio de futebol. Mas lá se fez um bom congresso, um congresso bastante representativo, onde eu fui também eleito presidente da UNE.
E como foi a sua eleição?

JA – O congresso foi superinteressante. Foi feito num estádio de futebol. A arquibancada era linear e não curva, como é em geral nos ginásios de esporte, que são os ambiente que nós mais usamos. Nós fizemos num estádio de futebol. Todo mundo ficava em linha reta e a mesa no campo, no gramado, o alambrado separando para evitar invasão, protestos. Eu acho muito engraçado porque a gente ficava no gramado, aí as pessoas se inscreviam, vinha até o gramado, falavam, voltavam para a arquibancada e tal. Se eu não me engano, na eleição, quatro chapas disputaram, mas nesse congresso foi criado um novo método de eleição que era a eleição em congresso e a eleição proporcional. As chapas concorreram, se contou o número de votos e aquelas que quiseram se articular, se articularam e compuseram a diretoria da UNE. Foi interessante porque a nossa chapa, encabeçada pelo PCdoB,

cujo presidente era eu, se confrontou com outras três, sendo que a segunda mais votada era a mesma chapa nossa, só invertendo a cabeça. Quer dizer, ao invés de Javier ser o presidente, o presidente era Luís Falcão, que era Lula de Pernambuco, e eu era vice. Era uma chapa contra a outra. Nós escrevemos nossa chapa, depois eles escreveram a deles, que era a mesma invertendo a cabeça. Havia os slogans muito engraçados porque quando a gente queria ou algum adversário queria ridicularizar a chapa, gritava assim: “fulano e fulano é muito forte [fisicamente], coloca ele no esporte”. Para sacanear alguém, para rebaixar a função, o cara não podia ser candidato à presidente, dizia-se então “coloca o

cara no esporte e tal”. Havia uma coisa de bom humor sempre, nas palavras de ordem, nas gozações.

A gente gritou que Lula era muito forte e que era para botar ele no esporte. E o pessoal revidava: “Javier é muito forte, bota ele no esporte”. Então, houve a votação, duas chapas quiseram se compor, que foi a nossa com a outra que era a mesma nossa apenas com a inversão dos cargos. Como nós ganhamos, o presidente eleito era eu e o vice, se assim eles quisessem, seria Lula Falcão. E ele aceitou, o MR-8 aceitou. Então, nós formamos uma diretoria que era formada pelo PCdoB, MR 8, pessoas não ligadas à militância partidária, gente do PCB e alguns setores que eram ligados à AP. Foi uma diretoria eclética, que já expressava, de certa maneira, o processo de reorganização das correntes   da esquerda brasileira, a transmutação de algumas delas para outras forças e com outros conteúdos

um, dois, três anos depois. Para formar a diretoria, se usou o método da eleição no congresso e da composição proporcional ao voto que cada uma das chapas tinha.

O você destacaria da sua gestão como presidente da UNE?

JA – Olha, a minha diretoria foi muito atuante. Havia membros muito atuantes em suas respectivas regiões, estados. Eu me lembro, por exemplo, que a diretoria da qual eu fui presidente fez um seminário sobre a reforma universitária no Rio de Janeiro. Isso prova que o nosso interesse pelo tema é antigo. O título era Reforma Universitária, assunto que está em pauta hoje, provocado pelo MEC.
 

Como era a relação da UNE com o MEC?

JA – Era uma relação formal. Nós entregávamos documentos, protocolávamos, mas o Ministério não nos recebia. Eventualmente, em determinadas circunstâncias, alguém da SESUP, a Secretaria de Ensino Superior, ia até uma greve ou negociava com a UNE informalmente, mas ministro da ditadura nunca recebeu a UNE. Eu fui diretor de cultura e presidente da UNE e nunca fui recebido por nenhum titular do Ministério da Educação.

E com relação à política nacional em geral, como era a atuação da UNE?

JA – Houve o Seminário da Reforma Universitária. Houve uma grande luta nas universidades federais contra a portaria do general Figueiredo, que era o presidente da República, o ditador na época, que revogou a portaria que unificava uma política de restaurantes universitários. Então, nós víamos na revogação da portaria do restaurante universitário uma tentativa de implantar cobrança da alimentação dos restaurantes, que eram gratuitos, ou ampliar a cobrança onde já era cobrado. Em alguns casos, havia cobrança. Houve uma grande movimentação e essa grande movimentação levou a um debate se devia haver uma greve nacional geral das federais contra a implantação do ensino pago. Nós víamos na revogação da portaria uma ameaça visando a implantação do ensino pago nas universidades. Houve, portanto, uma grande movimentação. Não houve a tal greve geral, mas houve muita greve que a gente dirigiu em todo Brasil, grandes movimentações. Foi um luta nacional que ganhou proeminência, projeção, saiu muito na imprensa, teve grandes assembléias. Essa foi uma marca da diretoria que eu presidi. Mas a marca maior eu acho que foi a defesa da própria UNE, através da defesa do presidente da UNE contra a expulsão do Brasil. O pretexto da ditadura era o fato de eu ter nascido fora do Brasil e a lei proibir a participação de estrangeiros na vida política brasileira. Curioso é que o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, era ele mesmo filho de família de imigrantes e, logo depois de alguns anos, ele e o filho foram desmascarados como personalidades que, no Ministério da Justiça, vendiam vistos de permanência no Brasil para estrangeiros. Eles tinham um circuito mafioso de venda de vistos de permanência no Brasil. Naquela época, abriu-se um inquérito administrativo, porque não é um processo judicial, para caçar a minha condição de estrangeiro permanente, já que eu era estrangeiro que usava uma carteira chamava Modelo 19, que era o modelo de carteira de identidade dos estrangeiros com residência permanente no Brasil. Eu tinha visto permanente no Brasil, era estrangeiro

residente permanente no Brasil, tinha a famosa carteira modelo azul, modelo 19. Eu já tinha solicitado duas vezes, na polícia federal, a minha naturalização e, nas duas vezes, o processo foi interrompido por uma decisão da policia federal, pelos órgãos de informação e pelo SNI. Em dezembro de 1981, já havia chegado até nós a notícia de que era possível a vinda de um inquérito de expulsão do país e, então, começou uma grande luta em todo Brasil com um slogan chamado “Javier é brasileiro”. É muito emocionante, hoje, quando eu vou a diversos Estados e encontro pessoas que são jornalistas e que, na época, eram estudantes, que me entrevista. Encontro pessoas que dizem: “olha, Javier, alí tinha uma

pixação que tinha escrito ‘Javier é brasileiro’, contra a expulsão do presidente da UNE”. Em Porto Alegre, até pouco tempo atrás, alguns companheiros diziam: “No centro de Porto Alegre ainda tem um resto de pixação, se a pessoa forçar as vistas ainda vê lá meio, bastante esmaecido, uma antiga pixação: ‘Javier é brasileiro’.” Eu me lembro de uma tira que, não sei se foi o Laerte, um desenhista de história em quadrinhos, quem fez. Não, foi um cara lá da ONB. Ele fez uma tirinha que era assim: “Pode o Presidente da Volks? Pode. Pode o Presidente da Mercedes? Pode. Pode o Presidente da Gessy Lever? Pode. Pode o Presidente da UNE? Não”. Tudo quanto era dirigente de multinacional podia dar opinião sobre política econômica no país, se meter nos assuntos internos do Brasil, qualquer gerente de Mercedes Bens, alemão ou dirigente americano de qualquer empresa transnacional, vinda dos Estados Unidos, podia dar opinião sobre assuntos brasileiros, mas o Presidente da UNE, não. Então, ele fez um trocadilho, um jogo, com as siglas da GM e etc e tal com a UNE, provando que a lei dos estrangeiros era uma lei que veio para perseguir em geral sacerdotes ou líderes religiosos cristãos nos movimentos de base das diversas igrejas cristãs e destacadamente da igreja católica. Tanto é assim que, de fato, a expulsão que houve no Brasil foi de dois padres católicos do Pará. Houve a expulsão de uma estudante de economia da Federal da Bahia, Marie Hélène. Os que foram efetivamente expulsos foram os sacerdotes católicos e essa estudante de economia da UFBA suíça, chamada Marie Hélène.

Você não foi expulso, mas você sofreu algum tipo de cerceamento?

JA – Sim, houve cerceamento, na medida que eu fui notificado do inquérito. Houve uma reação interessante em todo o Brasil. Foi superbonito a mobilização, organização de advogados, sindicatos, do movimento negro, movimento feminista. Tudo quanto é forma de organização que havia naquela época se manifestou mandando carta para mim e para a UNE. A limitação que houve foi a seguinte: o inquérito obriga o estrangeiro a permanecer no lugar onde mora e se apresentar semanalmente à polícia federal. Então, nós tomamos a decisão de fazer uma grande campanha, de eu viajar, sair de Salvador. A UNE tinha a diretoria concentrada em São Paulo, nós funcionávamos basicamente na PUC de São Paulo. Ainda não tínhamos uma sede. Funcionamos nos primeiros dois anos na Fundação Getúlio Vargas, na FGV, e depois na PUC. E eu não podia sair com muita facilidade de Salvador, que era onde eu tinha residência fixa, eu morava lá. Nós tínhamos decidido que eu não sairia de Salvador a não ser em casos excepcionais. Eu fiquei de março até, se eu não me engano, setembro, outubro desse ano. Fizemos um Conselho Nacional, fizemos outras reuniões em Salvador. A diretoria ficou funcionando em contato comigo, eu morando em Salvador. Eu tinha que me apresentar semanalmente à polícia federal, assinar o livro de presença provando que eu não tinha fugido, que eu não tinha escapado. Foi um período constrangedor para mim, mas o que me magoou mais foi o constrangimento sobre os meus pais. Meus pais sofreram muito, meu pai e minha mãe, porque eles evidentemente jamais imaginavam e não estavam preparados para enfrentar uma situação como essas de ter o

telefone de casa com escuta policial, clandestina. Eu tinha um fusca, meu pai tinha me dado um fusca, e eu saí de casa com o fusca, com minha mãe, a polícia federal ostensivamente colava no fundo do carro, nos perseguia, nos seguia. Havia sempre policiais federais rondando a casa da minha família no bairro do Canela, onde nós morávamos. Temos casa até hoje, um apartamento, enfim. Houve esse constrangimento e eu não pude estar presente em certas lutas do movimento estudantil, porque havia essa limitação, embora eu fosse a reuniões em Salvador e tenha participado de assembléia já com o inquérito de expulsão tramitando. Houve um ato público muito importante em Salvador, fruto dessa campanha nacional. Dessa vez, nós decidimos que eu não iria, porque era um ato na Praça do Campo

Grande e a gente achou que era arriscado, eu podia ser preso e, talvez, nós não tivéssemos força para impedir que da prisão na rua, eu já fosse levado diretamente para um avião. Porque o estrangeiro, aquele que era objeto do inquérito, como não é um processo judicial, não vai a julgamento, é uma decisão administrativa. A qualquer momento o ministro da Justiça e o presidente da República podiam baixar decreto expulsando a pessoa que estava sendo objeto do inquérito. Então, a gente achou por bem tomar certas precauções, para que não acontecesse isso, porque eu poderia ser preso em uma determinada circunstância que justificasse, do ponto de vista da ditadura, o decreto e eu já sairia de uma prisão direto para o embarque e a expulsão do país.

Você pode contar como é que foi o episódio da sua entrevista à TV Itapuã de Salvador, em que você acusa os órgãos de segurança pela morte do Honestino Guimarães?

JA – O que aconteceu foi que havia um programa de entrevistas e supostas reportagens feitas por um jornalista muito polêmico, que era um jornalista que vinha do futebol, que narrava e divulgava partidas de futebol. Chamava-se Francis Teixeira e era muito conhecido porque ele inovou a linguagem do rádio e da televisão na Bahia, usando uma linguagem muito coloquial, expressões da rua, expressões interessantes, provocadoras para o futebol. Ele passou a fazer também televisão e fazia muitas entrevistas em que ele humilhava muitas vezes o entrevistado, submetia a vexame as pessoas. Ele tinha uma expressão que era assim: “Câmara nos olhos dele”. Então, a câmara vinha e fazia um close

na cara do entrevistado, especialmente quando ele estava mais constrangido, ou chorando. Ele submeteu muitas pessoas em Salvador a isso, que alguns podem ainda chamar de jornalismo. Era um constrangimento. Algumas pessoas se submetiam a esse tipo de coisa. Quando as pessoas não aceitavam o convite, ele ficava desafiando, dizendo que fulano ou fulana não tinha ido ao programa, que tinha que aparecer e tal e fazia críticas. No meu caso, ele ficou durante três ou quatro programas criticando muito a UNE e criticando o Javier como o estrangeiro, o espanhol, o comunista estrangeiro e etc. Chamar alguém de estrangeiro não é xingamento e muito menos ser espanhol, ou ser argentino, angolano ou australiano. Não é demérito para ninguém ser de determinada nacionalidade. Todos somos

de determinado nacionalidade à princípio, né? Nascemos em determinado país, temos a priori uma nacionalidade de nascença, embora possamos optar depois por outra nacionalidade, como foi meu caso. Eu me fiz brasileiro, eu quero ser brasileiro, sou brasileiro por uma decisão minha, não pelo fato de minha mãe ter me parido aqui no Brasil, o que teria sido uma honra. Mas eu tenho a honra de ser espanhol de nascimento e tenho a honra de ser brasileiro por opção. Então, havia esse discurso reacionário e conservador, como se ser estrangeiro fosse uma coisa a princípio sob suspeita e negativa, dita daquele jeito na televisão. Como se fez muita provocação, muita gente começou a me falar: “Era

bom você dar entrevista, era bom você responder, é bom você esclarecer”. Aí, eu fui à entrevista, procurei o diretor da televisão, que é deputado federal ainda hoje, um espanhol naturalizado, porque a lei também não permite, ainda hoje, que estrangeiros sejam donos de meios de comunicação de massa, como é o caso do rádio e da televisão. Disse a ele, que era espanhol e basco, dono da televisão: “Olha, eu quero ter o direito de responder a isso no programa, com a mesma menção, com o mesmo tamanho, sem o constrangimento de “câmara do olhos dele” ou, pelo menos, sem o abuso desse tipo de expediente e sem cortes, que eu não queria que o programa fosse montado. A minha entrevista, eu não queria que fosse montada. E foi aceito e eu gravei o programa. Ele fez alguma pergunta sobre a ditadura militar, alguma coisa assim, e eu disse que nós, do movimento estudantil,

não tínhamos uma postura contra os militares, nós não somos contra a existência da estrutura militar, seria uma bobagem, um infantilismo ridículo, ter um país sem forças armadas. Nós não éramos contra as forças armadas, nós éramos contra a ditadura militar e que o regime militar era responsável por (eu usei a expressão) verdadeiras barbaridades ou atrocidades contra os estudantes, entre elas o desaparecimento do ex-presidente da UNE Honestino Guimarães e de outras lideranças estudantis.

Disse e assumi isso. Muita gente pensa que foi por causa dessa entrevista que se moveu o inquérito de expulsão contra mim. Mas nós já tínhamos notícias que já estava havendo movimentação nos bastidores da ditadura, nos ministérios em prol disso, para fazer esse inquérito antes. A entrevista foi um dos argumentos arrolados pela polícia federal e pelo Ministério da Justiça para abrir o inquérito contra mim, mas foi usado também, pura e simples, o fato de eu ser o presidente da chamada, na época, proscrita UNE, União Nacional de Estudantes. Eles fizeram uma relação imensa de assembléias que eu dirigi, de atos que eu encabecei, de reuniões que eu coordenei. O fato de eu estar em vários congressos da UNE é que foi o mal, esse que foi o motivo. Entre as peças acusatórias estava a gravação da minha entrevista, mas ela não foi o móvel único, nem o móvel principal. Foi uma peça arrolada junto com outras.

Com o término do seu mandato, o que significou a eleição da Clara Araújo como presidente da UNE?

JA – Nesse ano, eu saí de Salvador para presidir o Congresso da UNE em Piracicaba. Foi uma viagem tomada de todos os cuidados. Fui recebido aqui em São Paulo por uma comissão enorme de estudantes, de personalidades democráticas. Eu me lembro que Ulisses Guimarães me ligou diretamente, estava o Comitê Brasileiro da Anistia. Meu advogado era Luiz Eduardo Greenhalgh, que todo mundo conhece, além de Ayrton Soares e de Ronildo Anobla. Eram três advogados: Ronildo Anobla, que encaminhou os trabalhos na Bahia, Ayrton Soares, que é bastante conhecido como advogado de presos políticos, de causas progressistas e também foi político em São Paulo, do PSB, e Luiz Eduardo Greenhalgh, que é deputado federal do PT, foi vice-prefeito de São Paulo, uma pessoa muito conhecida. Eles eram os três advogados. Ah, perdão, havia também o Seixas, advogado em Brasília. Os que fizeram de fato trabalho foi: de Ronildo Anobla, Sigmaringa Seixas e Luiz Eduardo Greenhalgh. Eles, ou parte deles, me receberam aqui, muitas lideranças de outros setores da

sociedade. Eu fui até Piracicaba, fiquei hospedado na casa do reitor da Universidade Metodista. Na época que eu fui responder inquérito, apresentei cinco testemunhas em favor do meu comportamento como cidadão, como líder estudantil, como militante de causas progressistas, entre eles o professor Boaventura, que era o reitor da Universidade Metodista de Piracicaba, o professor Pascoalino Magnavita, que foi meu professor na Faculdade de Arquitetura, e outras tantas personalidades da Bahia e de fora de lá. Nesse congresso que eu presidi, quebrando essa limitação que a lei impunha, nós escolhemos como candidata nossa do PCdoB, de Viração por conseguinte, Clara Araújo, que era líder estudantil no curso de Ciências Sociais da UFBA. Ela já era uma liderança na universidade. Ela foi eleita a primeira mulher da UNE, o que depois se repetiu com outra. Aliás se repetiu várias vezes com companheiras que eram do PCdoB também. Foi, então, que se quebrou esse tabu. Também foi do PCdoB o primeiro presidente negro eleito da UNE, que foi Orlando Júnior, estudante de direito da Universidade Católica de Salvador. A primeira mulher eleita presidente da UNE foi uma baiana e o primeiro presidente negro eleito na UNE também um estudante baiano.
Como você avalia a trajetória do movimento estudantil desde a sua gestão até os dias de hoje?

JA – Eu acho que o movimento estudantil cresceu de poderio. Porque, na nossa época, nosso movimento era um movimento de resistência. Ele conseguiu grandes efeitos no processo de redemocratização do país, mas o movimento estudantil de hoje é muito mais espalhado, espraiado nacionalmente. Hoje, nós temos movimento estudantil em grandes universidades e em pequeninas faculdades privadas, das grandes capitais brasileiras a pequenas cidades interioranas, expressando a própria expansão do ensino superior brasileiro, que saltou de 1 milhão e 500 mil estudantes na minha época para 3 milhões e 600 agora. Portanto 2 milhões a mais de estudantes universitários. A gente tem que considerar a ação dos estudantes, não apenas aquilo que é luta nacional, não pensar que movimento estudantil é só a ação da UNE. Porque muita gente confunde: “a UNE não é mais aquela, o movimento estudantil não é mais aquele, aquela velha UNE de 1968″. Não dá para comparar épocas, é um erro, é um equívoco metodológico do ponto de vista da pesquisa científica, histórica mesmo, como é uma injustiça comparar mecanicamente épocas com épocas, movimento estudantil com movimento estudantil. Ninguém fica dizendo “Ah, o movimento operário de agora não é mais o mesmo da época de Lula em 1978, 1979 em São Bernardo em São Paulo”. São dois movimentos operários que cumpriram e cumprem funções diferentes, em épocas históricas diferentes. Então, o movimento estudantil de agora é muito mais abrangente porque trata de cultura, de arte, promove bienais, eventos artísticos localizados, promove lutas específicas com muita força, participa de grandes campanhas nacionais, foi responsável por desencadear o processo nas ruas que levou ao impeachment de Collor, por exemplo.

Foi o movimento estudantil que fez a Campanha das Diretas, depois da minha época, fez luta pela Reforma Universitária, depois da minha época, fez a luta pelo impeachment de Collor. Agora, recentemente de novo, participou ativamente da luta pela reforma universitária. Levantou e levanta lutas fundamentais. E é um movimento estudantil muito mais em rede do que na mi

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